Livro revela como trio bilionário de brasileiros toca os negócios

Radical controle de gastos é o mote da gestão

Por O Dia

Rio - Com 200 mil exemplares vendidos em um ano no país, o livro ‘Sonho Grande’, da jornalista Cristiane Correa, que narra a trajetória empresarial dos brasileiros Jorge Paulo Lemann, Marcel Herrmann Telles e Carlos Alberto Sicupira, donos da Ambev, chegou aos Estados Unidos. O lançamento ocorreu durante o encontro dos acionistas da Berkshire Hathaway, empresa do megainvestidor Warren Buffett.

“Foi sensacional. Durante a reunião, Buffett — sócio dos brasileiros na americana Heinz, gigante do setor de alimentação — responde a perguntas dos acionistas e alguém indagou sobre o livro. E ele respondeu que era muito bom. Assim, os 300 exemplares da edição em inglês se esgotaram antes de terminar o evento”, conta Cristiane, que voltou semana passada de Omaha, nos Estados Unidos, onde fica a sede da empresa do megainvestidor, apontado como o quarto homem mais rico do mundo.

Isabel Medeiros, diretora de Expansão, e a jovem equipe do Grupo TrigoJoão Laet / Agência O Dia

Na lista dos mais vendidos há 53 semanas, a publicação relata como os três empresários cariocas construíram em quatro décadas o maior império cervejeiro do mundo ao criarem a AB InBev — controladora da AmBev e de marcas como Budweiser, Stella Artois e as nacionais Brahma e Antártica, entre mais de 200 cervejas.

Lemann, Telles e Sicupira também são controladores, além da Heinz, da rede americana de fast food Burger King e das Lojas Americanas. Com 246 páginas e publicado pela Editora Sextante, o livro revela como, inspirado em empresas americanas, Lemann trouxe para o país métodos até então pouco usados por aqui: meritocracia, competitividade entre os funcionários, controle implacável por redução de custos e a chance para que os melhores colaboradores se tornassem acionistas.

A publicação narra, por exemplo, os momentos tensos como quando conquistaram a “América engarrafada” — a compra da Anheuser-Busch, dona da Budweiser, por US$52 bilhões; a queda do banco Garantia, fundado por Lemann nos anos 1970; e como Sicupira demitiu, numa só tacada, 35 diretores das Lojas Americanas, que não entenderam a nova gestão de cobrança de resultados e corte de custos. Numa manhã, o grupo se rebelou contra o presidente, dizendo que ele deveria sair. Após o almoço, todos estavam na rua.

'Fiquei perseguindo eles uns quatro anos para fazer o livro e não toparam. Ele está 53 semanas na lista dos mais vendidos. Esse foi o meu sonho grande'%2C diz autoraDivulgação

Administração diferenciada

Professora de MBA do Ibmec-RJ e diretora de pesquisa da Associação Brasileira de Recursos Humanos, seção Rio, Alba Duarte diz que o modelo de gestão adotado pelos criadores da Ambev — mais agressivo e orientado pelos resultados — não é para qualquer trabalhador.

Segundo ela, ao participar de um processo seletivo, o candidato deve, previamente, conhecer a cultura da empresa, para não haver frustração.

Alba explica que há vários modelos de administrar, centrados na cultura e valores organizacionais de cada empresa. O funcionário deve atuar naquele que se sente melhor, em que é mais feliz.

Quem é focado em inovação, trabalho em equipe, gosta de flexibilidade de horários e até mesmo para atuar em outras cidades ou país, deve procurar empresas de tecnologia.

Já quem gosta de segurança, estabilidade, hierarquia, crescimento planejado, e não necessariamente em prêmios e vantagens, pode optar por empresas mais conservadoras ou o serviço público.

Pilares do trio: pensar grande dá o mesmo trabalho que pensar pequeno; redução de custos é diária; trabalhar com sócios é melhor do que com empregados.

Os mais ricos do país

Do mercado financeiro ao império da cerveja, Jorge Paulo Lemann ocupa o posto de mais rico do país e o 33º do mundo, com uma fortuna de US$ 19,7 bilhões, segundo a revista Forbes. Marcel Telles (US$ 9,1 bilhões) e Beto Sicupira (US$ 7,9 bilhões) ocupavam a 119ª e a 150ª posições, respectivamente, em 2013.

“Eles não gostam de aparecer. Se pudessem se escondiam e não sairiam em lista nenhuma”, diz Cristiane sobre os empresários que não participaram do livro-reportagem. O estilo implacável de administrar, mas com autonomia aos colaboradores, é admirado por muitos que trabalham ou passaram pelas empresas.

“A Ambev foi uma escola para mim. É o lugar que se entra muito jovem e se aprende muito. Hoje uso os conceitos e as ferramentas de ouvir as pessoas”, diz Isabel Medeiros, 34 anos, diretora de Expansão do Grupo Trigo, controlador dos restaurantes Spoleto, Domino’s e Koni Store.

Sonho Grande foi lançado nos Estados UnidosDivulgação

Invista nas pessoas

Melhor dar uma chance às pessoas talentosas (ainda que novatas) e sofrer algumas decepções no caminho do que não acreditar nelas.

Grande sonho

Gente boa precisa ter coisas grandes para fazer, senão leva sua energia criativa para outro lugar. Recrute as melhores pessoas e depois dê a elas coisas grandes para fazer.

Meritocracia

Valorizar o desempenho, não o status; a realização, não a idade; a contribuição, não o cargo; o talento, não as credenciais. As melhores pessoas anseiam pela meritocracia, enquanto as medíocres têm medo de ser avaliadas.

Exportar cultura

A cultura não é um apoio à estratégia; a cultura é a estratégia — exemplo da dinâmica é preservar a essência e estimular o progresso. O movimento é encontrado em todas as empresas duradouras.

Crial algo grande

Desenvolver a empresa é a melhor forma de gerar riqueza a longo prazo. E administrar dinheiro, por si, nunca vai criar algo tão grande e que seja duradouro.

Simplicidade

A genialidade não é tornar uma ideia complexa, mas transformar um mundo complexo em uma proposta bem simples — e ater-se a ela por um longo tempo.

Fanático

Existe apenas um esforço intenso, de longo prazo, sustentado. E o único meio de construir esse tipo de empresa é ser fanático. Quando eles se reúnem com outros com mesmo perfil, o efeito multiplicador é irrefreável.

Disciplina e calma

São a chave do sucesso em momentos de dificuldades.

Conselho de administração forte

O conselho é o principal centro de poder, definindo um papel central em determinar metas audaciosas, desenvolver a estratégia, sustentar a cultura, agarrar oportunidades e liderar em períodos tumultuados.

Conectar pessoas

Conectar pessoas extraordinárias umas às outras, facilitando interações entre gente excepcional, estimulando o potencial aprendizado de todos.

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