Rio - Em meio a tantas dúvidas reinantes na política brasileira, uma coisa é certa: enquanto o deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ) for presidente da Câmara dos Deputados, o processo de impeachment não anda. Combalido depois que um delator da Lava Jato denunciou que teria recebido propina para privilegiar empresa contratada pela Petrobras e após a confirmação por autoridades suíças de que tem contas ilegais naquele país, Cunha é hoje um morto-vivo. De super-homem da política virou um judas, a quem todos malham. Por essa fragilidade, o ridículo ritual de entrega de mais um pedido de impedimento da presidenta Dilma Rousseff, na última quarta-feira, representou uma enorme desmoralização para a Oposição.
Estavam lá, posando para as imagens que foram veiculadas no dia seguinte em todos os jornais e TVs, figuras pouco relevantes da política nacional, lideradas pelo deputado Paulinho da Força (SD-SP). Paulinho recentemente virou réu em processo no STF em que é acusado de desvio de recursos do BNDES, e isso talvez possa colocar em dúvida suas intenções moralizadoras. Além disso, ele também é alvo de processo por acusação de superfaturamento em um projeto de assentamento de 72 famílias de trabalhadores rurais em São Paulo.
Mais duvidoso que os parlamentares e outras lideranças que foram ao gabinete de Cunha, no entanto, foi o que aconteceu por baixo dos panos. Como se soube, às vésperas da entrega do pedido de impeachment, os presidentes nacionais do PSDB, Aécio Neves, e do PPS, Roberto Freire, costuraram um acordo para impedir que uma nota de repúdio a Eduardo Cunha fosse divulgada por lideranças da Oposição. Não queriam mexer com os humores do presidente da Câmara e provocar alguma reação intempestiva, que colocasse em risco seu objetivo.
Nesse episódio, tanto nos movimentos visíveis quanto naqueles ocorridos nos bastidores, ficou claro que o grupo pró-impeachment sofre de moralidade seletiva. Para não abrir mão de tentar derrubar a presidenta, que dizem ter praticado ilegalidades, fingem não ver os malfeitos de Cunha. Está mal o Brasil, com oposicionistas deste naipe. Por sorte, tanto do lado da Oposição quanto da situação, há figuras bem melhores que aquelas que apareceram na foto de quarta-feira.
POR TRÁS DA TRIBUNA
Direitista, católico e anticomunista, o advogado Heráclito Sobral Pinto apoiou o golpe de 64. Quando em 68 foi decretado o AI-5, que suprimia várias liberdades democráticas, ele passou a ser adversário do Regime Militar. Suas críticas foram tão duras que o próprio general-presidente de então, Costa e Silva, mandou prendê-lo.
Um major foi à sua casa anunciar a detenção. “Recebi ordens do presidente. Quero que o senhor me acompanhe.”
Ao que Sobral Pinto, 75 anos, respondeu: “Se o presidente da República lhe der ordens, é natural que o senhor obedeça. O senhor é major e está sujeito a isso. Eu não, eu sou paisano. Acompanho coisa nenhuma!”
Acabou arrastado para a cadeia, de chinelos e roupa caseira. Manteve intacta, no entanto, sua dignidade.