Por marcelle.bappersi

O presidente da C√Ęmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), voltou a negar nesta quinta-feira que tenha recebido propina do empres√°rio da Toyo Setal J√ļlio Camargo, um dos delatores da Opera√ß√£o Lava Jato. Em depoimento ao juiz S√©rgio Moro, da 13¬™ Vara Federal de Curitiba, que julga as causas ligadas √† opera√ß√£o, Camargo disse que Cunha pediu US$ 5 milh√Ķes de propina para que um contrato de navios-sonda da Petrobras fosse viabilizado.

‚ÄúQualquer coisa que seja a vers√£o que est√° sendo atribu√≠da √© mentira. √Č mais um fato falso, at√© porque esse delator [Camargo], se ele est√° mentindo, desmentindo o que ele delatou, ele por si s√≥ j√° perde o direito √† dela√ß√£o‚ÄĚ, disse Cunha, ao falar com os jornalistas.

O presidente da C√Ęmara do Deputados%2C Eduardo Cunha%2C diz que delatou mentiuJose Cruz/ABr

O presidente da C√Ęmara tamb√©m acusou o procurador-geral da Rep√ļblica, Rodrigo Janot, de ter ‚Äúobrigado‚ÄĚ Camargo a mentir. ‚Äú√Č muito estranho, √†s v√©speras da elei√ß√£o do procurador-geral da Rep√ļblica e √†s v√©speras de pronunciamento meu em rede nacional, que as amea√ßas ao delator tenham conseguido o efeito desejado pelo procurador-geral da Rep√ļblica, ou seja, obrigar o delator a mentir‚ÄĚ, disse Cunha, ao ler trecho de uma nota que divulgou √† imprensa. O mandato de Janot na Procuradoria-Geral da Rep√ļblica (PGR) acaba no dia 17 de setembro e ele pode ser reconduzido ao cargo pela presidenta por mais dois anos.

Eduardo Cunha disse ver no depoimento uma a√ß√£o da PGR em articula√ß√£o com o Planalto para constranger o Congresso Nacional sobre um eventual pedido de impeachment da presidenta Dilma Rousseff. ‚ÄúH√° um objetivo claro de constranger o Poder Legislativo, que pode ter o Poder Executivo por tr√°s, em articula√ß√£o com o procurador-geral da Rep√ļblica‚ÄĚ, afirmou.

Desde a divulga√ß√£o da lista encaminhada ao Supremo Tribunal Federal (STF) por Janot, com os nomes de pol√≠ticos envolvidos na Opera√ß√£o Lava Jato, o presidente da C√Ęmara diz ter havido motiva√ß√£o pol√≠tica para a cita√ß√£o de seu nome na lista. ‚ÄúTem muitos fatos estranhos desde o in√≠cio que me colocaram nessa opera√ß√£o da atua√ß√£o do Poder Executivo. H√° muito estranheza com rela√ß√£o a isso. Desde o in√≠cio, n√≥s estranhamos isso. Eu n√£o gosto de fazer acusa√ß√£o que n√£o posso provar.‚ÄĚ

Segundo Cunha, as a√ß√Ķes buscaram fragiliz√°-lo. ‚ÄúA mim n√£o v√£o fragilizar e, geralmente quando tentaram fazer isso com a instaura√ß√£o do inqu√©rito h√° quatro meses, o efeito foi reverso. Foi bumerangue‚ÄĚ, disse ele. Na opini√£o do deputado, o depoimento de Camargo foi nulo por ter sido prestado na Justi√ßa de primeira inst√Ęncia. Cunha lembrou que, por ter foro privilegiado, todas as investiga√ß√Ķes envolvendo seu nome t√™m que passar pelo STF. ‚ÄúEssa dela√ß√£o dele n√£o existe, √© nula porque foi homologada por autoridade incompetente, porque, se eu fa√ßo parte da dela√ß√£o dele, n√£o √© o juiz [Sergio Moro] que deveria homolog√°-la, mas, sim, o Supremo Tribunal Federal.‚ÄĚ

No depoimento, Camargo disse que pagou ao doleiro Alberto Youssef US$ 5 milh√Ķes em nome de Cunha. De acordo com o empres√°rio, o dinheiro seria usado em campanhas pol√≠ticas e Youssef foi acionado porque a opera√ß√£o precisava ser feita com agilidade, e o doleiro tinha dinheiro dispon√≠vel.

