Por felipe.martins

Rio - A CPI da Petrobras toma 90% do tempo do seu relator, o deputado federal Luiz Sérgio (PT-RJ). Pudera: é de suas mãos que sairá o documento final com as recomendações para punir os responsáveis pelo desvio de, pelo menos, R$ 2,1 bilhões da estatal. O escândalo abala empreiteiras, parlamentares, governadores e o governo de Dilma Rousseff, além do próprio PT.

“Para quem o Fernando Baiano entregou dinheiro na Barra%3F Tem que dizer ”%2C diz o relator da CPICarlo Wrede / Agência O Dia

Pouco antes de ir para Brasília, onde ouviu a ex-presidente da estatal Graça Foster dizer que “nunca soube de propina”, o deputado manifestou sua insatisfação com a tentativa da oposição em transformar a CPI em instrumento de “luta política” contra o PT. Em entrevista ao DIA, ele garantiu que não participa de nenhum acordo para evitar o depoimento de operadores do PMDB, descartou a convocação do petista José Dirceu e defendeu o fim do financiamento privado de campanhas eleitorais, apontado por ele como a raiz da corrupção.

O DIA: A criação de quatro sub-relatorias diminuiu sua importância como relator da CPI?

LUIZ SÉRGIO: A criação delas trouxe uma enorme dificuldade para mim. Normalmente, elas surgem de uma necessidade do relator, mas vieram antes. Isso traz problemas. Vamos ter quatro sub-relatórios. Prevejo disputa política na hora de elaborar o relatório final.

Na semana passada, o senhor defendeu que o João Vaccari Neto, tesoureiro do seu partido, não fosse convocado imediatamente, mas os membros aprovaram a convocação. Atrapalha seu planejamento? (O tesoureiro do PT é apontado pela Justiça como responsável pelo repasse de propina paga pelo ex-diretor de Serviços Renato Duque a campanhas eleitorais)

De forma nenhuma. A convocação dele era previsível e necessária. Mas quero ouvir os tesoureiros de todos os partidos. Eles têm que responder na CPI se receberam o dinheiro e para quem entregaram. Para quem o Fernando Baiano (operador do PMDB) entregou dinheiro na Barra? Tem que dizer. Mas a Comissão não pode pular etapas. Precisamos ouvir as empresas, o doleiro Alberto Youssef (preso pela Polícia Federal desde março de 2014, operava no esquema para o PP e o PMDB), que era o ‘banco central’ do esquema, e todos os operadores.

A oposição pressionou pela convocação do Vaccari. Tentativa de mirar a CPI apenas no PT?

Há um grande percentual de deputados que está como membro da CPI apenas para fazer luta política, quando o objetivo deveria ser salvar a Petrobras.

Há um acordo para não chamar os apontados pela Justiça como operadores do PMDB no escândalo?

O que posso dizer é que, da minha parte, não há acordo para deixar de chamar alguém. Chamem o Vaccari, o Baiano e o policial federal Jayme Alves (conhecido como Careca, ele contou a investigadores da Polícia Federal que entregou dinheiro ao presidente da Câmara, Eduardo Cunha, do PMDB). Se eles distribuíram dinheiro, têm que ir.

Tramita um requerimento que pede o depoimento do ex-ministro da Casa Civil José Dirceu à CPI. (O petista é um dos condenados por envolvimento no escândalo do mensalão e recebeu dinheiro de empreiteiras investigadas na Lava Jato) O senhor defenderá que ele seja chamado para depor?

Ele prestou assessorias a empresas citadas. Se esse for um critério para chamá-lo, teremos que ouvir todos os políticos e investigar todo mundo. Chamar o Dirceu é deixar de ir a fundo e seria transformar a CPI numa investigação de uma pessoa ou um partido.

A investigação associa a corrupção à doação de empresas para campanhas eleitorais. O senhor diria que existe uma lógica nessa conexão?

Acredito que o grande denunciado seja nosso sistema político. As grandes crises de corrupção tiveram como pano de fundo o financiamento privado de campanhas. O sistema político é bananeira que já deu cacho. O Supremo Tribunal Federal (STF) já acabou com o financiamento, mas o Gilmar Mendes impede a declaração do resultado, sob o argumento falho de que não é o órgão que faz reforma política. Mas foi o STF que acabou com a cláusula de barreira.

Qual avaliação que o senhor faz da lista de políticos que estão sendo investigados pelo STF? Sabemos que, no Brasil, a associação com o ilícito funciona tanto quanto a condenação.

A lista do Rodrigo Janot (procurador-geral da República, que pediu a abertura de inquéritos no STF) não pode incriminar ninguém. Os meios de comunicação têm papel na hora de impedir essa associação da qual você fala. É fruto de desinformação e da criminalização da política que vem sendo construída há tempos. Quanto ao futuro dos políticos que constam da lista, eu não posso fazer previsão nenhuma. Só espero que todos tenham direito a defesa. Os que forem culpados, que paguem.

Velha pedra no sapato da presidenta Dilma Rousseff, Eduardo Cunha é um dos citados, e sua ida à CPI foi uma exaltação a sua figura. Qual sua relação com ele?

Ele foi corajoso de ir depor. Sempre tivemos uma boa relação. O problema é que sua ida abriu um precedente. Querem que todos os investigados vão lá depor. A CPI não é a Comissão de Ética da Câmara. Se alguém quiser ir,como ele, vamos abrir espaço. Se eu quisesse obstruir os trabalhos da Comissão, chamaria todo mundo.

Por que o segundo mandato de Dilma Rousseff começou tão acuado pela oposição e pela própria base aliada?

Não está acuado. As eleições foram polarizadas, e a oposição está em seu papel. Na base, as insatisfações são normais. Tudo piora por conta da situação econômica, mas o segundo semestre será melhor.

E as manifestações que pedem o impeachment da presidenta?

O problema é que tem pessoas que são denunciadas que podem se vestir de amarelo e podem participar das manifestações, vide o Agripino Maia (senador e presidente do DEM, investigado por corrupção pelo STF). O governo precisa estar atento às ruas. É legítimo. O descontentamento não pode ser ignorado. Daí a pregar o impeachment ou, pior ainda, a intervenção militar vai uma distância muito grande.

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