Por tamyres.matos

Rio - A empresária Ariadne Coelho, que no começo dos anos 2000 ficou conhecida como a Rainha das Quentinhas, ressurge agora como a Rainha das Coxinhas. Num tino empreendedor, ela anuncia a entrada no ramo de salgados. Para lançar a nova empreitada, a ex-socialite pretende contratar duas mil mulheres que vão vender coxinhas de galinha. O negócio, segundo ela, demandou R$ 1,2 milhão de investimentos em equipamentos, adequação de instalações e aquisição de insumos, e tem previsão de inauguração no segundo semestre do ano.

Segundo Ariadne, a decisão de entrar nesse ramo partiu da percepção de que existem poucas marcas de prestígio no setor de alimentos do tipo aperitivo. O conceito, segundo ela, é oferecer produto sem variação de sabor, o que só é possível num modelo concentrado de produção. “Nossa coxinha pretende se tornar tão desejada quanto o pão de queijo e a empada, que têm marcas bem identificadas com o consumidor”, afirmou ao DIA.

Um diferencial na nova empreitada de Ariadne, segundo ela, será a contratação de mulheres para compor a rede que, além da venda de porta em porta, também contará com divisão para comercialização em bares, restaurantes e o fornecimento do produto congelado em supermercados.

Ariadne Coelho dispensa o título de Rainha das Quentinhas e diz%3A ‘Isto não me pertence mais’Alexandre Brum / Agência O Dia

“Em um primeiro momento vamos investir na parceria com mulheres dispostas a trabalhar”, afirmou Ariadne, vislumbrando nicho promissor. A empresária informou ainda que o perfil que a nova empresa procura é o da mulher trabalhadora e microempreendedora individual.

A partir de julho começará a ser formado o cadastro de distribuidoras no site, que está em construção. A empresa não teve o nome divulgado por ainda estar em fase de registro no INPI.

“Nosso produto poderá ser encontrado em vários pontos, sempre, claro, obedecendo a legislação. Tenho certeza de que não existirão obstáculos, já que a empresa, além de gerar empregos, tem a cara do Rio”, afirmou.

RETORNO DA RAINHA

A empresária mineira saiu de cena por um tempo, mas não abandonou seus projetos. Empreendedora, os planos dela incluíam a abertura um centro de estética e até estrear um programa de televisão.

Em janeiro passado, Ariadne reuniu um grupo de amigos no restaurante Fasano, na Zona Sul carioca, para comemorar o aniversário e marcar seu retorno aos salões da sociedade. Ariadne ocupou mais de dois terços das mesas do restaurante com amigos.

A volta de seu nome às colunas sociais marca uma nova era da vida da empreendedora que prefere deixar o passado para trás e ser reconhecida, agora, como a Rainha das Coxinhas. O antigo título não lhe pertence mais, afirmou.

O enriquecimento do caminhoneiro que virou grande empresário

O reino das quentinhas surgiu em Campos, no Norte Fluminense. Foi ali que o ex-caminhoneiro Jair Coelho se transformou em negociante primeiro de cereais. A atividade virou império quando o iniciante empresário passou a fornecer refeições aos presídios fluminenses. Por 14 anos, de 1986 a 2000, ele manteve o monopólio do negócio com o sistema penitenciário do estado. Chegou a faturar, só com a Brasal, a empresa de quentinhas, cerca de R$ 6 milhões por mês.

Em 2001%2C funcionários da Brasal na Colônia Juliano Moreira protestaram por atraso em saláriosPaulo Araújo / Agência O Dia

Em 2000, aconteceu o escândalo. Segundo denúncia do Ministério Público, Coelho e seus sócios teriam usado documentos falsos em diversos procedimentos de licitação e de contratos firmados com o governo estadual, que atingiram o montante de R$ 93 milhões. O empresário foi preso, acusado de formação de quadrilha, falsidade ideológica e emissão de documentos falsos.

Ainda segundo a denúncia do Ministério Público, o grupo liderado por Jair Coelho usaria títulos “fantasmas” como caução garantidora da execução de contratos celebrados pela Brasal. Coelho declarava ser titular de direitos relativos a Títulos da Dívida Agrária (TDAs) e os prestava em garantia ao estado com referência a uma série de contratos.

Após a denúncia do Ministério Público, a situação financeira da empresa começou a declinar e 852 funcionários foram demitidos. O ápice dos problemas da Brasal ocorreu em abril de 2001 com a auditoria nos contratos celebrados entre a empresa e órgãos públicos pela Controladoria Geral do Município. O pagamento dos contratos foi suspenso enquanto a controladoria fazia uma varredura em todos os acordos celebrados entre a empresa e órgãos públicos.

Por conta disso, 252 funcionários que trabalhavam na Colônia Juliano Moreira e no Hospital Raphael de Paula Souza, em Jacarepaguá, fizeram greve por causa de atraso nos salários. Eles eram responsáveis por fazer as refeições de 1.100 internos e pacientes.

Na época, em esquema de emergência, as refeições foram preparadas por servidores municipais em regime de mutirão. Enquanto trabalhavam, os funcionários da Brasal faziam manifestações.
Em 2006, a Terceira Turma do Superior Tribunal de Justiça (STJ) entendeu que os herdeiros do empresário, morto em 2001, não seriam sucessores na prestação de contas dos serviços prestados à Brasal. Com a decisão da Justiça, os herdeiros de Jair Coelho, entre eles Ariadne Coelho, ficaram desobrigados de prestar contas dos serviços oferecidos pela Brasal.

Mercado está em expansão no país

O mercado de negócios porta a porta, no qual a empresária Ariadne Coelho pretende ingressar com a venda de salgadinhos, está em franco crescimento no país. O sucesso dessa modalidade é atribuído a diversos fatores, como a afinidade com a cultura de relacionamento e o subemprego, segundo especialistas em varejo.

De acordo com dados do Sebrae, o Brasil ocupa a quinta posição no mercado mundial em vendas diretas com quatro milhões de revendedores. O país fica atrás apenas de Japão, Estados Unidos, Alemanha e Itália.

Cerca de 80% dos negócios são dominados pelo setor de cosméticos e artigos de perfumaria. O restante é dividido em alimentos, artesanato, catálogos, entre outros serviços.

O sucesso da venda direta no Brasil foi inaugurado há mais de 40 anos pela norte-americana Avon, líder mundial no mercado de beleza com uma receita anual de US$ 11 bilhões.

Nicho também atrai grandes empresas

Em franca expansão, o mercado de vendas diretas, ou porta a porta, atrai, além de pequenas empresas, grandes companhias da indústria de alimentação. As multinacionais Coca-Cola e Nestlé, por exemplo, usam a modalidade como canal para aumentar a participação entre os consumidores de baixa renda.

Porém, é no segmento de cosméticos e de higiene pessoal que o país mais se destaca, com marcas como a Natura, Avon, Boticário e Matrix, entre outras. A empresa Duloren e as Lojas Marisa também já atuam no ramo de porta a porta.

O setor de vendas diretas, no primeiro semestre de 2013, atingiu o volume de negócios de R$18,4 bilhões, 5,9% a mais do que em igual período de 2012.

Reportagem: Martha Imenes

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