Aluguel de quarto na Copa chega a R$ 60 mil por período de um mês

Valor mais alto é no bairro paulistano de Higienópolis. Na Rocinha, favela carioca, dono de imóvel pede R$ 31,4 mil pela locação do cômodo durante o Mundial

Por O Dia

São Paulo - Tentar economizar ao trocar uma diária de hotel pelo aluguel de um quarto durante a Copa do Mundo pode não ser a melhor decisão financeira. Um quarto, segundo levantamento feito pelo iG no site Airbnb, pode custar até R$ 60 mil por um período de um mês. É o anúncio com valor mais alto no site que oferece locação de quartos, casas e apartamentos para temporada – com anúncios apenas de pessoa física.

O apartamento mais caro está localizado em Higienópolis, em São Paulo. A diária para um hóspede, que terá direito a um quarto e banheiro privativo, bem como acesso à piscina, sauna e academia, é de € 1 mil por dia, e € 1,2 mil o casal. Os anfitriões falam inglês, espanhol e húngaro. Três refeições por dia já estão inclusas no preço, além da Internet de alta velocidade e TV.

Quarto em apartamento no bairro de Higienópolis%2C em São Paulo%2C com piscina%2C segurança%2C spa e academia%2C custa R%24 60 mil o mêsReprodução Internet

No Rio de Janeiro, é cobrado R$ 41 mil pelo aluguel do quarto em uma área superior de uma cobertura próxima ao estádio do Maracanã, e R$ 31,4 mil para quem quiser ficar em um quarto privado na favela da Rocinha, em um apartamento localizado em um pequeno prédio.

Como atrativos, o anúncio do quarto na Rocinha cita atividades culturais realizadas na comunidade, como rodas de samba, exibições de artes marciais e bailes de funk. E não deixa de dar alertas, como não tirar fotos de pessoas sem permissão. A anfitriã só fala português, mas o vizinho americano pode ajudar o hóspede quando precisarem, informa o anúncio.

O valor pedido em alguns anúncios está muito acima do cobrado na média no período da Copa. O preço médio da diária (nacional), segundo o site, é de R$ 170, o que no mês soma R$ 5,1 mil – quase 12 vezes mais do que o cobrado pelo quarto do bairro paulistano de Higienópolis.

Um levantamento no site aponta que o turista está disposto a pagar mais por conta da Copa, mas não muito. O preço médio para anúncios de um quarto de casal reservado em março, por exemplo, foi de R$ 140 no site, uma diferença de apenas R$ 30 se compararmos com a média de reserva durante a Copa.

Demanda cresceu até 100% e, reajustes de preço, 112%

O Airbnb registra até agora cerca de 15 mil anúncios de quartos, casas e apartamentos para alugar no Brasil durante o período da Copa. Ao todo são aproximadamente 82 mil leitos.

O número de reservas e anúncios cresce diariamente e o site espera um recorde. A demanda cresceu mais de 100% se comparada com o mesmo período do ano passado, e tende a crescer mais com a aproximação do Mundial.

O Rio é a cidade que tem mais anúncios e reservas confirmadas no Airbnb, seguida por Salvador e São Paulo. Foram 3 mil reservas no Rio, e apenas 300 em São Paulo. Entre os turistas que mais fazem reservas estão americanos, seguidos por europeus e latino- americanos.

Leonardo Neves, cofundador do Homestay Brazil, site concorrente do Airbnb criado no ano passado, conta que já recebeu de 400 a 450 solicitações de reservas nos últimos três meses e fechou cerca de 200.

Neves aponta que o foco do site e anunciantes é o turista estrangeiro, para os quais as vendas são mais rápidas e, por conta da moeda brasileira desvalorizada, mais lucrativa.

Considerando a amostragem de quartos que já foram alugados para a Copa no Homestay Brazil, o ajuste médio dos preços destes quartos para o Mundial em relação ao período de baixa temporada foi de 98%.

O maior reajuste médio foi observado em Cuiabá, 112%. A cidade é seguida pelo Rio, cujos preços subiram 109%, em média; Manaus, que registra diferença média de 105%, Brasília, de 85%, e Belo Horizonte, de 80%. São Paulo e Curitiba tiveram os menores reajustes entre os anúncios no site.

Sites recomendam evitar abusos

O Airbnb não determina o preço que os anfitriões devem cobrar, mas tem orientado os iniciantes ao disponibilizar uma calculadora que informa uma faixa de preço sugerido, estimado entre os demais anúncios da área com as mesmas características.

