Por bferreira

Rio - Em seu escritório no bairro de Bonsucesso, Aníbal Marques aponta para um pequeno quadro fixado na parede. Trata-se de uma certificação que o parabeniza pelos 58 anos à frente da empresa Zinque. “Isso foi há quatro anos. Hoje, já são 62 anos de atuação”, diz o empresário, um dos pioneiros no fornecimento para o setor naval no Rio. Sua fábrica, que funciona em Duque de Caxias, produz portas, janelas, escotilhões e outras peças para navios. Durante mais de meio século, Marques navegou por mercados calmos e turbulentos, mas não imaginou que, a essa altura da vida, teria que enfrentar uma tsunami nos negócios. Desde que a operação Lava Jato e a queda no preço do barril de petróleo atingiram o núcleo das empreiteiras, no final de 2014, o empresário viu a maior parte do planejamento feito para este ano derreter. Dois de seus principais contratos, que lhe renderiam R$ 16 milhões até a metade de 2016, foram suspensos. O primeiro foi com a Engevix, uma das empresas investigadas que teve negócios suspensos pela petrolífera. O segundo foi fechado com o Estaleiro Atlântico Sul. Os dois negócios representavam cerca de 60% do faturamento programado para 2015.

No setor de óleo e gás%2C Operação Lava Jato puniu grandes empresários%2C mas atingiu também os pequenos%2C responsáveis por 30% da economia do RioAlexandre Vieira / Agência O Dia

Em novembro, policiais federais mobilizaram um complexo esquema de prisões, buscas e apreensões nas principais empreiteiras do país. O ato foi visto como heróico. No dia 30 de dezembro, a Petrobras anunciou a suspensão de negócios com 23 empresas envolvidas no escândalo. Era o início de um efeito dominó que se espraiou para a rede de fornecedores das petrolíferas. A cadeia de bens e serviços enfrenta problemas como atraso de pagamentos, suspensão de contratos e o receio de não conseguir fechar novos negócios no curto prazo. A petrolífera já anunciou que irá desinvestir US$ 13,7 bilhões em 2015. Na analogia do secretário estadual de Desenvolvimento do Rio, Marco Antônio Capute, “a empresa é a baleia e os fornecedores são o cardume que vem atrás”.

O tamanho do efeito dominó que tomou conta do mercado de óleo e gás e da indústria naval é desconhecido. Mas, se tratando de um setor que representa 13% do Produto Interno Bruto (PIB), os efeitos são superlativos. O setor tem uma cadeia longa e pulverizada, tornando difícil a coleta de dados. Um estudo feito em 2010 a pedido da Organização Nacional da Indústria do Petróleo constatou que 85% das empresas ligadas a este segmento eram micro, pequenas ou médias. A Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan) trabalha em um estudo sobre os impactos da operação, ainda sem data para ser divulgado.

Alguns segmentos conseguiram se organizar e o raio-x do cenário pós-Lava Jato não foi nada bom. É o caso da indústria de máquinas pesadas, que fornece equipamentos para obras da petrolífera e para o setor naval. Segundo a Associação Brasileira da Indústria de Máquinas Pesadas (Abimaq), aproximadamente mil de suas associadas têm negócios com o sistema Petrobras. Destas, 400 têm seu faturamento fortemente atrelado ao setor de óleo e gás, sendo que a maioria atua como subfornecedora. A entidade contabilizou um calote de R$ 195 milhões em produtos que foram entregues e não pagos, além de R$ 95 milhões que estavam em processo de fabricação nas fábricas. “Essas empresas altamente centradas no petróleo estão demitindo e a operação teve como efeito colateral a estagnação dos projetos. Podemos afirmar hoje que boa parte dos nossos clientes estão presos. Imagine qual é o clima que se instaurou nos subfornecedores”, afirma Cesar Prata, presidente do Conselho de Óleo e Gás da Abimaq. A associação instituiu um comitê de crise para tentar mapear e discutir soluções para os danos que estão sendo provocados e estima que já houve pelo menos 13 mil demissões no segmento, desde novembro do ano passado. “Eu mesmo tenho uma empresa que fornece bombas para navios e vou ter que demitir funcionários”, diz Prata.

No caso de Aníbal, ele teve que desmobilizar 25 funcionários que foram contratados para atender aos contratos que foram suspensos. A Zinque emprega 50 pessoas, mas ele receia não ter fôlego suficiente para manter todos os postos de trabalho. “Nos sentimos fragilizados e abalados. Estou buscando alternativas, outras áreas de atuação, mas é muito difícil. Todos os setores já possuem seus apoios”, avalia. “A gente vive de forma decente, honesta. Nessas horas a gente se pergunta: de que valeu tanto trabalho?”, desabafa o empresário, ressaltando que os corruptos têm que ser punidos sem que suas empresas sejam comprometidas.

Produtora de válvulas e sistemas de controles para navios, a Technavy só não afundou com a Lava Jato porque procurou diversificar sua área de atuação. A empresa está trabalhando com embarcações no Norte e Nordeste do Brasil. Mesmo assim, sofre com os sucessivos calotes do setor naval, que somam cerca de R$ 500 mil. “Para uma empresa grande pode parecer pouco, mas nós, que temos uma estrutura enxuta, precisamos desse dinheiro”, afirma o diretor da empresa, Hernan Vázquez. Dentro de um envelope pardo, cada dia se acumula mais um protesto. Segundo Vázquez, o caixa da empresa está conseguindo bancar a mão de obra, mas as empresas terceirizadas que eram clientes foram cortadas. “A parte terceirizada sentiu. Havia uma usina que trabalhava com a gente há muito tempo e paramos os pedidos”, diz Vázquez. O empresário planejava expandir as empresas para ficar menos dependente de mão de obra de terceiros, mas o dinheiro reservado para isso está sendo usado para cobrir as despesas
correntes da empresa.

No setor de engenharia, também há indícios de retração. O problema não é somente a Lava Jato, mas também o momento delicado em que ela foi deflagrada: em meio a um período de estagnação econômica, com um forte ajuste fiscal em andamento. Um estudo feito pelo Sindicato da Arquitetura e da Engenharia Consultiva (Sinaenco) em fevereiro constatou que, em 2014, o setor teve uma queda de 10% nas admissões, enquanto as demissões aumentaram 1,77%. Para 2015, o prognóstico é desanimador. “Não há perspectivas de melhora a curto prazo. Grande parte das empresas estão sendo chamadas a readequar as projeções financeiras do andamento dos contratos para um patamar inferior, o que significa dispensa de funcionários e redução de custos”, afirma João Alberto Viol, vice-presidente do sindicato. Ele diz que atrasos em pagamentos têm provocado um estrangulamento no caixa das empresas e o acesso ao crédito está escasso. 

A bola de neve que se formou a partir do escândalo chegou até mesmo ao mercado informal. A cozinheira Leandra Soares atua fazendo quentinhas para os operários do Comperj. Nos tempos das vacas gordas, chegava a vender 500 por dia. Hoje, a média é de sete refeições.

Participaram desta reportagem Caio Barbosa, João Antônio Barros, Leandro Resende, Luísa Brasil e Nonato Viegas

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