Por adriano.araujo

Rio - ‘Aqui nasceu o fenômeno”. A frase pintada em letras garrafais no muro que margeia o gramado é a locomotiva que move jovens aspirantes a astros do futebol no São Cristóvão. O clube centenário foi celeiro do ex-atacante e hoje, disputando a série C do Campeonato Carioca, ainda atrai atletas em busca de ascensão por meio do futebol. Diariamente, eles miram a frase na esperança de serem descobertos como craques e alçados ao estrelato, assim como ocorreu com Ronaldo, Neymar, Daniel Alves e outros jogadores que já defenderam a amarelinha.

Longe dos holofotes que iluminam os astros, a rotina é árdua e os salários, modestos. Em um país onde a seleção tem valor de mercado de R$ 1 bilhão, 83% dos jogadores sobrevivem com apenas um salário mínimo (R$ 724). De acordo com a Confederação Brasileira de Futebol (CBF), dos mais de 17 mil federados no país, 14.241 estão nesta condição.

“É um mercado de trabalho de mentira, com muitos clubes que nem salário pagam. A pessoa joga apenas esperando uma chance de aparecer”, critica Alfredo Sampaio, presidente do Sindicato dos Atletas Profissionais do Rio (Saferj).

Os jogadores Augusto dos Santos (à dir.)%2C 25%2C Átila da Silva%2C 25%2C Willis Mota%2C 29%2C e Jones Vieira%2C 18%2C do São Cristóvão%3A salários baixos e rotina pesada na busca do sonhoAlessandro Costa / Agência O Dia

O afunilamento para chegar até a elite é cruel. Apenas 3% dos jogadores que atuam no Brasil ganham mais de 20 salários mínimos (R$ 14.480). A cada ano que passa, a idade se torna um fardo mais pesado para se carregar, levando jogadores a um dilema entre insistir na carreira ou buscar um “plano B”.

Mesmo sabendo que as estatísticas jogam contra, o goleiro Willis Mota, 29 anos, investe na carreira esportiva. Natural de Feira de Santana, no interior da Bahia, ganha R$ 2.500 jogando no Volta Redonda. Mas os primeiros anos foram de vacas magras.

“Aos 18 anos vim para o Rio e tive que morar na casa da mãe do meu empresário”, conta o goleiro, que parou de estudar na oitava série por causa das sucessivas mudanças de clubes, que o levaram a jogar até no insólito Atlético Roraima Clube. Com mais idade do que a média da seleção brasileira, de 27,8 anos (a estrela do time, Neymar, tem 22), Mota sonha em comprar uma casa para a família e ter um salário “confortável”. “Se for na faixa entre R$ 15 mil e R$ 20 mil, está bom”, diz.

Para o economista Samy Dana, professor da Fundação Getulio Vargas (FGV), pensando friamente, não vale a pena investir na carreira de jogador, pois o risco de dar errado é muito alto. Ele acredita que a ilusão de sucesso é mais forte no mundo da bola porque as histórias de quem virou ídolo estão constantemente na mídia. “Só temos notícias das pessoas que se deram bem”, afirma.

O alto risco não impediu Jones Vieira, 18, de tentar a vida nos gramados. Recém-profissionalizado, o lateral direito explica que a escolha foi um caminho natural, pois sua primeira lembrância de infância é a de brincar com uma bola.
“Meu primeiro presente foi uma bola. Lembro que jogava o dia inteiro e minha avó passava o dia reclamando disso”, diverte-se.
No São Cristóvão, está na expectativa de ser contratado em breve e entrar na massa de assalariados da bola que ganha o piso. O salário que receberá será o mesmo de sua mãe, que trabalha com serviços gerais. Mas Jones confia de que não seguirá os passos dela.

“Já a vi comprar muitas coisas para mim e deixar de comprar para ela. Mês passado mesmo, minha chuteira rasgou e ela comprou uma nova. Isso só fortalece meu sonho de poder dar uma vida melhor para minha família”, argumenta.

Leonardo Medeiros%2C meia do Santa Cruz%2C sonha com com o profissional%2C mas não largou os estudosAlessandro Costa / Agência O Dia

Fé que move montanhas e jogadores

?Não é só o nome e a profissão que o meia Leonardo Medeiros, 21 anos, e o volante Leonardo Varella, 19, compartilham. A fé é o terceiro elemento que os une quando explicam a busca do estrelato nos gramados. “Deus fez uma promessa para mim de que eu seria jogador”, diz o evangélico Leonardo Varella, que começou a jogar aos 4 anos, no Vasco. Aos 17, foi dispensado do time do coração.

“Sofri muito e demorei para me recuperar. Mas Deus me fez continuar”, afirma. Leonardo joga no Santa Cruz, time que disputa a série C do Rio, e afirma que já viu vários colegas desistirem da profissão. “Muitas vezes, não tem como a pessoa viver com um salário mínimo. Graças a Deus, minha família pode me ajudar”, diz.

É também na fé que o companheiro de time Leonardo Medeiros se apoia. Natural de Belford Roxo, o botafoguense se espelha em ídolos do futebol internacional como Zidane e Riquelme. Apesar de acreditar que vai crescer na carreira, estuda Direito na Estácio de Sá, pois sabe que a competição pelo topo é ferrenha.

“Estou tentando fazer o meu melhor e acredito nos planos de Deus. Se acontecer, aconteceu. Se não acontecer, estou estudando para isso”, afirma, com os pés no chão.

Acúmulo de jornadas

?Na dúvida entre perseguir o sonho de se tornar o próximo milionário da bola ou investir na garantia de um futuro melhor, há jogadores que conciliam as opções.

O zagueiro Augusto dos Santos, 25, joga como profissional no São Cristóvão, faz faculdade e trabalha como salva-vidas nos finais de semana. Ele chegou a atuar em Portugal por um ano, mas em 2012, quando estava sem clube, repensou os rumos da carreira.

“Quando fiz 23 anos e vi as dificuldades da profissão, resolvi tomar uma atitude. No futebol a carreira é curta e não dependemos somente de talento, mas também de oportunidades”, diz ele, que cursa o 2º período de Educação Física na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

É também pensando em alternativas que Átila da Silva Júnior, 25, faz jornada tripla de segunda a sexta-feira. Além de treinar como volante do São Cristóvão, o morador de Mesquita trabalha à tarde em uma peixaria e à noite também em uma lanchonete.

“Tem dia que janto às duas da manhã. Às vezes,chego cansado ao treino, mas sei que posso ser visto em um jogo e começar a ganhar dinheiro”, espera ele, que quer fazer faculdade se não deslanchar. “O que mais vejo é gente que vira ajudante de pedreiro e ganha uma diária pra fazer serviço braçal. Mas se eu sair, quero estudar”, avisa.

Você pode gostar