Por felipe.martins

Rio - Encaradas com desconfiança, as usinas nucleares são uma alternativa para suprir a carência energética do país em tempos de escassez de água. Com a crise hídrica, as termelétricas convencionais, que deveriam ser acionadas apenas em casos de emergência, têm sido usadas constantemente, elevando o custo do megawatt/hora (MWh) e da conta de luz, além de contribuir para a poluição atmosférica. Outras formas de energia limpa, como solar e eólica, são instáveis, pois dependem de condições climáticas. Em tese, a energia nuclear seria a matriz perfeita, mas as vantagens compensam o risco de acidentes?

Para José Carlos de Miranda Farias, diretor de Estudos em Energia Elétrica da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), as nucleares são boa opção para substituir as termelétricas convencionais pelo baixo custo e por não liberarem gases que contribuem para o efeito estufa. “As hidrelétricas são a fonte de energia mais barata do mundo. Mas com a falta de chuvas precisam do suporte das térmicas, que podem ser movidas a carvão mineral, diesel e combustível, gás natural ou nucleares. Todas essas são mais caras, em comparação às hidrelétricas. Mas, entre as térmicas, a nuclear e as de gás natural são as mais baratas”, explica.

Em tempos de falta d’água%2C a energia nuclear aparece como alternativa mais barata e menos poluente que as térmicas%2C porém%2C mais polêmicaArte O Dia

Além disso, segundo Miranda, as usinas nucleares costumam ter maior potencial de geração energética. “Existem termelétricas de todos os tamanhos. Mas, em média, essas usinas geram 350 megawatts, enquanto no mundo o padrão das nucleares é de 1.000 MW”, explica.

RISCO DE ACIDENTES

O principal problema, para o especialista, é o fator psicológico. “O público em geral considera a usina nuclear muito insegura. Existe em quase todo o mundo medo exacerbado quanto à segurança desse tipo de geração de energia”, avalia.

Físico nuclear e professor do curso de Geofísica da Universidade Federal Fluminense (UFF), Alexandre Motta Borges pondera que os riscos não devem ser ignorados. “É uma grande tecnologia, resolve o problema, mas tem muitos contras. Em primeiro lugar, é passível de acidentes, como os que ocorreram em Fukushima (Japão), Chernobyl (Rússia) e Three Mile Island (Estados Unidos). Além disso, há a questão dos resíduos radioativos, que precisam ser armazenados com extremo cuidado. Em geral, eles são enterrados e levam centenas de anos para voltar a ser estáveis e deixar de emitir radiação. A massa de lixo pode não ser grande, o problema é a letalidade”, argumenta.

Apesar de defender o investimento em energia nuclear, Luiz Pinguelli Rosa, diretor da Coppe/UFRJ, reconhece que esse tipo de geração de energia é perigoso. “Hoje as usinas nucleares já integram o sistema energético do Brasil, e cada vez mais terão o seu lugar assegurado. Dependemos muito do uso da água e precisamos de alternativas. Mas o risco é inevitável. Tem que colocar na balança e promover um amplo debate, que envolva todos os interesses da sociedade. É uma questão de julgamento”, diz.

Rio tem as únicas usinas nucleares do Brasil

Hoje o município de Angra dos Reis, no Estado do Rio, concentra as duas únicas usinas nucleares do Brasil. Segundo a Eletronuclear, Angra 1 e 2 são capazes de gerar energia suficiente para atender a 48% do consumo do estado durante um ano. Angra 3 está em construção e a previsão é que fique pronta em 2018. Com isso, as três usinas serão capazes de atender a 83% do consumo no Rio.

A Secretaria Estadual de Desenvolvimento Econômico informou que a capacidade de geração de energia elétrica instalada no estado já é superior à sua necessidade. Considerando o cenário atual, 55% vêm de térmicas convencionais, 35% das usinas nucleares e 10% de hidrelétricas.

A pasta lembra, no entanto, que todo sistema elétrico no país é interligado: “Às vezes uma região é exportadora de energia numa época do ano e em outra é importadora. E os percentuais podem ser alterados em função da disponibilidade de água, gás, preço do gás, equipamentos em manutenção, etc”.

Construção de unidade é mais cara do que as térmicas convencionais

O papel da energia nuclear é de complementaridade, segundo a Eletronuclear. Já a hidroeletricidade, dentro do Sistema Integrado Nacional, é energia de base. Diretor da Coppe/UFRJ, Luiz Pinguelli Rosa afirma que o papel das nucleares é diferente das térmicas e sua instalação é mais cara.
“É usina de base, não aceita ficar ligando e desligando, tem que ficar estável. Sua existência permite usar menos energia gerada pelas térmicas, mas não tem como substituir todas, pois o investimento é muito alto. Depois que a usina está construída, a energia é mais barata, mas a construção é cara. E não faz sentido substituir as hidrelétricas também, que são mais baratas em todos os sentidos”, avalia.

Em construção%2C a usina Angra 3 está prevista para ser entregue em 2018 e terá potência bruta de 1.405 MW%2C similar a Angra 2 (1.350MW)Divulgação

Para José Carlos de Miranda Farias, a energia eólica também deve ser mais explorada pelo país, embora seja menos eficiente que a nuclear, por depender dos ventos. “Hoje, essa é uma fonte que o Brasil desenvolve de maneira muito competitiva. Na semana passada, a geração eólica colocada no sistema já foi maior que a energia nuclear. Mas não é suficiente para desligar as termelétricas, pois depende da natureza”, explica o diretor de Estudos em Energia Elétrica da EPE.

Com relação aos riscos, Ubiratan Oliveira, físico nuclear e Professor de Engenharia do Ibmec/RJ, afirma que todo o ciclo das usinas nucleares é aprovado por um órgão internacional. “Há toda uma fiscalização, um cuidado com a segurança”, conta o especialista.

Em nota, a Eletronuclear informou que os rejeitos gerados são organizados em três classes, segundo o nível de radioatividade: baixo, médio e alto. Os primeiros, como papéis, plásticos, vestimentas e ferramentas são compactados antes de seu armazenamento inicial. Os de média radiação (filtros, resinas) são solidificados ou imobilizados em materiais, como concreto ou betume.“O combustível nuclear irradiado nas usinas se constitui na única fonte de material radioativo de alto nível. Porém, se pensado no ciclo completo do combustível, ainda existe a possibilidade de reprocessamento e reutilização do mesmo para gerar maiores quantidades de energia. Os rejeitos necessitam de resfriamento por, no mínimo, dez anos”, explica a empresa.


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