Por bferreira
Publicado 25/11/2015 23:40 | Atualizado 26/11/2015 01:19

Brasília - A prisão do líder do governo no Senado, Delcídio do Amaral (PT-MS), e do banqueiro André Esteves, do BTG-Pactual, caiu como uma bomba no Palácio do Planalto, no Congresso e no mercado financeiro. Enquanto a Bolsa caiu com os desdobramentos da Operação Lava Jato, a preocupação do governo é com os reflexos em sua imagem diante das acusações de que Delcídio teria oferecido mesada de R$ 50 mil e bolado plano de fuga para o ex-diretor da Petrobras Nestor Cerveró.

Conversa gravada mostra que Delcídio ofereceu ajuda para o ex-diretor Nestor Cerveró fugir do BrasilAgência Brasil

Detido pela manhã por determinação do Supremo Tribunal Federal (STF), Delcídio teve sua prisão mantida pelo Senado, à noite, por 59 votos a 13 . A maior parte dos senadores que votou contra a permanência de Delcídio na cadeia tem envolvimento com a Lava Jato e teme, agora, o chamado efeito dominó, que poderá levar a prisão de outros senadores envolvidos no esquema de corrupção da Petrobras.

Documento do Ministério Público Federal revela que Delcídio, em conluio com André Esteves, ofereceu pagamento de R$ 4 milhões ao advogado Edson Ribeiro, contratado pelo ex-diretor da Petrobras Nestor Cerveró, para que o investigado não firmasse acordo de delação premiada na Lava Jato.

A proposta seria Cerveró assinar o acordo, mas não mencionar nem Delcídio ou o banqueiro nos depoimentos. A dupla também teria pago R$ 50 mil a Bernardo Cerveró, filho do ex-executivo da estatal, em troca do silêncio do depoente. O restante da família receberia a mesma quantia mensal como recompensa. O advogado, que teve sua prisão decretada, está nos Estados Unidos.

Na delação premiada, Cerveró denunciou que o senador teria obtido vantagem nas operações da Petrobras de contratação de sondas e de compra da refinaria de Pasadena. André Esteves foi mencionado quando Cerveró afirmou que o BTG-Pactual teria dado dinheiro ao senador Fernando Collor (PTB-AL) em operação de embandeiramento de 120 postos de combustíveis em São Paulo.

Uma gravação com uma hora e 35 minutos revela como Delcídio ofereceu dinheiro ao ex-diretor da Petrobras para que ele não fechasse acordo de delação premiada com o Ministério Público Federal. No diálogo ocorrido no dia 4 de novembro em um quarto do hotel Royal Tulip, em Brasília, o petista também propôs a Bernardo Cerveró que, se o ex-diretor realmente optasse por um acordo com os procuradores da República, ele não o citasse.

A conversa também mostra que o senador ofereceu ajuda para o ex-diretor da Petrobras fugir do Brasil em troca de não revelar nada sobre o esquema de corrupção da Petrobras.

As prisões de Delcídio e do banqueiro são o primeiro resultado do acordo de delação que Cerveró fechou com a Procuradoria Geral da República. Ele já havia tentado fechar o acordo duas vezes.

Bilionário perde fortuna

O banqueiro André Esteves, CEO do banco BTG Pactual, preso pela Polícia Federal por ter obtido documentos sigilosos de delação da Operação Lava Jato, é um dos homens mais ricos do país e fez fortuna rápido. Considerado um dos gênios do mercado financeiro, ficou milionário em 2005 aos 36 anos, quando já comandava o banco de investimentos BTG Pactual, que hoje tem negócios em mais de trinta atividades no Brasil e no mundo.

Atualmente o banqueiro é dono de uma das maiores fortunas do país, com patrimônio calculado R$ 9 bilhões, ocupando o 13º lugar no ranking da agência Bloomberg de bilionários brasileiros.

A prisão de André Esteves teve enorme impacto nos mercados financeiros, derrubando as ações na Bolsa de Valores, que fechou em queda de 3% no seu principal índice, o Ibovespa. As ações do BTG chegaram a cair 40% e foram recompradas pelo banco, fechando o dia com perdas de 20%.

Em gravação, suspeita sobre acordo de Paes e Romário

Na conversa gravada que serviu de base para a prisão do senador Delcídio do Amaral (PT-MS), ele e outros interlocutores falam de um suposto acordo entre Eduardo Paes e o senador Romário (PSB-RJ) que envolveria uma conta bancária do ex-jogador na Suíça.

Por conta do acerto, Romário passaria a apoiar a candidatura de Pedro Paulo Carvalho Teixeira à Prefeitura do Rio. “Em função disso, fizeram acordo”, comenta Delcídio na gravação.