Mais US$ 5 milh√Ķes teriam sido pagos por meio de outro operador, Fernando Soares, o Baiano, a quem Camargo acusou de ser s√≥cio oculto de Eduardo Cunha. O presidente da C√Ęmara nega e disse que s√≥ teve dois encontros com Baiano para tratar de quest√Ķes relativas √† Medida Provis√≥ria (MP) dos Portos

‚ÄúEle [Baiano], ali√°s em depoimento que ele deu, em inqu√©rito envolvendo o senador Edson Lob√£o [PMDB-MA], explica a rela√ß√£o que teve comigo, e eu confirmei. Apenas fiz uma corre√ß√£o m√≠nima de detalhes publicamente quando foi divulgada em abril. Ele esteve duas vezes comigo para falar, na √©poca em que estava sendo discutido o problema de MP dos Portos, que trata de contratos de concess√£o e arrendamento de terminais em portos p√ļblicos."

Aos jornalistas, Cunha disse n√£o temer uma poss√≠vel acarea√ß√£o com Camargo. ‚ÄúEu fa√ßo, olho no olho, com quem quiser. Eu n√£o tenho dificuldade nenhuma de rebater quem quer que seja. Quem n√£o deve n√£o teme, e ele est√° mentindo, e o delator tem que provar a sua mentira. N√£o cabe. O √īnus da prova √© de quem acusa, n√£o de quem tem que se defender‚ÄĚ, afirmou.

O dinheiro das propinas teria vindo das empresas Samsung e Mitsui. Em depoimento, Youssef disse que Cunha era destinat√°rio de propina paga pelas empresas Samsung e Mitsui num contrato de aluguel de sondas celebrado com a Petrobras.

Os presidentes das empresas, J. W. Kim (Samsung) e Shinji Tsuchiya (Mitsui), v√£o depor no in√≠cio de agosto na Comiss√£o Parlamentar de Inqu√©rito (CPI) da Petrobras. ‚ÄúEu espero que v√£o o mais r√°pido poss√≠vel e que quebrem todos os sigilos deles e de quem quer que seja; que se investigue a fundo. Eu n√£o tenho nenhuma preocupa√ß√£o com isso. Zero de preocupa√ß√£o‚ÄĚ, afirmou Cunha, que n√£o descartou a possibilidade de voltar a prestar esclarecimentos na CPI. ‚ÄúSe a CPI entender que √© preciso explicar, que ficou alguma d√ļvida, eu vou l√° amanh√£, pode reunir extraordinariamente, e eu vou l√°‚ÄĚ, acrescentou.

Em nota, a PGR esclareceu que o depoimento prestado por J√ļlio Camargo na Justi√ßa Federal do Paran√° n√£o tem rela√ß√£o com as investiga√ß√Ķes do STF. Segundo a nota, a audi√™ncia referente √† a√ß√£o penal da primeira inst√Ęncia ‚Äď que tem r√©u preso, ou seja, tem prioridade de julgamento ‚Äď foi marcada pelo juiz federal Sergio Moro em 19 de junho, a pedido da defesa de Fernando Soares. E a "PGR n√£o tem qualquer inger√™ncia sobre a pauta de audi√™ncias do Poder Judici√°rio, tampouco sobre o teor dos depoimentos prestados perante o juiz".

J√° o ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presid√™ncia Rep√ļblica, Miguel Rossetto, ao comentar as declara√ß√Ķes de Eduardo Cunha, disse: "O que √© fundamental, e que a sociedade vem acompanhando, √© o correto funcionamento das institui√ß√Ķes. Correta aplica√ß√£o das diversas legisla√ß√Ķes, que haja transpar√™ncia nas a√ß√Ķes e iniciativas de todas as estruturas de poder. Que os organismos de fiscaliza√ß√£o respondam a essas legisla√ß√Ķes e trabalham de uma forma eficiente."

O Pal√°cio do Planalto, por meio da Secretaria de Imprensa, informou que n√£o vai se manifestar sobre o assunto.

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