Por adriano.araujo
Publicado 22/02/2014 22:03 | Atualizado 22/02/2014 22:29

Rio - Há muito o que comemorar com os avanços e a estabilidade econômica adquiridos com o Plano Real, mas até chegar ao equilíbrio, muitos brasileiros passaram maus bocados. Com a medida econômica de 1994, a corretora de seguros Marli Souza de Aguiar, 55 anos, diz que voltou a adquirir bens de consumo e recuperar as finanças da empresa. “O plano refletiu direto no meu bolso”, diz.

Ela comemora: “Com o Plano Real passei a viajar mais, recomecei a captação de clientes e consegui estabilizar a empresa. Hoje tenho mais crédito e meus clientes também”, afirma.

"Com o Plano Real passei a viajar mais e recomecei a captação de clientes"%2C diz Marli Souza de Aguiar%2C dona de pequena empresa na Lapa José Pedro Monteiro / Agência O Dia

Mas nem tudo eram flores para a corretora. As dificuldades do período pré-plano foram sentidas no trabalho e em casa. Dona de uma pequena empresa na Lapa, Marli viu suas finanças despencarem ao logo dos anos. A inflação diária não permitia que ela suprisse totalmente as necessidades da família e os insumos para a firma.

“Foi um sufoco!”, exclama. “Na minha área profissional, vivi o reajuste diário das indenizações de veículos roubados ou indenizados por perda total. Tínhamos uma tabela de projeção da TR diária e as indenizações precisavam ser calculadas projetando a inflação do dia para que os segurados pudessem adquirir o mesmo veículo com o valor recebido, o que, mesmo assim, por muitas vezes não acontecia. O mercado de carros aumentava seus preços bem acima da projeção”, lembra.
“Nesse período tive as poucas economias, que juntava para ampliar a empresa, presas e também perdi algum dinheiro que aplicava em ações, que praticamente sumiu com o despencar das bolsas”, afirma.

Desconfiança, preocupação, temor de confisco, tudo isso passou pela cabeça da corretora que, diante do aperto financeiro, deixou o Rio e foi para Porto Alegre.
“Quando anunciaram um novo plano, confesso que vi com desconfiança, mas logo depois comecei a sentir a melhora na economia”, afirma.

“Estava fora do Rio, morando em Porto Alegre, onde me refugiei, próximo da família, para criar três filhas que estavam com menos de dois anos, mas mantive meu escritório no Rio de Janeiro. Com a mexida na economia fiquei com medo”, conta.

Segundo a corretora, atualmente sua maior preocupação é que a hiperinflação retorne.

Maquininhas eram o terror do mercado e produtos sumiam das prateleiras

?A estabilidade econômica foi um fator determinante para Paula Cabral de Menezes, 52 anos. Moradora da Tijuca, ela lembra bem das maquininhas remarcadoras de preços nos supermercados.

“Cada vez que precisava ir ao mercado, me assustava com os preços, o dinheiro não dava para comprar as mesmas coisas que comprava no dia anterior”, conta. Com a entrada em vigor da URV, os preços foram congelados e Paula sentiu alívio no bolso.

“As prateleiras voltaram a ficar cheias e os temidos homens com as suas maquininhas de remarcação de preços sumiram”, rememora.

Paula diz que, embora a economia tenha melhorado, ainda não dá para comprar bens de consumo e passear. Viagens estão no planos. “Assim que for possível faço as malas e vou viajar”, avisa.

Paula Cabral%3A ‘Assim que for possível faço as malas e vou viajar’José Pedro Monteiro / Agência O Dia

Três crises mundiais

?O Plano Real enfrentou três grandes crises mundiais: a do México (1995), a Asiática (1997-1998) e a da Rússia (1998). Em todas elas, o Brasil foi afetado diretamente, pois estava em reforma e necessitava de recursos, investimentos e financiamentos estrangeiros.

Grandes somas de dinheiro deixaram o país em cada um dos momentos devido ao medo que os grandes investidores tinham com os mercados emergentes.

Ao menor indício de crise, uma massa de investidores corria para buscar refúgio em moedas fortes, como o dólar norte-americano, a libra esterlina ou o euro.

