De Olho na Política: A tal crise política não existe

Alguém duvida que se o governo tivesse recursos para atender aos pedidos de deputados e senadores voltaria a recuperar seus aliados?

Por O Dia

Rio - Depois de três tentativas, Lula e o PT só chegaram ao Planalto, há 13 anos, por conta de uma trágica constatação: para ter apoio no Congresso, a maioria dos políticos não cobraria dos petistas ideologia, mas dinheiro. Essa equação deu à luz o Mensalão, pelo qual o governo “comprou” apoio dos parlamentares. Mesmo depois de vir à tona a denúncia de Roberto Jefferson, porém, nada mudou. Dirceu e outros cardeais foram para a cadeia, mas a lógica continuou a mesma. O repúdio ao Mensalão e o combate à corrupção empurrou milhares de pessoas às ruas, nas manifestações de 2013. Os protestos cessaram, a vida voltou ao normal — e novamente nada mudou. Chegamos ao Petrolão, o escândalo da vez. Os políticos teriam, finalmente, aprendido a lição?

Ao que parece, não. A própria “crise política” atual prova isso: é resultado direto da falta de dinheiro do governo para distribuir a seus aliados de ocasião. Com o caixa zerado para custear emendas parlamentares e outras benesses para deputados e senadores, a presidenta Dilma Rousseff perdeu a base no Congresso. Sua inabilidade política é conhecida por todos. O certo, no entanto, é que mesmo que ela fosse a rainha da estratégia dificilmente conseguiria recuperar o apoio sem ter nada de valioso a oferecer aos seus interlocutores. De mãos abanando não se faz política no Brasil de hoje.

Ideologias estão em baixa por aqui e em quase todo mundo. A confusão que embaralhou as convicções sobre “esquerda” e “direita” deixou militantes e interessados na política sem as antigas referências. Esse vácuo favorece os aventureiros eleitorais desprovidos de qualquer interesse pelo bem público. São numerosos e usam seus mandatos como combustível para mover a grande engrenagem da corrupção.

Não há sinais de que as ideologias voltarão a servir de bússola a eleitores, militantes e parlamentares, como acontecia antes. Mesmo assim, é inaceitável que a política se reduza ao simples ato do “toma lá dá cá” que se vê atualmente no país. E tudo sob uma capa institucional, como se nada de errado estivesse acontecendo. As dificuldades de hoje no Congresso têm muito a ver com a falta de dinheiro. Alguém duvida que se o governo tivesse recursos para atender aos pedidos de deputados e senadores voltaria a recuperar seus aliados? A solução para a “crise política” tem um nome: dinheiro.

POR TRÁS DA TRIBUNA

Infelizmente, há quem associe a praga da corrupção à volta da democracia ao país. É gente que pede a volta de uma ditadura para ‘moralizar’ o Brasil. Talvez seja caso de amnésia histórica. A coluna já listou alguns dos vários escândalos de desvio do dinheiro público cometidos no regime militar. Para reforçar, é oportuno lembrar uma fala de Tancredo Neves, em 1982: “O processo ditatorial, o processo autoritário, traz consigo o germe da corrupção. (...) Ele começa desfigurando as instituições e acaba desfigurando o caráter do cidadão.”

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