Novo nicho de mercado é criado para casais que não querem ter filhos cedo

Em busca de liberdade e com grande poder de consumo, tendência dos 'dinks' é pensar em crianças só mais tarde

Por O Dia

Rio - Os olhos da engenheira Renata Knupp Galindo, de 34 anos, nunca brilharam ao pensar em ter filhos. Casada com o advogado Carlos Eduardo Recarey Veiga, 45, ela percebeu que a liberdade a faria mais feliz do que a maternidade.

“Hoje não existe mais essa ideia de que para ser feliz é preciso ter filhos. A gente não se imagina com uma criança. Mudaria toda a rotina”, conta Renata.

Com vida social agitada e viagens anuais para o exterior, ela e Carlos Eduardo fazem parte de um novo nicho de mercado, os “dinks”.

A engenheira Renata Knupp Galindo e o advogado Carlos Eduardo Recarey Veiga fazem pelo menos uma viagem internacional por ano%2C como essa%2C para Nova Yorkarquivo pessoal

Do inglês “double income, no kids” — ou dupla renda, sem filhos — a sigla representa os casais que moram juntos, trabalham, mas não desejam ser pais. Com mais tempo disponível e menos despesas, essas pessoas têm perfis de consumo diferenciados e contam com cada vez mais produtos e serviços exclusivos para elas.

Coordenador do MBA de Estratégias em Ciências do Consumo da ESPM/RJ, Eduardo França afirma que esse grupo faz parte dos novos arranjos familiares, como casais homoafetivos e até mesmo amigos que moram juntos, e representam mudanças comportamentais de consumo: “Esse é um perfil de público que preza muito pela conveniência e ao mesmo tempo é exigente. As empresas começam a olhar com atenção para isso, pois se não se adaptarem, acabam perdendo participação de mercado.”

Renata e Carlos Eduardo, por exemplo, viajam com frequência e percebem que já existe um mercado de turismo pensado para quem não tem filhos. “Há hotéis hoje com alas diferenciadas para famílias e casais, em que crianças não são permitidas”, conta a engenheira.

Além disso, algumas agências de viagens oferecem pacotes específicos para estes casais com jantares românticos, passeios a cavalo e garrafas de vinho ou champanhe. No Hotel Urbano, por exemplo, o pacote de quatro dias em Gramado (RS) inclui fondue e espumante, por R$2.758, o casal, com aéreo (preço apurado na quinta-feira). O Groupon Viagens oferece caipirinhas no pacote de dois dias em Paraty para um casal (R$ 498). As vantagens só valem para a baixa temporada, o que não é problema para quem não depende do calendário escolar.

Outro segmento que já está de olho neste nicho é o de alimentação. “A indústria de produtos alimentícios tem criado embalagens diferenciadas, menores. Também existem redes em São Paulo que vendem os ingredientes prontos para serem cozidos. Por exemplo, se o casal quer comer um estrogonofe, pode comprar a carne já cortada, basta preparar. Algumas redes varejistas também estão criando lojas de bairro, focadas no público que faz compras pequenas”, explica Eduardo França, da ESPM.

Número de casais sem filhos cresceu no país

Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) de 2014, divulgada pelo IBGE, houve redução de 13,7% na proporção dos casais com filhos entre 2004 e 2013, enquanto a proporção de casais sem filhos cresceu 33%. Além disso, em 2003 a participação de casais “dink” (em que ambos têm rendimentos) no total de casais sem filhos era de 19,9%. O Sudeste apresentou a maior proporção (23,2%) e, o Norte, a menor (12%).

Pesquisa “Hábitos de consumo dos casais dink”, publicada pela ESPM em 2012, mostra que esse grupo de pessoas costuma comer fora com mais frequência. Do total de casais que participaram do estudo, 55% almoçam e 25% jantam fora mais de uma vez por semana. As atividades de lazer também são mais frequentes: 53% vão ao cinema regularmente e 21% frequentam teatro.

O interesse por produtos culturais, além de atividades físicas, também é comum a esses casais. De acordo com o estudo, eles leem mais de um livro por mês e 97% consideram a música uma atividade cotidiana. Já 83% caminham regularmente.

Comida, diversão e arte

De lua de mel no Rio de Janeiro, o casal de publicitários baianos Aiala Martins, 24 anos, e Cleidson Moreira, 28, não pensa em ter filhos tão cedo. “

Queremos aproveitar o casamento primeiro, ter disponibilidade para viajar. Pretendemos fazer um mochilão pela Europa e visitar lugares como Machu Picchu, no Peru. Isso seria impossível com crianças”, conta Cleidson.

Aiala e Cleidson sonham em viajar pelo mundo Carlo Wrede / Agência O Dia

Os dois costumam fazer refeições fora de casa com frequência, em função da praticidade. Além disso, não economizam nos gastos pessoais. “Eu compro muita maquiagem. Se tivesse filhos com certeza isso teria que mudar. Acho até que deixaria de me maquiar”, brinca Aiala.

A estudante Priscila Gomes, 26, concorda. Ela namora Edgar Miyahira, 28, e descarta a ideia de ter filhos por enquanto.

“Talvez tenha um dia. Mas é preciso planejar bem. Sobra mais dinheiro quando a gente não tem crianças, fica mais fácil ir a restaurantes, sair à noite. Eu gasto muito com roupas, produtos para o cabelo. Com filhos teria que cortar tudo isso”, avalia Priscila.

Para Eduardo França, os casais “dinks” têm uma necessidade maior de aproveitar a vida. “São pessoas que têm uma vida social mais agitada. E o entretenimento passa a ter uma importância grande. Isso inclui moda, turismo, esporte, cultura”, diz.

Mercado imobiliário

Até mesmo o mercado imobiliário tem se adaptado para atender a esse novo modelo de família. Sócio da Sawala Imobiliária, Edson Pires conta que tem crescido a demanda por apartamentos de sala e quarto. “Geralmente a procura é por parte de casais sem filhos, que buscam principalmente facilidades e serviços. A localização geralmente é o mais importante, precisa ser perto do comércio. Mas eles também buscam diferenciais, como lavanderia”, diz.

De acordo com Eduardo França, outro fator que chama a atenção desses casais são as áreas de convivência dos condomínios, como cozinhas gourmet, spa e academia. “Eles normalmente optam por apartamentos menores, mais compactos, porém com certas facilidades”, explica.

No entanto, quem tem uma condição financeira melhor opta por imóveis maiores, mesmo sem filhos. “Já temos um imóvel próprio de um quarto, mas a gente acaba sentindo necessidade de mais espaço para receber os amigos. Por isso queremos nos mudar para um apartamento com dois quartos. Assim podemos transformar um em escritório, com um sofá-cama para os hóspedes”, conta Carlos Eduardo Veiga.

É o mesmo caso de Aiala e Cleidson, que já alugam um apartamento com dois quartos. “Em Salvador, custa o mesmo de um quarto. Então valeu a pena, pois transformamos em escritório”, diz Cleidson.

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