Por karilayn.areias
Publicado 21/03/2015 23:38 | Atualizado 21/03/2015 23:39


Rio - Junto com incenso e mirra, o ouro foi um dos presentes dados pelos três Reis Magos para o menino Jesus logo após seu nascimento. E não foi um acaso. O metal precioso é usado desde as civilizações mais antigas como reserva de valor, o que já deu origem a diversas histórias sobre tesouros perdidos e piratas. Lendas à parte, fato é que em tempos de crise política e econômica, o ouro é visto como forma de resguardar os recursos financeiros. A procura pelo metal aumentou durante as guerras mundiais, a Grande Depressão de 1929, a recessão de 2008 e a tendência que está se confirmando é que o mesmo aconteça agora, em função das incertezas tanto no cenário local, quanto mundial. Nos últimos dez anos, o ativo teve valorização de 265% na Bolsa de São Paulo, e especialistas afirmam que com o aumento da demanda, a tendência é que o preço suba mais.

Analista da consultoria Empiricus, Felipe Miranda acredita que o mundo sofrerá em breve um colapso financeiro pior que o de 2008. “O excesso de intervencionismo dos bancos centrais e dos governos em geral levou a uma grande armadilha. Os mercados estão sendo alimentados diariamente pela ração dos bancos centrais e isso vai gerar uma bolha ainda maior que a de sete anos atrás”, explica Miranda.

Além disso, ele cita as crises na Europa e a desaceleração de países emergentes como Japão e China, que vinham apresentando bons níveis de crescimento. Segundo o analista, com a dependência do Brasil dos mercados externos, a tendência é que isso gere problemas como desvalorização do real, queda das ações de empresas brasileiras, aumento do desemprego e diminuição nos salários, com piora na distribuição de renda e programas sociais em risco. Para se proteger contra este cenário, Miranda acredita que o ouro deve fazer parte do portfólio de investimentos. “Tradicionalmente, o metal está associado a reserva de valor e a um porto de seguro”, justifica o analista.

Professor de Economia e Finanças da Fundação Getulio Vargas (FGV), Mauro Rochlin tem uma visão diferente da situação econômica. Segundo ele, o país tem condições de sobreviver novamente a uma possível recessão mundial, caso ela aconteça. “A crise de 2008 foi realmente uma marolinha para o Brasil. O governo conseguiu naquele momento fazer com que o emprego não fosse muito afetado. De fato, em economia não existe situação ruim que não possa ficar pior. Mas, sem descartar o cenário ruim, acho que se o governo conseguir fazer o ajuste fiscal e mostrar para a iniciativa privada que o modelo econômico anterior ficou para trás, ano que vem temos chance de pensar em um outro clima para o Brasil. Se o governo fizer o dever de casa, podemos ter um quadro diferente. O bom seria que as empresas continuassem investindo, mas uma série de condições são necessárias para que isso aconteça”, explica o economista.

Segundo ele, no entanto, o país também vive momentos de incerteza. “Estamos na iminência de perder grau de investimento, o que seria um problema. Se isso acontecer, para voltar a ganhar é difícil. Em momentos assim, as pessoas procuram investimentos seguros, e o ouro pode fazer parte da carteira de ativos”, avalia Rochlin.

Para o professor de Finanças do Ibmec, José Kobori, historicamente as pessoas acabam recorrendo ao metal, em função de uma desconfiança com relação aos outros artigos financeiros. “Em momentos de guerra todo mundo quer ouro. Na crise de 2008, esse metal foi muito procurado. É uma alternativa entre o dólar e o colchão, para fazer uma analogia. Mas não considero que seja um investimento, é mais um recurso para deixar o dinheiro guardado”, afirma o especialista. Segundo ele, por enquanto o valor desse ativo está subindo, em função do aumento na demanda, mas não há como prever o que acontecerá a longo prazo.

Alta em tempos de crise

Para se ter uma ideia, no último dia útil de 2005, o ouro estava cotado na Bovespa a R$ 39,90. Já no mesmo momento de 2008, no auge da crise, o ativo subiu para R$ 67,70, uma alta de quase 70%. O preço do metal oscilou desde então e voltou a subir a partir do ano passado. Em julho de 2014, por exemplo, valia R$ 93,50. Passou para R$ 103,90 em dezembro e a última cotação, na sexta-feira passada, foi de R$ 120,90. Nesses últimos oito meses, a variação foi de quase 30%.

No Brasil, é possível comprar ouro por meio da Bolsa de Valores ou até mesmo de instituições financeiras. No caso da Bovespa, a negociação mínima é de um contrato, que pode ser o lote-padrão de 250 gramas, ou os contratos fracionários de 10 gramas e de 0,225 gramas, que têm preços mais acessíveis, mas têm menor liquidez. Os interessados devem procurar uma corretora cadastrada, que irá fazer a transação. Também é possível comprar ouro pelo mercado de balcão, no qual a mercadoria é entregue fisicamente e é vendida por fundidoras credenciadas pelo Banco Central.

Apesar de reconhecerem as vantagens do ouro como reserva financeira, especialistas recomendam que as pessoas diversifiquem seus investimentos. Para Felipe Miranda, analista da Empiricus, o ideal é que 90% dos recursos sejam colocados em aplicações muito seguras, como títulos do Tesouro e o próprio ouro, e os outros 10% em investimentos mais arriscados como ações.. “Não aconselho investir na poupança, que atualmente tem rendimento abaixo da inflação”, alerta o consultor.

Para José Kobori, nunca é recomendável apostar todo o montante de recursos em um só ativo, independentemente de qual seja. “Se o dólar continuar se valorizando, a tendência é que as pessoas saiam do ouro e migrem para bolsa dos Estados Unidos. No Brasil, recomendaria investir no Tesouro Nacional, que tem rendimentos maiores e é uma aplicação extremamente segura”, diz o professor de Finanças.

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