Por felipe.martins, felipe.martins
Rio -  A Petrobras voltou a decepcionar os acionistas nesta quarta-feira e encerrou o dia com as ações preferenciais (sem direito a voto) em queda de 11,21%, a R$ 9,03. Após dois adiamentos, a estatal finalmente divulgou o balanço do terceiro trimestre de 2014, mas não informou as perdas com as denúncias de corrupção. A falta de transparência repercutiu na depreciação dos papéis, que hoje valem tanto quanto dois quilos e meio de banana ou um quilo de carne de segunda. Trabalhadores que investiram parte dos recursos do FGTS em cotas da empresa estão receosos com o futuro da companhia, mas a orientação é não vender as ações por enquanto.
Até carnes de segunda%2C como pá%2C peito e acém%2C custavam o mesmo que os papéis da Petrobras. Já cortes como chã%2C patinho e lagarto estavam mais caros que as açõesAlexandre Brum / Agência O Dia

Dos 310 mil trabalhadores que investiram no fundo de privatização da Petrobras (FMP Petrobras), lançado em agosto de 2000, cerca de 65 mil ainda mantêm cotas, segundo o Instituto Fundo Devido ao Trabalhador.

Durante esses anos, o fundo chegou a render quase 1.500%, em 2008. Hoje, está em cerca de 176%, perda de 88% do ganho. Isso significa que um trabalhador que aplicou, por exemplo, R$ 1.000, chegou a ter R$ 16 mil em 2008 e agora tem R$2.760.

Apesar da desvalorização, os rendimentos ainda são maiores que os do Fundo de Garantia. Mário Avelino, presidente do instituto, explica que o FGTS rendeu 94,30% até o último dia 10. “Quem investiu na Petrobras ainda ganha em relação a quem deixou todo o dinheiro no fundo. Eles não tiveram perdas, só deixaram de ganhar em relação àqueles que venderam as cotas em um momento mais propício”, avalia o especialista.
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Segundo ele, não vale a pena vender as ações agora. “Se o trabalhador fizer isso, o dinheiro vai para o fundo até que seja retirado, e vai render menos. Só vale a pena sacar o valor se puder retirar e estiver precisando do dinheiro para comprar um imóvel, por exemplo”, explica Avelino.
A expectativa, de acordo com o presidente do Instituto Fundo Devido ao Trabalhador, é positiva para o futuro da empresa. “As ações estão no menor patamar, talvez, da história. Mas vão melhorar. A Petrobras é a companhia mais estratégica do país. Se quebrar, o Brasil vai à bancarrota. O efeito dominó é arrasador. O governo vai ter que interferir”, diz.
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Economista da Simplific Pavarini e professor de Economia do Ibmec-RJ, Alexandre Espírito Santo acredita ser necessária uma mudança na direção da estatal. “O mercado de capitais depende de credibilidade e confiança. É preciso fazer o que a presidenta Dilma fez com a economia, colocar um (Joaquim) Levy (ministro da Fazenda) na Petrobras. Acho que a Graça Foster é uma pessoa extremamente correta, não há indício de que ela esteja envolvida em corrupção, mas o mercado não crê mais nessa diretoria”, afirma.
Estatal teve queda de 22% nos lucros
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Principal índice da Bolsa de São Paulo, o Ibovespa fechou em queda de 1,85% a 47.694 pontos ontem, puxado pelas ações da Petrobras. Os papéis da estatal chegaram a perder quase 12% ao longo do dia e tiveram a maior baixa desde outubro, segundo a Economatica. A empresa perdeu R$ 13,9 bilhões em valor de mercado no dia, passando de R$ 128 bilhões para R$ 114 bilhões.
O relatório divulgado na madrugada de ontem pela estatal aponta para lucro líquido de R$ 3,087 bilhões no terceiro trimestre do ano passado. O valor representa uma queda de 38% em relação ao trimestre anterior em 2014.
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Já se comparado ao terceiro trimestre de 2013, quando o lucro havia sido de R$ 3,395 bilhões, o recuo foi de 9,9%. No acumulado de janeiro a setembro, o lucro ficou em R$13,439 bilhões, baixa de 22% frente ao mesmo período de 2013.
Em mensagem a acionistas e investidores, a presidenta da Petrobras, Maria das Graças Foster, reconhece a existência de atos ilícitos, mas afirma ser “impraticável a exata quantificação destes valores indevidamente reconhecidos, dado que os pagamentos foram efetuados por fornecedores externos e não podem ser rastreados nos registros contábeis da companhia”.
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O balanço não tem o aval da auditoria independente PwC, mas segundo a Petrobras serão avaliadas metodologias da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e da Securities and Exchange Comission (SEC, equivalente à CVM nos EUA), para adequar as contas.
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Processos no exterior
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Escritórios de advocacia do Brasil e dos Estados Unidos aguardaram ansiosos a divulgação dos resultados do balanço da empresa para incluir o documento nos processos contra a Petrobras. Os acionistas que entraram na Justiça alegam ter sido prejudicados pelas falhas na governança administrativa da estatal.
O advogado André de Almeida, sócio da Almeida Advogados — que atuou em parceria com a Wolf Popper na primeira ação coletiva (class action) nos Estados Unidos —, afirma que a falta de transparência gera insegurança em quem investiu recursos na empresa. “Na class action que os acionistas da Petrobras movem perante o Poder Judiciário dos EUA se discute que as perdas de valor das ações (ADRs) negociadas na bolsa de Nova York foram das duas uma: ou foram infladas a partir de resultados e projeções econômicas fictícias ou deterioradas a partir dos diversos atos de má governança corporativa da empresa”, argumentou o advogado.
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Ainda de acordo com Almeida, o fato de os próprios gestores da estatal não terem conhecimento do tamanho do rombo econômico que os negócios superfaturados causaram ou não saberem se existem outras perdas não relevadas “acaba por abalar ainda mais a já deteriorada imagem da mais admirada companhia nacional”.
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