Por helio.almeida

Rio - Ex-executivos do grupo EBX acusam Eike Batista de ter demorado para tomar decisões e que elas foram insuficientes durante a crise de suas empresas. O empresário, tomado por dúvidas, acabou até provocando demissões que, no final, foram vistas como "desnecessárias".

Como resultado, 15 executivos do primeiro escalão, entre presidentes e diretores do ex-Império X, além de conselheiros, saíram este ano da holding e da petroleira OGX, que pediu recuperação judicial.

Freada brusca de Eike Batista nos investimentos na área de segurança do estado pode comprometer o planejamento de novas UPPs no RioReuters

A debandada vista nos últimos meses só se compara com a saída de 13 executivos que deixaram o grupo entre 2009 e início de 2011, época da saída dos ex-funcionários da Petrobras que fundaram a petroleira. Algumas delas foram ruidosas, como a de Rodolfo Landim, ex-braço direito de Eike que contestou sua remuneração na Justiça. Só que desta vez a dança das cadeiras foi mais intensa e aconteceu em menor tempo.

As saídas começaram em março e ocorreram até o fim de outubro. A partir de 15 de outubro, a consultoria Angra Partners assumiu a reestruturação da OGX e passou a destituir executivos de cargos considerados chave. Alguns executivos ficaram somente alguns meses no cargo, e os que ficam acumulam funções.

Os executivos citam como exemplo que ilustram estas falhas de gestão negociações como a venda do controle da empresa de energia MPX (atual Eneva), naquele período considerada por ele "a jóia da coroa", e também sobre o fechamento de capital da CCX, além das negociações com detentores de títulos da OGX.

Negociações

A decisão de venda do controle da MPX foi constantemente adiada, pois Eike Batista, diz um ex-executivo que preferiu não se identificar, não conseguia tomar a decisão, e constantemente voltava atrás. "Eike dizia que queria vender metade de sua participação. Mas em um momento pensava: posso ficar 'micado'. Aí pensava em vender tudo. Depois queria vender a metade novamente", conta.

O que parece um detalhe de gestão pode ter se traduzido em prejuízo para o próprio grupo e o Eike Batista. Isso porque, além de expectativas de investidores não serem atingidas, o valor das empresas foi diminuindo ao longo do tempo.

A venda de controle da MPX poderia ter acontecido quando a ação valia R$ 10, mas somente foi realizada quando o papel valia R$ 3 na bolsa, diz o ex-executivo. "Então, muitos ficam de mãos atadas. As coisas vão degringolando e o chefe quer insistir em caminho que não existe. Não há dinheiro que pague."

Em negociações, o tempo costuma jogar contra. É o caso da tentativa de venda da empresa de ouro AUX, que acontece nos bastidores. Companhia que chegou a valer R$ 2 bilhões, a AUX está sendo negociada por cerca de R$ 800 milhões. "O negociador passa a ver: esse cara está mal, e abaixa o preço", analisa um ex-executivo. Outro exemplo é a venda do controle da MMX, que não aconteceu até hoje.

Nas negociações com os detentores de títulos da dívida da OGX, um outro ex-executivo acusa Eike de ter feito um "terremoto": executivos foram demitidos no período porque o empresário acreditava que poderia deixar o negócio com uma fatia maior na empresa. "Algumas pessoas [ele não revela os nomes] disseram que Eike poderia sair com um porcentual muito mais alto. No final, acabou saindo um acordo quase igual ao que a diretoria antiga havia proposto", conta.

Confiança demais?

Neste panorama, o que parece desnortear o empresário é uma confiança excessiva, tanto em seus diversos braços-direitos quanto em executivos que traziam resultados para a empresa, mas que não necessariamente estariam levando Eike a tomar a decisão correta.

Os ex-executivos citam como exemplo o tunisiano Aziz Ben Ammar, conselheiro em diversas empresas do grupo, considerado um dos diversos braços-direitos de Eike. "Ninguém sabia de onde veio e há quem diga que ele não entregou o que se esperava", aponta uma das fontes ouvidas pelo iG.

A única vez em que fala sobre a crise de seu império, ao jornal americano Wall Street Journal, Eike afirmou que seus executivos da área de petróleo, que chamava de "time dos sonhos", o enganaram. Ex-executivos reforçam e dizem que ele recebeu muitos avisos, mas que preferiu acreditar neles.Eike acumula uma dezena de braços-direitos. No encerramento do Rio Investors Day, em maio de 2012, o empresário citou que era um polvicha, mistura de polvo com lagartixa. E deu a seguinte explicação: quando um braço-direito seu caía, colocava outro no lugar.

No limite

Para um de seus ex-executivos, Eike sempre esteve no limite. "Ele não sabe o que é risco. Está sempre em um processo no qual não consegue ver isso. Diz: é meu, eu que comprei, passou na minha mão e se valorizou mais. Aumenta então o preço de R$ 30 para R$ 60. Aí o cara do outro lado diz: ele tá louco. E diz: ofereço R$ 20, campeão. Ele fica em dúvida, oferecem R$ 29 e ele insiste nos R$ 35. Não faz sentido", diz um dos ex-executivos do empresário.

Há quem diga que este modo de gerenciar já foi positivo. Mas, na crise, em nenhum momento o resultado foi bom. "Eike simplesmente não soube lidar com a situação", conclui um ex-executivo. Ele não vê o empresário há algum tempo. "Quase todos saíram agora, e quem ficou está contratado a peso de ouro. Mas me disseram que Eike anda muito depressivo."

Procurada, a EBX diz que não comenta o assunto.

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