Por gabriela.mattos

Brasília - O governo brasileiro entregou nesta segunda-feira à diretora geral da Unesco, Irina Bukova, o resultado de um trabalho de preservação de línguas indígenas que se estendeu por sete anos, e aproveitou o ato para pedir apoio para evitar o desaparecimento de cerca de 30 línguas ameaçadas de extinção.

"O trabalho deixou claro a iminência que, se não fizermos nada, nos próximos 10 ou 15 anos o número de línguas ameaçadas pode chegar a 30% ou 40% das cerca de 160 existentes", afirmou o presidente do Museu do Índio, José Carlos Levinho, no ato de entrega dos trabalhos à Unesco.

Brasil pede apoio à Unesco para evitar extinção de línguas indígenasDivulgação

Levinho disse que a Unesco teve uma participação importante no trabalho, tanto no financiamento como na pesquisa, e que o governo precisa que esse apoio prossiga para poder evitar a extinção de várias línguas. O programa de Documentação de Línguas Indígenas, que contou com a participação de aproximadamente 200 pesquisadores e professores dos próprios povos indígenas, permitiu a produção de 40 livros e de mais de mil horas de vídeo, assim como cartilhas e contos em diferentes línguas.

Um dos documentos que fazem parte do projeto alerta sobre o grave perigo de extinção de 30 línguas indígenas, quase 20% das existentes, já que não são mais passadas de uma geração a outra. O objetivo do trabalho entregue hoje à Unesco é recuperar a gramática e garantir a preservação de cerca de 30 línguas,das quais cinco das quais veem ameaçada sua existência.

"Foi um trabalho estratégico para garantir a preservação da língua e para produzir textos, livros e cartilhas em diferentes línguas que retratam a cultura de cada uma das etnias com as quais se trabalhou", afirmou à Efe o presidente da Fundação Nacional do Índio (Funai), João Pedro da Costa.

De acordo com o dirigente, o Brasil necessita prosseguir nesse trabalho e abranger outras línguas, principalmente as mais ameaçadas. "A expectativa é que possamos renovar as associações, inclusive com a Unesco, que nos permitiram concluir a primeira parte do projeto. Necessitamos começar um novo projeto e incluir outros povos. No Brasil temos 305 povos indígenas, por isso precisamos avançar", afirmou Da Costa.

O presidente da Funai informou que os representantes do governo aproveitaram o encontro com a diretora da Unesco e com outras autoridades da Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura para conversar sobre a renovação da parceria e a continuação do trabalho. "Necessitamos aprofundar e fazer com que cada povo indígena do Brasil possa ter suas cartilhas e documentos em seu idioma para não perderem a língua", afirmou.

Bukova comentou que a Unesco também está interessada em participar de um esforço conjunto para evitar o desaparecimento das línguas indígenas brasileiras, as quais a entidade considera um patrimônio do Brasil e de todo o mundo.

"O Brasil conta com uma grande diversidade que a Unesco quer proteger e com línguas que queremos que sigam vivas. Nos preocupa que 20% das línguas estejam agonizando já que, com cada língua que morre, também desaparece toda uma memória, um conhecimento e uma cultura", afirmou a diretora da Unesco no evento realizado na sede do Museu do Índio, no Rio de Janeiro.

"Temos que nos esforçar para preservar esse patrimônio", acrescentou Bukova, que visitou uma das exposições do Museu do índio acompanhada pelo ministro da Cultura, Juca Ferreira. Bukova realizou uma visita nesta segunda-feira ao Rio de Janeiro para participar de um seminário comemorativo dos 70 anos da Unesco e dos 10 anos da Convenção da ONU sobre a Proteção e Promoção da Diversidade das Expressões Culturais.

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