Da conversa gravada participaram também Diogo Ferreira, chefe de gabinete de Delcídio e que também foi preso nesta quarta, Bernardo Cerveró e Edson Ribeiro, respectivamente, filho e advogado de Nestor Cerveró, ex-diretor da Petrobras.

Na gravação, Delcídio relata aos três interlocutores uma visita que recebeu de Paes, Pedro Paulo e Romário. Durante esta visita é que ele teria sido informado do acordo entre Paes e Romário.

Em julho, a revista ‘Veja’ publicou que Romário tinha conta não declarada na Suíça. O ex-jogador foi então a Genebra e divulgou declaração do Banco BSI que negava a existência da tal conta.

Desde julho de 2014 que o BSI pertence ao Banco BTG Pactual, de André Esteves, também preso nesta quarta. Guilherme da Costa Paes, irmão do prefeito do Rio, é diretor do BTG Pactual.

Por telefone, Paes negou ao DIA a existência de acordo que envolvesse a tal conta suíça. Disse que esteve no gabinete de Delcídio acompanhado de Pedro Paulo, Romário e o senador Ricardo Ferraço (PMDB-ES) para tratar da aprovação de um projeto relacionado à dívida ativa de estados e municípios.

O prefeito afirmou que, brincando, disse a Delcídio que Romário apoiaria Pedro Paulo, mas que em nenhum momento citou a tal conta. Segundo Paes, não seria razoável imaginar que ele pudesse tratar de algo tão grave diante de três senadores. “Só de brincadeira alguém pensar isso”, disse.

Para o prefeito, tudo não passou de uma “ilação” feita por Edson Ribeiro, advogado de Nestor Cerveró. Segundo o prefeito, a frase “E em função disso fizeram acordo” dita por Delcídio foi uma interrogação, não uma afirmação.

Em seu perfil no Facebook, Romário negou a existência do acordo mencionado na conversa gravada. O senador confirma a versão de Paes e diz que foi ao gabinete de Delcídio para tratar da aprovação de um projeto no Senado relacionado à dívida ativa de estados e municípios.

“Não é novidade para ninguém que o prefeito Eduardo Paes tem interesse que eu apoie o seu candidato à sucessão. Não sou responsável pelo que terceiros falam, apenas pelos meus atos. Assim sendo, deixo claro que não tenho nenhum acordo com ninguém e, infelizmente, o dinheiro não é meu. Digo infelizmente porque, com certeza, se fosse meu, seria fruto de muito trabalho honesto.” (Fernando Molica e Paulo Cappelli)

A GRAVAÇÃO

A seguir, trechos da conversa gravada entre o senador Delcídio d-o Amaral (PT-MS), Bernardo Cerveró e Edson Ribeiro, respectivamente, filho e advogado de Nestor Cerveró. Na conversa, Delcídio e outros interlocutores falam de um suposto acordo entre o prefeito Eduardo Paes e o senador Romário, envolvendo uma conta bancária do ex-jogador na Suíça.

DELCÍDIO – Ai tá, pra acabar de complicar ainda mais o jogo aparece o Eduardo Paes, com Pedro Paulo... é... com Romário. E com Ferraço (senador Ricardo Ferraço, do PMDB-ES).

EDSON – Ué, fizeram acordo, né?
DELCÍDIO - Diz o Eduardo que fez.
EDSON - Foi Suíça...
DELCÍDIO - Foi Suíça, é?
EDSON – Tinha conta realmente do Romário.
BERNARDO – Tinha essa conta?
DELCÍDIO – E em função disso fizeram acordo...
EDSON – Seu amigo, banco (...) Tira porque senão você vai preso.
DELCÍDIO – O que eu achei estranho, ele ter chegado... O que você, Romário, o que você 'tá' fazendo aqui? Não, não vim tô acompanhando o Eduardo.
EDSON - Esquisito
DELCÍDIO – Esquisito pra caramba
EDSON – Essa é informação que me deram.
DELCÍDIO – Aí o Eduardo falou assim: não Delcídio, porque o Eduardo tenho intimidade, o Eduardo foi companheirão meu aqui, principalmente na CPI dos Correios, ele foi meu braço direito aqui … Aí disse, não Delcidio eu chamei aqui o Romário, na frente do Romário. Chamei o Romário, ó, nos acertamos uma aliança, o Romário apoiar o Pedro Paulo é isso que ele tá falando. Mas tem esse motivo.
EDSON – Foi o que eles disseram... quem pode melhor apurar é você.
DELCIDIO – Porque bicho, não é possível, hoje quando eles chegarem, ué o que vocês tão fazendo aqui? Juntos. Aí o Eduardo explicou, diz que fizeram uma composição juntos, pra apoiar Pedro Paulo.

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