Gilberto Braga: Remédio amargo para a economia

Se compararmos o resultado dessa forma de gestão da economia com a saúde de uma pessoa, poderemos dizer que ela precisa mudar os seus hábitos

Por O Dia

Rio - A economia não vai bem, qualquer pessoa que vai ao supermercado percebe. A vida piorou com os juros altos, o endividamento e a inadimplência mordem nossos calcanhares. Mas, afinal, por que isso aconteceu? A causa está toda na conta da crise internacional?

Lógico que não. Na verdade, a crise global gerou pressão no câmbio, com a desvalorização do real e aumento do dólar. Como muitos insumos e matérias-primas são importados, o governo travou guerra cambial com o mercado e câmbio foi administrado. Isso fez com que ficasse a maior parte do tempo abaixo do que seria o seu valor justo, devido às intervenções do Banco Central.

O governo também tentou administrar os preços internos, duelou com o mercado para tentar segurar a inflação. Retardou aumentos de tarifas, como as de transporte urbano, energia e derivados de petróleo, mas a inflação se manteve persistente acima dos 6% anuais.

O superávit primário, cuja meta é fixada pelo próprio governo, deveria indicar que se arrecada mais do que se gasta com a manutenção do Estado como um todo. Mas o objetivo só foi atingido por meio da chamada “contabilidade criativa”. O governo usou critérios contábeis duvidosos para fechar as contas e o balanço.

O Planalto acredita que as intervenções do Estado na economia são necessárias para que se privilegie determinada visão política da sociedade. Trata-se de projeto de poder, que tolera, por exemplo, que a inflação possa ser relativamente alta, para assegurar conquistas sociais.

Se compararmos o resultado dessa forma de gestão da economia com a saúde de uma pessoa, poderemos dizer que ela precisa mudar os seus hábitos. Pois o governo age como alguém que tem o colesterol alto e toma remédio diariamente para controlar a doença, mas leva vida desregrada.

Com o passar do tempo, o colesterol dispara, só que o remédio já não faz o mesmo efeito e a qualidade de vida, em vez de melhorar, começa a piorar. Para se curar para valer é necessário cortar os maus hábitos.

Gilberto Braga é professor de Finanças do Ibmec e da Fundação Dom Cabral.

Últimas de _legado_Economia