De Olho Na Política: Os dois lados das manifestações

Em regimes como o que foi o de 1964, manifestantes que passaram pela orla poderiam ter amanhecido nesta segunda-feira na cadeia

Por O Dia

Rio - As manifestações de ontem em vários pontos do país deram uma amostra legítima do nível de insatisfação de uma parcela do povo com o governo federal. Mesmo quem seja de ideologia mais próxima aos governistas não pode deixar de concordar: motivos de reclamação não faltam. Muitas promessas de campanha foram descumpridas e cobrar a presidenta por isso faz parte da democracia. Ao lado destes cidadãos insatisfeitos, no entanto, viu-se ontem muitas aberrações. Um grande grupo que foi às ruas defendeu o oposto da democracia. Não é possível encarar isso como fato normal. Talvez, lembrar alguns fatos históricos seja útil num momento como esse. 

Para começar, aqueles que portavam cartazes pedindo golpe militar como antídoto contra a corrupção devem ter a memória avivada. Mesmo sob censura, a imprensa conseguiu noticiar naquele período em que generais dirigiam o Brasil vários casos de desvio de dinheiro público. Um dos maiores: no início da década de 80, a empresa de crédito imobiliário Delfin foi beneficiada com empréstimo de Cr$ 70 bilhões no BNH para abater dívida de Cr$ 82 milhões na mesma instituição. Três ministros da ditadura foram acusados de participação na maracutaia.

Há vários outros episódios semelhantes. Como as milionárias comissões pagas pela empresa General Electric, em 1976, a funcionários do governo militar para ter preferência na venda de trens à Rede Ferroviária Federal. Ou o caso Coroa Brastel, em que dois ministros da ditadura teriam desviado uma bolada da Caixa Econômica Federal. Poderia citar outros vários escândalos, que vieram à tona mesmo com todas as limitações impostas aos jornalistas.

A corrupção, essa erva daninha, existe atualmente e existia antes. A grande diferença é que hoje se pode denunciá-la e reclamar contra ela livremente. E aí está outro motivo importante para abominar qualquer manifestação a favor de um golpe militar. Em regimes como o que foi instalado no Brasil em 64, protestos contra o governo não seriam tolerados e muitos dos manifestantes que passaram pela orla poderiam ter amanhecido nesta segunda-feira dentro da cadeia apenas por expressar sua opinião. Ou poderiam desaparecer para sempre. Protestar contra a corrupção do governo petista ou contra a crise econômica é um direito. Gritar pela volta do regime militar é como querer solucionar um delito com um crime ainda mais grave.

Por trás da Tribuna

A temperatura das discussões no Congresso algumas vezes esquenta tanto que resvala para a baixaria. Há quem se escandalize, mas a verdade é que no passado os bate-bocas entre parlamentares eram muito mais quentes.

Basta lembrar de dois episódios protagonizados pelo ex-deputado federal e governador da Guanabara, Carlos Lacerda. Certa vez, em uma discussão na Câmara, ouviu de um opositor que o acusava de plagiar um projeto: “Vossa Excelência não passa de um ladrão de honrarias”. Ao que Lacerda respondeu: “Vossa Excelência pode ficar descansado pois não há nada que eu possa roubar do senhor”.

Em outra discussão, foi atacado por Ivete Vargas, filha do presidente Getúlio: “Vossa Excelência é um purgante”. E Lacerda devolveu rapidamente: “E Vossa Excelência é o efeito”.

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