Por joyce.caetano
Fernanda Nader e Daniela Aliperti: donas da loja Fôrma de Pudim, que vende cerca de 800 unidades do doce por mêsDivulgação

São Paulo - É cada vez mais comum esbarrar com uma loja que venda um produto só, como brigadeiros, cupcakes, pudins e outras guloseimas. Mas como esses estabelecimentos sobrevivem com um único produto em seus cardápios? O segredo pode ser encontrado na variedade de sabores, às vezes inusitados, de um só alimento, o que destaca a empresa no mercado e é um atrativo para os clientes e amantes de doces.

Fernanda Campos Nader e Daniela Teixeira Aliperti trabalhavam juntas em uma empresa de marketing hoteleiro. Com os dotes culinários de Daniela, chefe de cozinha formada na França, e o espírito empreendedor de Fernanda, surgiu a Fôrma de Pudim .

Na loja, aberta em abril de 2012 no bairro Vila Nova Conceição, em São Paulo, elas vendem somente pudins. As guloseimas são feitas nos sabores fava de baunilha, paçoca, chocolate belga, brigadeiro, chocolate branco, ovomaltine, café, pistache e avelã, além de outras matérias-primas sazonais. O quilo do pudim custa R$ 77; todos são entregues em uma fôrma com a qual o cliente pode ficar.

Com uma média mensal de venda de 800 unidades, Fernanda conta que ela e a sócia não estão com pressa de crescer. Planos de expansão, segundo ela, só a partir de maio de 2014. “Eu tenho a segurança de ter o melhor pudim, o melhor produto. E isso é o mais importante”, afirma a empreendedora.

Em 2007, a empresa do marido de Cátia Farias quebrou, o que fez com que ela buscasse outra alternativa para sustentar a família. Cauê, seu filho mais velho, sugeriu que ela retomasse algo que já havia feito sucesso em 2000 entre família e amigos, que eram os quindins personalizados, preparados com pastas importadas. Hoje, a dona da loja Bendito Quindim , que tem duas unidades na cidade de São Paulo, comemora: da dificuldade veio a oportunidade.

Cátia acredita que “a responsabilidade quando se tem um só produto é grande” e isso a motiva a melhorar sempre, pensando no cliente e nas sugestões dadas por eles. Ao mesmo tempo, a empresária acredita que seja mais prático trabalhar com um produto só. Para divulgar o a loja, ela aposta na mídia espontânea, boca a boca, e em redes sociais.

Depois de um tempo no mercado, a empresária já conhece as necessidades dos clientes, assim não há desperdício. Também não sobrecarrega suas vitrines e coloca sempre produtos frescos, conforme a demanda.

A Conti Confetteria é uma marca de amêndoas confeitadas fundada por Antonella Conti, em Milão, e conta com 15 lojas na Itália e mais algumas pelo mundo. A franquia brasileira, em São Paulo, surgiu há quatro anos com a ideia de Sonia Bonifazi, que notou que não havia nada parecido por aqui. Produzidos e importados de terras italianas, os 35 sabores do confeito são artesanais, com embalagens, fitas e etiquetas também fabricadas no país.

O marido de Sonia, Vincenzo Dragone, também ajuda nos negócios e acredita que a grande vantagem de se trabalhar com um produto só é a exclusividade. “É único e de qualidade”, conta. Ele pondera, no entanto, que há desvantagens: os doces são importados e a produção é demorada e custosa, o que pesa no preço para o consumidor.

Por ter dois anos de validade, as amêndoas confeitadas não são desperdiçadas, exceto pelo fato de a viagem às vezes desgastar algumas unidades, o que resulta no máximo 5% de perda. O faturamento por mês gira em torno de R$ 40 mil e R$ 80 mil, e o lucro mensal é de 30%.

De cupcake a bem-casado

Em julho de 2012, Gustavo Soncini abriu a loja Fina Nata , no bairro Jardim Paulista, na zona sul de São Paulo. O carro-chefe são os bem-casados para pronta entrega e para encomendas. Apesar de até agora só ter uma loja, o empreendedor avalia a possibilidade de expandir a marca por meio de franquias.