O site também aconselha aos usuários realizarem uma busca sobre quanto os outros anfitriões estão cobrando, e começar praticando um preço um pouco abaixo para atrair as primeiras reservas e receber os primeiros comentários, que ficarão disponíveis no site e podem atrair outros hóspedes.

Quarto para alugar na comunidade da Rocinha%2C no Rio%2C leva até bailes funks e custa R%24 31 mil o mêsReprodução Internet

O Homestay Brazil recomenda que o preço cobrado pelo quarto não seja maior do que o da média da hotelaria na cidade. "Há quem cobre 50% e até menos do que esta média, e há quem tenha uma expectativa maior e cobre valores altos", diz o cofundador do site Leonardo Neves. "Tem de tudo".

O problema, conta Neves, é que quem está praticando preços altos tem recebido poucas propostas. "Os turistas estão muito sensíveis, colocando o preço como ponto crítico. Eles já buscam a hospedagem alternativa como forma de reduzir custos. Geralmente têm perfil de mochileiros e contam que até albergues estão com preços proibitivos no período".

Mas o executivo diz que também há quem esteja disposto a pagar pela experiência de ter contato com a cultura local, que não têm o preço como fator preponderante.

O valor é definido de acordo com a localização, mas Neves recomenda que, em Belo Horizonte, seja cobrada uma diária de R$ 150 e, no Rio, R$ 200. "Em São Paulo ainda existe oferta no setor hoteleiro e há uma busca menor, o que pode diminuir mais o preço, enquanto cidades como Salvador e Recife têm mais demanda".

Cidades sedes têm peculiaridades

A lei da oferta e da demanda é um guia para os preços. Em Cuiabá, quem aluga quartos encontra um ambiente favorável: faltam hotéis na cidade, e houve até um incentivo do governo local para os moradores alugarem suas casas no período, principalmente dentro do conceito de cama e café (aluguel de quarto com refeição incluída).

Sandoval de Oliveira Santos, de 53 anos, que trabalha com reparo de ar condicionado e ventilador, mora em Cuiabá e resolveu aproveitar a oportunidade.

Santos abriu os dois quartos de sua casa, onde vive com seu filho de oito anos, e que fica a 500 metros da Arena Pantanal, para os turistas durante o Mundial. Mas, para isso, precisou investir. Comprou camas novas, TV de LED e lençóis, e resolveu cobrar uma diária de R$ 150 por pessoa.

Como resultado, já tem três reservas confirmadas: uma para seis chilenos, que irão ficar três dias nos dois quartos; três colombianos, que irão ficar cinco noites em um dos quartos; e três australianos, que irão ficar três noites em um quarto. Santos estima já ter embolsado R$ 5,4 mil.

O objetivo é compensar o investimento realizado nos cômodos e ter R$ 3 mil de lucro. "Ainda faltam R$ 1,6 mil". E o inglês e espanhol? "Vou me virar", diz o anfitrião. "Já arranjei um tradutor informal", brinca.

Prática deve virar tendência no País

Segundo o Airbnb, a Copa tem impulsionado a moradia compartilhada. A maioria dos novos anfitriões não pretende apenas alugar o seu espaço para o evento.

A professora aposentada Grace Mary de Castilho, de 54 anos, pretende continuar alugando o quarto de sua filha, que se casou em 2011, em seu apartamento no Botafogo, no Rio. "No Rio, temos uma Copa do Mundo eterna", brinca.

Grace irá receber hóspedes pela primeira vez durante a Copa: um argentino e um casal de colombianos, em dois períodos: duas noites e 19 dias, respectivamente. "São turistas que não têm como ficar em um hotel caro, e só querem um lugar para guardar roupas com segurança, dormir com conforto e tomar banho".

Para disponibilizar o quarto para turistas, a professora recebeu o incentivo da irmã, que aluga um apartamento na cidade. "O Flamengo se tornou um bairro muito valorizado para o turismo e tem fácil acesso para pontos turísticos, como o Cristo Redentor. Além disso, do meu apartamento tenho uma vista parcial para a Baía de Guanabara. Tive um retorno rápido dos hóspedes".

Com uma diária de R$ 131, Grace já faturou quase R$ 4 mil. Viúva, ela mora sozinha e conta que confia na segurança dos sites de aluguel. "O casal de colombianos pediu uma foto minha e me escreveu em espanhol que gosta de viajar e aprecia o futebol. Me pareceu muito simpático".

Como regra, Grace exigiu dos hóspedes apenas boa convivência e destacou que o prédio é estritamente residencial. "A síndica aqui é linha dura", conta. Ela resolveu não incluir café e refeições, mas diz que irá oferecer um bolo ou doce como boas-vindas. "Também irei me disponibilizar para orientá-los sobre transporte e localizações".

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