Jornalista desvenda morte de guerrilheiro em Minas

Milton Soares de Castro foi morto em 1967, num presídio de Juiz de Fora, e seu corpo não foi entregue à família. Exército informou que ele tinha se suicidado

Por O Dia

Rio - Há 13 anos, a jornalista Daniela Arbex colocou na cabeça uma ideia que mudaria sua trajetória. Ao se debruçar sobre os pedidos de indenização de presos políticos em Juiz de Fora, a repórter do jornal ‘Tribuna de Minas’ decidiu procurar o corpo do operário Milton Soares de Castro, 26 anos, único guerrilheiro que desapareceu na Penitenciária de Linhares durante a ditadura.

Encravada na cidade do sul de Minas Gerais, a prisão foi um dos principais centros de tortura do regime. Por lá passaram, por exemplo, o atual governador mineiro, Fernando Pimentel, e o prefeito de Belo Horizonte, Márcio Lacerda.

Apenas Castro não sobreviveu. “Uai, um corpo não pode sumir”, dizia Daniela, ao justificar a pauta frente a seus editores em 2002. Alguns meses depois, ela tornou pública série de reportagens sobre a localização da cova do militante num cemitério de Juiz de Fora.

A história estava, porém, longe de acabar. E a jornalista seguiu mapeando a vida do militante, gaúcho de Santa Maria, até provar que ele foi morto em 1967 por agentes da repressão. O resultado é o livro ‘Cova 312’, da Geração Editoria.

A penitenciária de Linhares%2C onde Milton Soares de Castro morreu%2C também teve entre seus presos o governador de MG%2C Fernando PimentelDivulgação

“O Milton foi o único civil da Guerrilha do Caparaó que foi preso na Serra e foi a única pessoa da guerrilha que morreu sob custódia do Estado em Linhares. Isso não foi esclarecido, e ele continuava no esquecimento”, conta Daniela.

Em 2002, ela localizou os registros do sepultamento nos livros do cemitério de Juiz de Fora. Restava saber como fora a morte. Na versão do Exército, Milton de Castro teria se suicidado. A família e companheiros duvidavam. As provas de que a versão era falsa começaram a surgir em 2007 com novas testemunhas e, enfim, no ano passado, quando Daniela localizou no Superior Tribunal Militar cópia do laudo da perícia na cela onde Castro foi achado.

O material foi apresentado a peritos, que comprovaram erros. “Também consegui abrir as portas de Linhares. Fui com um perito criminal, e a cela está praticamente igual. Foi possível entender os equívocos da perícia”, explica Daniela. A penitenciária continua ativa.

As descobertas feitas por Daniela permitiram que Castro, dado como sumido pela Comissão Especial de Mortos Desaparecidos, passasse a ser identificado oficialmente como morto. A família, no entanto, nunca quis exumar o corpo e, por esse motivo, a Comissão Nacional da Verdade manteve o status de desaparecido.

Para a jornalista, no entanto, isso é um equívoco. “Além de toda a documentação do enterro, agora a gente tem a imagem da necropsia”, observa.


‘Queria dar voz a ele’, diz jornalista

Embora pesquisasse o caso há anos, Daniela Arbex diz que decidiu fazer o livro após um emocionante encontro com a família de Castro, em 2013. “Eu tinha a ideia de fazer o livro, mas queria vê-los e saber como seria esse contato. Foi muito emocionante. Eu nasci em 1973. Era muito menina na época da ditadura e sempre tive vontade de dar a minha contribuição. Acho que o caso do Milton me deu a chance de fazer isso”, afirma Daniela.

O guerrilheiro Milton de Castro no momento da prisão na Serra do Caparaó%3B em destaque%2C a imagem da cova onde ele foi enterradoDivulgação

Logo depois do golpe militar, Milton Soares de Castro se ligou ao PCdoB e mais tarde ao Movimento Nacionalista Revolucionário (MNR), apoiado pelo ex-governador Leonel Brizola. Em 1966, foi um dos primeiros a chegar à Serra do Caparaó, na divisa entre Minas e Espírito Santo, para a primeira tentativa de guerrilha rural do país.

O grupo de 13 opositores políticos foi preso em 1º de abril de 1967 e, 27 dias depois, Castro foi encontrado morto em sua cela. Apesar de o Exército ter ocultado o corpo, foi divulgado oficialmente que ele teria se matado. Até a família recebeu a informação, mas o corpo não foi entregue. “Na hierarquia, ele era considerado o menos importante por ser um civil, enquanto todos os outros tinham formação militar. Mas ele estava lá desde o planejamento e ficou até o final. Poxa, por que ele é menos importante? Eu queria dar voz a ele”, diz Daniela.

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