Por felipe.martins
Publicado 17/03/2015 03:39 | Atualizado 17/03/2015 03:39

Rio - Um dia após as manifestações em várias partes do país contra o governo, a presidenta Dilma Rousseff disse que a corrupção é uma “senhora bastante idosa”. A declaração, dada a jornalistas logo depois da solenidade de sanção do Código de Processo Civil, foi uma resposta ao presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ). Pela manhã, o deputado afirmou, em evento em São Paulo, “que a corrupção não está no Legislativo, está no Executivo”. A presidenta também mandou um recado: está aberta ao diálogo. “Vamos brigar depois”, disse ela, ao pedir apoio para os ajustes fiscais.

“A corrupção não nasceu hoje. Ela é uma senhora bastante idosa neste país e não poupa ninguém. Ela pode estar em qualquer área, inclusive no setor privado”, afirmou ela. No mesmo momento que o conversava com jornalistas, o Ministério Público Federal denunciava 27 pessoas por corrupção, lavagem de dinheiro e formação de quadrilha. Entre elas, está o tesoureiro do PT, João Vaccari Neto.

Depois dos protestos, Dilma afirma estar disposta ao “diálogo humilde” com todos os setores da sociedade Roberto Stuckert Filho/PR

Mais uma vez, Dilma disse que são democráticos os atos que levam as pessoas às ruas e que isso deve visto como conquistas importantes.“Ontem (domingo), quando vi como ocorreu na sexta, centenas de milhares de cidadãos se manifestando nas ruas, não pude deixar de pensar e tenho certeza que muitos concordam comigo: valeu a pena lutar pela liberdade, pela democracia. Esse país está mais forte do que nunca”, afirmou ela.

Ao falar sobre os ajustes feitos para diminuir os impactos da crise internacional, a presidenta afirmou que o governo fez o que podia. Ela evitou mea-culpa, mas admitiu que podem ter ocorrido erros na política econômica no primeiro mandato. Dilma disse, ainda, que as medidas adotadas tinham como foco diminuir os impactos sobre a população.

“É possível que a gente possa ter até cometido algum. Agora, qual foi o erro de dosagem que nós cometemos? Nós gostaríamos muito que houvesse uma melhoria econômica de emprego e de renda. Tem gente que acha que a gente devia ter deixado algumas empresas quebrarem e muitos trabalhadores se desempregarem. (...) Podem falar o seguinte: então era melhor deixar quebrar, deixar quebrar? Eu não acredito nisso.”

Dilma também falou sobre um dos dos pleitos da oposição —a falta de diálogo — e negou que tenha se afastado do PMDB, partido do seu vice.“Se alguém achar que eu não fui humilde em algum diálogo, me diz em qual, que aí tomo providências. Me diz onde e aí vou avaliar. Estamos dispostos a dialogar com quem quer que seja, com atitude de humildade, querendo escutar”, afirmou.


Presidenta admite erro no Fies

Em tom de brincadeira, Dilma Rousseff disse aos jornalistas que iria admitir um erro do governo: que foi deixar as matrículas do Fundo de Financiamento Estudantil (Fies) sob responsabilidade das faculdades particulares. O clima descontraído ocorreu porque, minutos antes, a presidenta reclamou que a imprensa cobrava dela uma “situação confessional”, como se ela tivesse que admitir erros.

“Nós não fizemos isso com o Prouni (Programa Universidade para Todos ), não fazemos isso com o Enem , não fazemos isso com ninguém. (...) Isso não é culpa do setor privado. Quem controlava as matrículas era o setor privado. Este é um erro que nós cometemos, detectamos, voltamos atrás e estamos ajustando o programa”, afirmou ela.

NAS MÃOS DO CONGRESSO

Apesar de parte dos manifestantes pedir, no domingo, o impeachment da presidenta, a saída do poder de um chefe do Executivo não depende apenas do clamor popular. “Achar que o governo vai mal economicamente é uma coisa. Não se pode confundir isso com a conduta da presidenta, que, até o momento, não praticou nenhum crime de responsabilidade”, explicou o professor Gustavo Sampaio, chefe do Departamento de Direito Público da UFF. Para dar início ao processo, é necessário que pelo menos dois terços dos deputados federais aprovem o pedido. Se isso ocorrer, a denúncia vai para o Senado, que fará o julgamento. Para que ela seja retirada do cargo, dois terços dos senadores têm que votar a favor do impeachment. Quem assume, então, é seu vice, Michel Temer. Se houver algum impedimento contra ele até a primeira metade do mandato, o presidente da Câmara fica no cargo, mas novas eleições são feitas em 90 dias. Se for na segunda metade do mandato, o novo presidente é escolhido por deputados e senadores.

Vice defende ajuste

O vice-presidente Michel Temer (PMDB) participou de um almoço com empresários da Federação das Indústrias do Rio (FIRJAN) e falou com a imprensa sobre a conversa que teve com a presidenta Dilma Rousseff ontem pela manhã. “Falamos sobre o que o governo deve fazer para atender ao clamor das ruas. Em junho de 2013, o governo se reuniu e tomou uma série de providências. Agora, elas se impõem novamente e passam pelo chamado ajuste econômico”, disse. Temer negou ainda que o governo esteja subestimando seu poder de promover melhor diálogo com o Legislativo, presidido nas duas Casas por seus correligionários Eduardo Cunha, da Câmara, e Renan Calheiros, do Senado.

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