‘Não descarto que o Lula seja candidato à Presidência’,  declara Tarso Genro

Ex-governador do Rio Grande do Sul não tem esperanças de que ocorram mudanças na atual política econômica

Por O Dia

Rio - Um dos principais quadros do PT, o ex-governador do Rio Grande do Sul Tarso Genro critica o presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), por propor, “de uma maneira muito oportunista e esperta”, a realização de plebiscito para a população decidir sobre a redução da maioridade penal.

Empenhado na criação de uma frente suprapartidária para alavancar a esquerda nas próximas eleições, Tarso Genro diz que não tem esperanças de que ocorram mudanças na atual política econômica que vem sendo conduzida no governo da presidenta Dilma Rousseff. Para ele, o PMDB é um dos responsáveis por tornar o Congresso mais conservador.

"O pensamento majoritário da sociedade%2C quando está assediada pela criminalidade%2C é muito simplista"%2C define ex-governador do RS”Caco Argemi / Brasil Econômico

Como o senhor vê a atual conjuntura política do Brasil?

O governo aplica as mesmas medidas que todos os governos aplicaram até agora para enfrentar esse tipo de crise. Medidas de ortodoxia econômica e financeira que partem do pressuposto de que a única forma de combater a inflação e a única forma de revigorar a saúde financeira do Estado é reduzindo o crescimento, reduzindo despesas sociais, tratando a questão como puramente orçamentária. Isso, na minha opinião, é um equívoco.

Qual seria a alternativa?

Na minha concepção, é preciso reestruturar o sistema tributário, reescalonar as alíquotas de imposto de renda, instituir taxação das grandes fortunas e das grandes heranças, para que, pelo menos, os efeitos da recomposição econômica e da retomada do crescimento sejam distribuídos para toda a sociedade e que as penas também sejam distribuídas para todos.

O presidencialismo de coalizão está em crise?

O presidencialismo de coalizão já terminou. Como ministro da Coordenação Política, fui organizador da coalizão no mandato do presidente Lula. Essa coalizão deu enorme estabilidade para o presidente governar no seu segundo governo, o melhor que tivemos até agora. Ela se justificou plenamente, mas agora ela se esgotou. Por isso, queremos criar uma nova frente política para governar o país. Essa nova frente política precisa ter uma visão programática diferente da atual.

Mas essa frente, caso venha a governar, seria também uma coalizão?

Não. Seria semelhante à Frente Ampla do Uruguai. Teria que ter uma mesa diretora, um programa de compromisso e capacidade de condução do governo, e não ser apenas o respaldo do governo, como a coalizão atual. Ela passou a ser praticamente parlamentarista, exercendo no governo uma influência sem compromisso programático.

O problema do presidencialismo de coalizão também não está no peso do PMDB no governo?

Os partidos são reflexo do sistema político. Não é correto pôr a culpa no PMDB. Sua hegemonia sobre o governo é reflexo do padrão de democracia política que temos, do nosso sistema partidário e do nosso sistema político.Ele é um partido que vem desde a história do regime militar e que hoje não tem a mínima unidade em nenhum ponto fundamental. Não tem liderança superior que o agregue. É um partido totalmente regionalizado que se constituiu em cima da luta pela democracia política. O PMDB é produto desse processo distorcido e não o responsável por ele.

Ele, no entanto, dá governabilidade.

Ele é a base da governabilidade hoje no país. É assim com o governo Dilma e seria com qualquer outro, com Aécio Neves, com José Serra ou com Geraldo Alckmin, porque o PMDB é essa rede de interesses regionais que dá suporte a qualquer governo que o acolha. Essa é a deformação do nosso sistema. Culpar o PMDB e suas lideranças é uma visão imediatista que perde a dimensão histórica do processo democrático brasileiro, que também chegou ao seu limite. Essa deformação poderá comprometer o futuro e, inclusive, a saúde da democracia brasileira.

A que o senhor atribui essa independência do Congresso, que impõe derrotas ao Executivo?

A relação estabelecida com determinado tipo de governo se esgotou. Isso leva o PMDB a estar mais dividido e a, portanto, se articular para pressionar mais o governo em função dos interesses fracionários. Tanto é verdade que nem mesmo a pressão do PMDB é uma pressão unitária. Ela é fragmentada em diversas lideranças e em diversos interesses. É o que tem ocorrido, na reforma política, na apuração dos casos de corrupção, na questão das terceirizações. Não creio que essa questão possa ser resolvida a partir da análise de independência do Congresso. Depois da Carta de 1988, o Congresso sempre foi independente e faz o movimento que reflete o interesse das maiorias que são formadas.

Há uma tendência conservadora?

O PMDB construiu uma maioria conservadora no Congresso. Essa maioria está retratada não apenas nos temas que referem aos direitos da cidadania, às questões relacionadas com a condição sexual das pessoas, aos interesses do mundo do trabalho, como também na negativa de fazer uma reforma política séria. Tudo isso está pautado por esse arco conservador que o PMDB dirige e orienta em cada tema, mas sempre de maneira fragmentada e negociada internamente.

Na reforma política, a única mudança de impacto foi o fim da reeleição.

O fim da reeleição com mandato de cinco anos pode ser uma coisa positiva, mas que não vai fazer muita diferença se não mudarem o sistema político que está aí.

Como o senhor avalia o gesto de Eduardo Cunha de não colocar uma reforma política em plebiscito e agora afirmar que o fará com a redução da maioridade penal?

O pensamento majoritário da sociedade, quando está assediada pela criminalidade, é simplista. Ela tende a acreditar que mais repressão e mais pena, seja para quem for, vai reduzir a criminalidade. Como todas as pessoas que não têm um projeto de visão de mundo estabelecida, de como quer o futuro da sociedade, o programa ou a utopia que defende, Eduardo Cunha vai ao sabor dessas circunstâncias. Quando ele se nega a plebiscitar a reforma política e se dispõe a plebiscitar a redução da maioridade penal, especula com essa situação.


É perfeitamente natural que as pessoas assediadas pela violência, principalmente nas grandes regiões metropolitanas, tenham uma visão imediatista. É o mesmo que colocar em consulta popular se a taxa de juros deve ser de 10% ou de 0,5%. Sabemos qual é a resposta: será 0,5%. De uma maneira muito oportunista e esperta, é isso que o deputado Eduardo Cunha faz.

O que a frente democrática apresentará no Congresso do PT?

No Congresso do PT do Grande do Sul, por proposição da Mensagem, com acolhimento unânime de todas as posições partidárias, aprovamos resolução política que vai na direção da organização, no futuro, de uma nova Frente Política, com as características que eu e outros companheiros estamos defendendo perante os movimentos sociais e partidos do campo democrático da esquerda.

O presidente Lula tem condições de disputar a eleição de 2018?

Já falei com ele sobre isso. Ele não diz nem que sim nem que não. Acho que faz muito bem em adotar essa posição. O Lula tem responsabilidade muito maior do que a sua relação com o PT, inclusive no esforço de dar estabilidade para a presidenta Dilma governar. Eu, por exemplo, não concordo com o ajuste, mas estou disposto a dar condições de governabilidade. Não tenho influência para isso, mas, no que depender de mim, quero ajudar. O Lula inspira essa posição. Não descarto que possa se apresentar, mas isso será discutido, evidentemente, após 2016.


Últimas de _legado_Brasil