Por thiago.antunes

Rio - O clima de euforia e pujança econômica da região Sul Fluminense levou um balde de água fria com a dispensa temporária de 650 funcionários da PSA Peugeot Citroën. Operários estão apreensivos com a chance de demissões e de precarização no trabalho. A queda na produção também impacta os cofres da pequena Porto Real, que depende quase que exclusivamente dos impostos gerados pela fábrica.

Em função da retração do consumo interno de veículos e da crise na Argentina, que afetou as exportações, a Peugeot suspendeu um dos turnos e reduziu em 27% o volume de sua produção para 450 unidades por dia. Desde 17 de fevereiro, 650 trabalhadores do turno suspenso estão fazendo cursos de qualificação.

Linha de produção da PSA Peugeot Citroën%3A perda de mercado interno e crise na Argentina afetaram vendas da empresafrancesa no BrasilDivulgação

Essa turma é a mais insegura. Alguns temem não conseguir voltar ao trabalho no final da suspensão e outros preferiam ter sido demitidos para procurar oportunidades em outras montadoras da região, como a MAM e a Nissan. “Estou indignado. Não podemos procurar trabalho porque somos obrigados a frequentar o curso para sermos pagos”, afirma um funcionário que não quis se identificar.

Além da suspensão dos contratos, a empresa francesa está demitindo funcionários. Na quinta-feira, o soldador Dirceu Machado, de 36 anos e dez de Peugeot, saiu do trabalho com o comunicado de dispensa por justa causa em mãos. “Tive quatro faltas para tratar de uma tendinite e de uma bursite”, afirmou, inconformado. Segundo a assessoria da Peugeot, as demissões são devido ao “turnover”, rotatividade natural dentro de uma companhia. Não foi informado quantos funcionários foram demitidos recentemente.

As preocupações também rondam os fornecedores da montadora, que geram 1.500 empregos na região. Segundo o Sindicato, a Benteley cortou 23 funcionários, mas a entidade afirma não saber se outras dispensas. O operador de produção Ramon Alves, 21 anos, foi demitido da Magnetto Automotive em janeiro. “Um primo meu que trabalha lá tinha me avisado que iam cortar pessoas por causa da crise da Argentina. Eu já sabia que ia sair, porque quem é mais novo sempre dança”, disse.

O operador de produção Ramon Alves%3A demissão na MagnettoDivulgação

Segundo ele, 200 funcionários foram dispensados. A firma, que emprega 750 funcionários no estado, não confirmou o número, tampouco o sindicato. O secretário estadual de Desenvolvimento Econômico do Rio, Julio Bueno, informou que governo está acompanhando a questão com atenção, mas disse que a crise é pontual. “Acreditamos que em breve essa situação se restabeleça, seja com a Argentina ou com outro mercado potencial”, afirmou.

Cidade depende dos recursos da montadora

A crise da Peugeot vai se refletir nos cofres públicos de Porto Real. Graças à montadora francesa, a pequena cidade, de 16 mil habitantes, recebe um vultoso repasse de ICMS. Em 2013, foram R$ 137 milhões líquidos.

Este valor dá ao governo a possibilidade de oferecer serviços públicos de qualidade e regalias como transporte coletivo gratuito. Além disso, é uma das cidades com o menor índice de desigualdade social e com o maior PIB per capita do estado.

A Peugeot, mina de ouro de Porto Real, também é seu calcanhar de Aquiles. A cidade é praticamente refém da empresa, que gera 80% do total de ICMS arrecadado. “Se você tem uma dependência muito grande, a queda na produtividade da empresa compromete toda uma estrutura da cidade”, afirma o secretário de Administração e Fazenda da cidade, Jorge Irineu.

Ele diz que não há nenhuma luz vermelha acesa na prefeitura, pois acredita na capacidade de recuperação da montadora. No entanto, diz que o ICMS deve ficar estagnado pelo menos pelos próximos dois anos. Porto Real está tentando reduzir a dependência da Peugeot. Em dezembro, foi sancionada uma lei que concede isenções de Imposto Sobre Serviços (ISS) e Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU) para empreendimentos que se instalem por lá. “Também queremos fazer uma revisão no IPTU, que é muito baixo na cidade”, diz Irineu.

“O clima está péssimo”

Na fábrica da Peugeot, onde trabalham 4.300 funcionários, o clima é de tensão. “Está péssimo. Ninguém sabe se vai voltar a trabalhar”, afirma o funileiro Luíz Rondelo Teixeira, 34 anos. O sindicato da categoria não acredita em demissões no momento, mas teme que o mau desempenho na empresa se reflita em precarização do trabalho.

O funileiro Luíz Rondeli%3A “Ninguém sabe se vai voltar a trabalhar”Divulgação

“O medo é que essa situação deixe a gente enfraquecido para negociar o reajuste deste ano e a participação nos lucros”, afirma o diretor Bartolomeu Citeli. Segundo ele, a prioridade é evitar demissões. “Não queremos um exército de desempregados, já passamos por isso. Nos anos 90, quando a Companhia Siderúrgica Nacional foi privatizada, havia engenheiro disputando vaga de gari”, lembra.

