Casais deixam de ter filhos e orçamento reduz em 25%

Opção por não ter herdeiro cresce, mas isso apenas não garante saúde financeira

Por O Dia

Rio - A profissional de recursos humanos Cibeli Amraim, 36 anos, optou por não ter filhos. Essa escolha não foi por falta de tempo ou de dedicação: “A gente gosta de viajar, e para isso nós queremos liberdade”, disse. Ela e o marido, o servidor Alexander Amaral, 36 anos, fazem parte dos 19% de casais que escolheram não ter herdeiros. A decisão pode reduzir o gasto no orçamento em 25% de toda a renda obtida em duas ou três décadas.

Pessoas sem filhos são cada vez mais numerosas no Brasil. O percentual cresceu de 5%, entre 2002 e 2012, enquanto os arranjos familiares constituídos por casal com filhos diminuíram 7% no mesmo período, segundo o último levantamento do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
“A escolha de não ter filhos era uma certeza que eu tinha, pois não conseguia me ver como mãe”, disse Cibeli. “Se a gente tivesse filho, até conseguiríamos viajar, mas seria limitado ao que a criança poderia fazer”, argumenta Alexander.

Ela do Rio Grande do Sul e ele de Pernambuco, o casal mora no Rio há 5 anos e está junto desde 2008. Quando pensaram em construir a vida juntos, já pensavam em não ter filho. Com o descompromisso de cuidar de um pequeno, a dupla já fez diversas viagens nacionais e internacionais. “Como não temos familiares no Rio, a gente está sempre viajando para encontrá-los e para lugares novos. Já fomos para a Argentina, Uruguai e outros estados do Brasil”, recorda Cibeli.

Levando-se em conta o aumento do custo da educação e o prolongamento da dependência para perto dos 30 anos de idade, a decisão por ter filhos passa cada vez mais pela condição financeira do casal. “O custo de criar um filho aumentou muito para a nova geração em idade fértil”, diz o educador financeiro do instituto Dsop, Reinaldo Domingos.

Cibeli e Alexander curtindo Buenos Aires%2C Argentina. Um dos motivos para o casal não ter um herdeiro foi a liberdade de viajar e sair à noiteArquivo Pessoal / Divulgação

Um cálculo feito pelo professor da ESPM e presidente do Instituto Nacional de Vendas e Trade Marketing (Invent), Adriano Maluf Amui, mostrou que, dependendo da condição econômica dos pais e da disposição em investir no futuro do filho, os gastos com o rebento podem variar entre R$ 200 mil e R$ 1 milhão ao longo de 21 anos — considerando-se apenas gastos básicos, com educação, saúde e lazer.

A design de interiores Danielle Vellozo, 34 anos, e o marido, o auditor Ricardo Vellozo, 36, tiveram a mesma decisão. Para ela, a cobrança da família é grande. “Minha irmã mais nova já é mãe e as pessoas perguntam quando vou engravidar. A sociedade te olha diferente quando você não segue o padrão”, disse Danielle. É o que pensa Cibeli. “Tem gente que acha que somos egoístas. Mas ter filho achando que ele vai cuidar dos pais quando estiverem velhos é ainda mais egoísta”, afirma.


Casal consumista pode se frustrar

Embora não ter filhos gere uma economia considerável, essa opção está longe de garantir uma vida financeira tranquila. Da mesma forma, quem gerou uma vida pode ter pleno controle de seu orçamento.
A educação financeira nada tem a ver com a escolha em ter filhos, lembra o educador financeiro Reinaldo Domingos. Se o casal for excessivamente consumista, mesmo sem filhos, pode se frustrar por não conseguir formar uma poupança ou fazer um plano de presidência como gostaria. Já uma pessoa controlada e com perfil investidor pode ter dinheiro de sobra para suas realizações pessoais, ao lado dos filhos.

Portanto, diz Domingos, ao considerar motivos financeiros dentro da opção de ter filhos, deve-se levar em conta não só quanto se ganha, mas como a pessoa lida com o dinheiro. Deve-se pesar sonhos e prazeres: por exemplo, sem filhos, pode-se destinar 25% para uma doação, para um plano de aposentadoria ou um estilo de vida mais confortável.

Simulação

O educador financeiro do Dsop Reinaldo Domingos calculou três casos de quanto um casal pode acumular ao longo de anos com a quantia que deixaria de investir se tivesse filhos. A estimativa considerou aportes de 25% da renda familiar, levando em conta um rendimento médio de 0,65% por mês e a inflação anual de 5,91% ao ano. Confira:

CASO 1
Um casal que, junto, tem uma renda mensal de R$ 2 mil, pode investir mensalmente R$ 500. O valor acumulado da poupança feita pelos dois em 20 anos será de R$ 452 mil. Em 30 anos, o valor acumulado pelos dois fica em bons R$ 1,3 milhão.

CASO 2
Em um segundo perfil de casal, desta vez com renda mensal de R$ 5 mil, caso os dois invistam R$ 1,2 mil todo o mês, o valor acumulado em 20 anos será de R$ 1,1 milhão. Já em 30 anos, o valor acumulado fica em R$ 3,3 milhões.

CASO 3
Com renda de R$ 10 mil, o casal que investir R$ 2 mil mensais consegue R$ 2,2 milhões em 20 anos e R$ 6,7 milhões em 30 anos.


“Um filho é mais caro que carro de luxo”


De acordo com o educador financeiro, “se você não quer comprometer parte da renda com outra pessoa, não tenha filhos”. Os pais, continua Domingos, vão precisar desembolsar esse ganho familiar nesta nova vida que é a criança que veio ao mundo, como um investimento, ao longo de décadas.

De tão representativo, o grupo dos sem filhos ganhou o apelido de “dink” nos Estados Unidos (abreviação de “double income, no kid”, ou “dupla renda, sem filhos”). A economista e psicanalista francesa Corinne Maier, autora do livro “Sem Filhos — 40 Razões Para Você Não Ter”, admite ter se arrependido de engravidar e um dos motivos foi financeiro.

“Um filho custa uma fortuna. Está entre as compras mais caras que um consumidor médio pode fazer em sua vida. Em matéria de dinheiro, custa mais caro que um carro de luxo do último tipo, um cruzeiro ao redor do mundo, um apartamento de quarto e sala em Paris. Pior ainda, o custo total pode aumentar no correr dos anos”, diz, em trecho do livro.

Reportagem de Tais Laporta

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