Outros aproveitavam esses movimentos para especular fortemente contra as moedas dos emergentes, na intenção de obter grandes lucros em curto espaço de tempo, esvaziando as reservas em moeda estrangeira. Isso contaminava negativamente as contas de diversos países, causando efeito cascata globalizado.

Para a CUT, medidas foram incompletas

?À frente da Central Única dos Trabalhadores (CUT) Nacional, a maior central sindical do Brasil, com 3. 806 entidades filiadas, Vagner Freitas diz que a estabilização da inflação não foi tão ampla.
“Muitos preços continuam indexados, como os dos serviços básicos, como telefone e luz, por exemplo, e o aluguel. Neste sentido, podemos dizer que o Plano Real foi um plano incompleto”, afirma.
Freitas ressalta que a inflação hoje em dia está mais controlada do que no período da implantação das medidas econômicas. “O primeiro ano do plano registrou uma inflação medida pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de 22,4%, com salários estagnados, e fechou 2002 em 12,5%. A média do governo FHC ficou em 9,2% contra 5,9% nos governos Lula e Dilma”, compara.
Para Almir Aguiar, 48 anos, bancário e bacharel em Direito, o Plano Real foi uma das boas realizações do governo Itamar Franco. “Com a moeda estável e a inflação em queda, a vida começou a tornar-se mais fácil de ser administrada para a classe média”, comemora.

Freitas%3A ‘muitos preços continuam atrelados à inflação%2C como telefone%2C luz%2C aluguel e outros serviços’Divulgação CUT

5 MINUTOS COM: Gustavo Franco, economista

'Conquistas permanecem asseguradas'

?Apontado como um dos pais do plano econômico formulado em 1994, o professor de Economia da PUC-Rio e sócio da Rio Bravo Investimentos, Gustavo Franco, 57 anos, diz ser importante comemorar os 20 anos de implantação do Real, para manter viva a memória de como era a economia do país, antes da entrada em vigor do novo sistema monetário. O modelo criou as defesas necessárias para impedir a volta de uma inflação descontrolada.

O DIA — Os fundamentos do Plano Real ainda permanecem nos dias de hoje?

São momentos muito diferentes, mas as conquistas permanentes do Plano Real estão bem asseguradas. Se, agora, estamos fraquejando em algum setor, não tem referência com aquele momento de implantação da URV (Unidade Real de Valor), em 1994. De todos os padrões monetários na história do país, o real é o que mais se comportou melhor. Hoje, a inflação média está bem comportada.

'Conquistas permanecem asseguradas'%2C diz o economista Gustavo FrancoMurillo Constantino / Agência O Dia

A sociedade, hoje, tem noção do momento econômico vivido antes da implantação da URV?

Hoje, as pessoas entendem que a inflação é um mal. Porém, muitos, principalmente os jovens na faixa dos 20 e 25 anos, desconhecem aquela realidade. Quando descrevo para meus alunos o dia a dia daquele período, eles não entendem direito. E, isso é preocupante. A maior parte da população não tem memória pelo o que passou. E a memória é importante para criarmos defesas necessárias para evitarmos, que aquilo ocorra de novo.

Hoje corremos algum risco de a inflação voltar a crescer?

Hoje temos um pouco de inflação na país, que não pode ser minimizada. Ela é uma doença, como o alcoolismo, que deve ser sempre combatida. Se é de 6%, 8% ou 10%, dói muito.

Na época, o Partido dos Trabalhadores foi contra as medidas de implantação do real e atualmente se diz responsável pelas transformações do país.

Isso meio que faz parte do jogo. Dos políticos quererem se apossar das políticas anteriores. Em 2002, quando o PT chegou ao poder, o país vivia um momento importante de estabilidade. Eles assumiram e mantiveram as linhas da macroeconomia e reafirmaram as bases do plano econômico. O real é a moeda do Brasil, do brasileiro.

Como o senhor avalia a evolução do salário mínimo?

Na época, o salário mínimo valia US$ 64, hoje está em torno de US$ 300. Os salários em reais aumentaram bastante, assim como a renda do trabalhador. Naturalmente, as conquistas não pertencem só à URV. Houve uma evolução e o país entrou num círculo virtuoso, ao contrário do que vemos hoje em países vizinho, como a Argentina e a Venezuela, por exemplo. Mas claro que é possível melhorar, sempre é possível avançar.

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