Brownie de Nutella%2C um dos vinte sabores vendidos na loja Brou'ne%2C da americana Nina LahaliyedDivulgação

“A maneira mais fácil de trabalhar com um produto único é diversificar os sabores”, conta Gustavo Soncini. E assim fez a empresa. As guloseimas típicas de casamentos ganham sabores novos, como capim santo, gengibre com canela, papaia com cassis, doce de leite com coco, baba de moça, chocolate com pimenta, tradicional, gianduia, pistache e paçoca.

Além desses produtos para diferentes gostos, a Fina Nata tem doces sazonais; os de agora, da primavera, são os de jasmin e água de rosas.

Gustavo conta que as encomendas representam de 30% a 60% das vendas, dependendo do mês. No entanto, a loja também vende bolos de bem-casado e doces finos para reforçar a receita.

Em 2007, a jornalista Celina Dias trouxe para o Brasil a loja portuguesa O Melhor Bolo de Chocolate do Mundo , mas vendeu o controle da marca para o grupo CPQ Brasil S.A, também dono da Casa do Pão de Queijo. Assim, Gabriela Onofre adquiriu da franqueadora portuguesa a loja conceito, na Rua Oscar Freire (zona sul de São Paulo), em dezembro de 2012.

O carro-chefe é o bolo de chocolate, feito sem fermento e farinha. O doce é feito com uma mousse de chocolate intercalada com camadas de merengue e com opções de calda – chocolate ou frutas.

A franqueada Gabriela Onofre conta que chega a vender uma média de 250 a 300 bolos por mês, incluindo os fatiados. Em datas comemorativas, como Páscoa e Natal, as vendas aumentam, pois os clientes compram o bolo para levar para festas e até para presentear.

Como o custo fixo é alto, segundo a empreendedora, a loja também oferece sanduíches e bebidas para aumentar as vendas.

Outra receita estrangeira que desembarcou no País é o brownie. A americana Nina Lahaliyed inaugurou em 2008 a primeira loja especializada em brownies do Brasil, a Brou’ne . Começou em Campinas, interior de São Paulo, mas hoje já expandiu o negócio e possui 20 filiais pelo País, com um faturamento médio mensal de R$ 40 mil.

Para agradar diferentes paladares, são oferecidos 20 sabores – como Nutella e cereja. Nina acredita ser um risco focar em uma única especialidade, pois muitas vezes as pessoas procuram algo além do doce. “Você tem de ser muito bom para agradar o cliente”, diz.

Já a marca Just Cupcakes , criada em 2009 pela empreendedora Melissa de Freitas, foca nos pequenos bolinhos. A dona da loja morou em Nova York e em 2007 conheceu por lá os famosos cupcakes que estavam em alta, com lojas especializadas para comercialização exclusiva.

Melissa considera ser positivo administrar uma loja monotemática – o controle de estoque é mais simples por ter menos opções. Por outro lado, ela acredita que trabalhar com um único produto tem seus desafios, já que o público procura diversidade. “É importante ter sempre uma novidade, criar sabores diferentes para manter a freguesia”, conta.

Para não haver desperdício e atender as demandas, a empreendedora toma alguns cuidados: ao longo do dia, várias fornadas são feitas de acordo com a procura dos clientes e isso permite também que o produto esteja sempre fresco. Ela apresenta o menu do dia, com até cinco sabores,no site da loja. A empresa tem uma margem de lucro de 30%.

Dica de consultor

Para o professor Claudio Felisoni, presidente do Provar/FIA (Programa de Administração de Varejo da Fundação Instituto de Administração), na medida em se diversifica a produção, diminui-se o risco. No entanto, quem quiser abrir um empreendimento que tenha uma única especialidade deve analisar o mercado, a concorrência, os riscos. "Tudo depende de cada mercado e de cada produto que se lança", afirma o professor.

Segundo o especialista, o empreendedor deve fazer parcerias com outras empresas. Assim, evita depender somente do consumo individual, que pode sofrer com a sazonalidade, reduzindo a lucratividade.

Felisoni diz que as ações para melhorar o investimento e para ter um bom rendimento dependem de cada operação, mas que deve-se dimensionar os esforços produtivos para evitar possíveis desperdícios.

Reportagem de Marcela Lima e Ana Paula Silva

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