Por bferreira

“Manifestações demonstram a maturidade e a estabilidade política no país”

Apesar da conjuntura complexa para o governo, a manifestação é demonstração de maturidade e estabilidade. “Caso contrário, os órgãos não iriam aguentar”, diz a cientista política. 

Por isso, segundo ela, os protestos não devem ser vistos de forma negativa, até porque eles não vão atingir a gestão Dilma Rousseff a ponto de provocar seu impeachment se, evidentemente, forem respeitadas as cláusulas pétreas da Constituição. “Não tem como tirar a presidenta, porque não há embasamento legal para isso, até o momento. Mas é muito séria a irresponsabilidade de grupos que querem gerar um clima de ilegitimidade do processo eleitoral.”

A professora da Universidade Federal de São Carlos (UFScar) lembrou ainda que, independentemente da opinião de opositores à gestão da petista, é notório enfatizar que o Brasil tem um sistema de pleito reconhecido justamente pela sua lisura. Mas o que a direita busca é criar uma situação de terceiro turno.

A massa, segundo ela, que se mobilizou ontem tem na sua base a classe média, a que mais sentiu os impactos da crise econômica. Mas suas demandas são individuais e não mostram interesse em transformação de uma sociedade.

“O sonho da classe média é ser classe média alta. Ela agora se sente castrada na sua capacidade de manter sua condição de vida. Está mais preocupada com seu padrão de compras, suas grifes, do que mudar, por exemplo, a estratificação social. E isso não é consciência política.”

Maria do Socorro Braga, cientista política

“Se das ruas sair uma vontade consolidada de ‘fora Dilma’, pode acontecer”

O governo começa a sentir os impactos de medidas econômicas equivocadas tomadas nos últimos quatro anos. Na avaliação do cientista político, se os protestos continuarem, a presidenta não vai aguentar a pressão e deve deixar o cargo em seis meses, rompendo com compromissos firmados com o PT e o ex-presidente Lula. “Existe uma arrogância em reconhecer os próprios erros. Dilma Rousseff não se dispõe a apoiar com clareza os ajustes feitos por Joaquim Levy (ministro da Fazenda), para apagar a lambança que ela e o Mantega (ex-ministro da Fazenda) fizeram no primeiro mandato”, afirma ele.

Segundo o professor licenciado da Universidade de Brasília (UnB), o ato anti-Dilma de ontem, em São Paulo, lembra a manifestação do Diretas-Já, de 1984, no Vale do Anhangabaú. Na época, cerca de 1,5 milhão se reuniu no local. “Esses atos no país podem ser um ponto de partida para um processo muito maior. O impeachment é 10% jurídico e 90% político. Se das ruas partir uma vontade coletiva e consolidada de ‘fora Dilma’, pode acontecer. Todos os que foram presidentes da Câmara dizem que o que o povo quer, a Casa também quer. E os protestos são claros: o foco é o governo.”

A imagem arranhada da gestão da petista deve contribuir para que Lula não consiga voltar ao cenário político como redentor. “Ao contrário de antes, agora as pessoas sabem quem ele é. Seu carisma deve-se muito à situação econômica favorável. Mas agora isso não é suficiente.”

Paulo Kramer, cientista político

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