Cidades vizinhas comemoram investimento

Enquanto Porto Real vive em meio à apreensão, as cidades vizinhas Resende e Itatiaia celebram dois investimentos de grande porte no segmento automobilístico. Em Resende, a fábrica da Nissan começa a produzir no mês que vem. Com um investimento de R$ 2,6 bilhões, a montadora emprega 1.500 pessoas e prevê o aumento para 2 mil depois no início da produção.

Já Itatiaia receberá uma planta da Jaguar Land Rover. A empresa britânica investirá R$ 750 mil até janeiro de 2020, na construção da fábrica. A previsão inicial é de geração de 400 empregos. “Será uma mão de obra mais qualificada, pois os carros deles são quase artesanais”, acredita Bartolomeu Citele, do Sindicato dos Metalúrgicos do Sul Fluminense. O governo estima que a chegada das novas fábricas gere outros 1.500 empregos em fornecedoras. A Nissan, por exemplo, trouxe cinco firmas japonesas com ela,como a fabricante de bancos Tachi-S e a Mitsui Steel, da área de chaparia.

A fábrica japonesa Nissan vai inaugurar a fábrica em Resende%2C em abril%3Ainvestimento de 2%2C6 bilhões e geração de 1.500 empregos imediatosDivulgação

Segundo o vice-presidente da MAM e presidente do Cluster Automotivo Sul Fluminense, Adilson Dezoto, o cenário para os próximos anos é bastante otimista. O grupo prevê a geração de 15 mil empregos diretos e outros 30 mil indiretos na região, até 2020. 

Para o secretário estadual de Desenvolvimento Econômico, Energia, Indústria e Serviços, Julio Bueno, a localização da região é estratégica para empresas que queiram se instalar por lá. “A proximidade com a Via Dutra, que cruza os dois maiores mercados consumidores do País, próxima a portos, com facilidade para escoamento da produção, é o principal incentivo”, afirma. “Com o parque fornecedor já em formação, a região torna-se mais competitiva”, completa.

Bartolomeu Citeli acredita que a Jaguar vai empregar mão de obra qualificada na fábrica de ItatiaiaEstefan Radovicz / Agência O Dia

“Uma esperança é o SUV compacto 2008” - Marcellus Leitão, editor do Automania

A natural preocupação dos moradores do Vale do Paraíba com a PSA tem como atenuante o crescimento da região. A Nissan inaugura uma fábrica completa em abril. Dois modelos vão sair de lá em breve, o March e o Versa. Ano que vem a Land Rover começa a afinar sua produção em Itatiaia e muitas sistemistas já estão montando estruturas no entorno. A Peugeot falhou em alguns modelos de vendas fracas e estabeleceu políticas de custos e pós-vendas atravessadas, que acabaram arranhando seu desempenho e imagem. A marca tem um excelente produto no mercado, o hatch 208, que, por si só, não consegue alavancar resultados. Uma esperança é o SUV compacto 2008, com produção prevista por aqui este ano.

Crise na Europa

Devido à crise econômica na Europa, com consequente retração do mercado, a PSA Peugeot Citroën teve queda nas vendas e chegou a fechar a fábrica de Aulnay, perto de Paris. Em fevereiro, a empresa anunciou a venda de parte das ações da família Peugeot para a estatal chinesa Dongfeng e para o governo francês, em uma tentativa de recuperação. Cada um dos novos sócios pagou 800 milhões de euros pela fatia de 14% da empresa.

Crise no Brasil

Nos últimos quatro anos, a venda de nacionais da PSA Peugeot Citroën no mercado interno caíram gradativamente. Segundo anuário da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores, em 2010, foram 107.192 unidades nacionais vendidas no atacado. Já no ano passado, o número caiu para 81.489 veículos, uma queda de 24%. Atualmente, a fábrica produz os modelos Peugeot 208, 207, 207 Passion e Hoggar e os Citroën C3, Aircross e C3 Picasso. e 1,6 litro flexfuel e a gasolina (para exportação).

Crise na Argentina

Um dos fatores que agravou a situação da empresa foi a situação econômica da Argentina. Em dezembro do ano passado, o país vizinho anunciou um corte de 27% na importação de veículos. Para a Peugeot, a restrição foi um baque. A montadora brasileira exporta 30% da produção, sendo que a maior parte vai para o país hermano.

Suspensões 

Para evitar o corte de empregos, a direção da Peugeot cortou um dos três turnos de sua produção em Porto Real, suspendendo temporariamente o contrato de 650 funcionários. Eles estão parados, fazendo cursos de qualificação, por, no máximo, cinco meses. Ao fim deste período haverá um revezamento e uma nova turma será suspensa. No acordo firmado com o sindicato da categoria em Porto Real, a Peugeot se comprometeu a custear o curso oferecido aos empregados. No período de suspensão, eles estão recebendo seguro-desemprego e uma complementação da empresa, que inteira o valor de 100% do salário.

Reportagem de Luísa Brasil

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