Por adriano.araujo
Publicado 26/10/2015 00:00 | Atualizado 26/10/2015 00:05

Rio - Em meio a tantas dúvidas reinantes na política brasileira, uma coisa é certa: enquanto o deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ) for presidente da Câmara dos Deputados, o processo de impeachment não anda. Combalido depois que um delator da Lava Jato denunciou que teria recebido propina para privilegiar empresa contratada pela Petrobras e após a confirmação por autoridades suíças de que tem contas ilegais naquele país, Cunha é hoje um morto-vivo. De super-homem da política virou um judas, a quem todos malham. Por essa fragilidade, o ridículo ritual de entrega de mais um pedido de impedimento da presidenta Dilma Rousseff, na última quarta-feira, representou uma enorme desmoralização para a Oposição.

Estavam lá, posando para as imagens que foram veiculadas no dia seguinte em todos os jornais e TVs, figuras pouco relevantes da política nacional, lideradas pelo deputado Paulinho da Força (SD-SP). Paulinho recentemente virou réu em processo no STF em que é acusado de desvio de recursos do BNDES, e isso talvez possa colocar em dúvida suas intenções moralizadoras. Além disso, ele também é alvo de processo por acusação de superfaturamento em um projeto de assentamento de 72 famílias de trabalhadores rurais em São Paulo.

Eduardo Cunha recebendo novo pedido de impeachment de Dilma. Mesmo com fragilidade de presidente da Câmara%2C oposição se calaEfe

Mais duvidoso que os parlamentares e outras lideranças que foram ao gabinete de Cunha, no entanto, foi o que aconteceu por baixo dos panos. Como se soube, às vésperas da entrega do pedido de impeachment, os presidentes nacionais do PSDB, Aécio Neves, e do PPS, Roberto Freire, costuraram um acordo para impedir que uma nota de repúdio a Eduardo Cunha fosse divulgada por lideranças da Oposição. Não queriam mexer com os humores do presidente da Câmara e provocar alguma reação intempestiva, que colocasse em risco seu objetivo.

Nesse episódio, tanto nos movimentos visíveis quanto naqueles ocorridos nos bastidores, ficou claro que o grupo pró-impeachment sofre de moralidade seletiva. Para não abrir mão de tentar derrubar a presidenta, que dizem ter praticado ilegalidades, fingem não ver os malfeitos de Cunha. Está mal o Brasil, com oposicionistas deste naipe. Por sorte, tanto do lado da Oposição quanto da situação, há figuras bem melhores que aquelas que apareceram na foto de quarta-feira.

POR TRÁS DA TRIBUNA

Direitista, católico e anticomunista, o advogado Heráclito Sobral Pinto apoiou o golpe de 64. Quando em 68 foi decretado o AI-5, que suprimia várias liberdades democráticas, ele passou a ser adversário do Regime Militar. Suas críticas foram tão duras que o próprio general-presidente de então, Costa e Silva, mandou prendê-lo.

Um major foi à sua casa anunciar a detenção. “Recebi ordens do presidente. Quero que o senhor me acompanhe.”

Ao que Sobral Pinto, 75 anos, respondeu: “Se o presidente da República lhe der ordens, é natural que o senhor obedeça. O senhor é major e está sujeito a isso. Eu não, eu sou paisano. Acompanho coisa nenhuma!”

Acabou arrastado para a cadeia, de chinelos e roupa caseira. Manteve intacta, no entanto, sua dignidade.

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