Por bferreira

Rio - Participei no último domingo de reportagem sobre mães que largaram a carreira profissional para cuidar dos filhos pequenos e da casa. Não se trata de postura machista ou defender que o papel da mulher é ser “profissional do lar”. A questão é econômica, racional e a decisão foi tomada conscientemente pelas próprias mães.

Hoje, no Rio, uma creche particular em tempo integral sai por cerca de R$ 1.600. Uma empregada doméstica com encargos custa aproximadamente R$ 1.200, enquanto o transporte escolar sai por R$ 400. Ou seja, o total alcança R$ 3.200.

Para trabalhar em período integral, uma mãe vai desembolsar esse valor, mas para empatar o jogo, precisaria ter salário bruto de R$ 4.500. No caso de uma entrevistada, se ela ganhar R$ 5 mil brutos por mês, após pagar as despesas, vão sobrar somente R$ 500. Se o casal tiver mais de um filho pode-se somar mais R$ 2 mil para cada filho adicional, o que torna a exigência de um salário bruto maior.

Nesse contexto, obviamente tem que ser discutido o papel e a contribuição de cada membro da relação. No entanto, o fato real é que cada vez aumenta mais o número de mulheres que optam por interromper suas carreiras para se dedicarem à casa e aos filhos. Na decisão, além do apelo natural à convivência com a criançada, pesa decisivamente o custo cada vez maior da infraestrutura para sair de casa e trabalhar.

Se muita gente fizer as contas, vai chegar à conclusão que está pagando para trabalhar, porque o salário líquido recebido não é suficiente para custear todas as despesas com creche, empregada, transporte e etc. Alternativamente, muitas mães que abandonaram seus empregos estão desenvolvendo novas formas de trabalho remunerado doméstico, que podem ser conciliados com as prendas da casa e os filhos. Com a tecnologia, muitos serviços podem ser feitos pelo computador sem precisar botar o pé fora de casa.

Nos últimos anos um dos símbolos do feminismo foi a conquista do mercado de trabalho pela mulher. Atualmente, o alto custo dos serviços na economia está forçando uma revisão desse conceito, na medida em que a remuneração pelo trabalho externo não tem assegurado a independência financeira. 

Gilberto Braga é professor de Finanças do Ibmec e da Fundação Dom Cabral

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