Por bferreira
Publicado 13/01/2016 00:25 | Atualizado 13/01/2016 00:29

Rio - Reutilizar materiais dá lucro! Empreendedores do mundo da moda investem no Upcycling, tendência desse mercado que usa sobra de tecidos de fábricas em novas criações. Além de reduzir parte dos custos dos estilistas, a reutilização de materiais ‘ganha pontos’ com a sustentabilidade e ainda garante a produção de peças exclusivas.

Reúso de retalhos gera lucroDivulgação

Com pedaço de pano ou sobra de tecido de estofaria doados pela indústria têxtil, por exemplo, os criadores têm de produzir algo totalmente novo. Não há escolha de cor nem tamanho. Os estilistas têm que inovar a partir do que foi fornecido.

No Upcycling, materiais que seriam jogados fora acabam transformados, por exemplo, em bolsas customizadas ou roupas totalmente exclusivas. A ideia é dar uma cara nova a um mesmo produto. Mais do que uma reciclagem, a ‘técnica’ significa modificar o status de algo que acabaria no lixo. O material a ser reaproveitado não precisa ser desfeito para renascer.

No cenário carioca, marcas como a Re-Roupa e a Acorda mostram que a técnica vale a pena, lançando produtos exclusivos e disputados por clientes. A Ttrappo e a MIG Jeans também se firmam no mercado, apresentando nova forma de consumo consciente na moda.

A modalidade ganha espaço entre estilistas que aproveitam para denunciar problemas relacionados à produção em larga escala, como má remuneração de profissionais.

Reutilização de material ganha cada vez mais espaço

Um dos maiores nomes do Upcycling no Brasil, a estilista Gabriela Mazepa, 33 anos, dona da Re-Roupa, vem abrindo frentes para esse processo de criação. Formada em Arte Têxtil na França, ela participa e divulga iniciativas para consumo consciente. Vencedora do British Council Fashion Awards (organização para incentivar a valorização do design de moda britânico internacionalmente), em 2009, chegou a trabalhar com o Upcycling para uma fábrica do Sri Lanka.

Apesar das oportunidades fora do país, sua ideia era divulgar e fazer crescer o conceito do Upcycling aqui. Em 2013, lançou sua marca brasileira e, agora, também dá aulas sobre o tema no Instituto Europeu de Design (IED), em parceria com a Farm. A loja carioca fornece sobras de tecidos com defeito e Gabriela ensina aos alunos a transformá-las em charmosas criações.

A ideia tem dado tão certo que, ainda este ano, Gabriela vai lançar uma coleção UpCycling na Farm. A novidade anima ainda mais quem pretende investir nesse modelo de negócio.

“O Brasil é o sexto produtor têxtil do mundo. Temos muita matéria prima. E boa parte disso é sobra. Transformar resíduos em algo novo é o conceito do Upcycling”, disse ela, destacando a valorização do trabalho artesanal nesse modelo de trabalho.

Gabriela conta com três costureiras em seu ateliê. Quando tem produções maiores, chama mais profissionais. Ela expõe suas roupas em feiras como O Cluster e a Junta Loca e também vende em lojas físicas, como a Mutações, no Humaitá.

Donas da Acorda, que faz bolsas, carteiras e pochetes com tecidos de estofaria, Michelle Andrade, 33, e Luana Maria, 34, comemoram o sucesso da marca, lançada há pouco mais de um ano.

“Era um sonho trabalhar com o Upcycling e uma fábrica passou a doar para a gente o material. Hoje, a marca já se sustenta sozinha”, contou Michelle, que está fazendo parcerias fora do Estado do Rio. Os preços das peças vão de R$ 65 a R$ 200.

A experiência de Luana com o Carnaval, que costuma reutilizar materiais, ajudou ainda neste trabalho. Para as duas, o mercado cresce por dois motivos: o consumo consciente e a busca pela exclusividade. Michelle ainda dá dicas para quem quiser investir nesse ramo: “A doação de materiais desonera. Mas tem que ter capital inicial. Temos duas costureiras, e o trabalho artesanal é valorizado. Às vezes, a produção aumenta e contratamos mais”, diz.

Marcas cariocas ditam tendência

As marcas Ttrappo e MIG Jeans, no Rio, também mostram que o Upcycling é a tendência da moda. Em São Paulo, o conceito vem assegurando espaço e destaque entre empreendedores e clientes. Mesmo que os estilistas utilizem sobras de tecidos e tenham que criar com diferentes estampas e cores, eles mostram que não falta imaginação.

Com produtos totalmente diferentes uns dos outros, eles conseguem criar uma única coleção, imprimindo ainda identidade visual à cada marca. 

Quem conhece o trabalho da Ttrappo, por exemplo, identificaria com facilidade suas peças. A marca reúne trabalhos de diferentes origens étnicas e sociais, aproveitando tecidos e roupas de qualidade garimpadas em brechós.

Quem tiver interesse em conhecer os produtos pode conferí-los no bloghttp://blogttrappo.tumblr.comblogttrappo.tumblr.com.

Como próprio nome já diz, a MIG Jeans transforma jeans em desuso em novas peças. Os estilistas investem em customizações para dar uma nova cara ao material. As técnicas usadas são as de lavagens, tingimentos e transformações com o reaproveitamento de jeans e tecidos em geral. As vendas são feitas em feiras itinerantes e pelo site www.migjeans.com.br.

Eles têm ainda campanha de doação em troca de desconto em peças das coleções.

Aula a partir do dia 19

Quem tiver interesse em obter informações e investir em Upcycling deve ficar atento às iniciativas em torno do tema. As aulas no IED começam no dia 19.

Ainda estão abertas as inscrições para o curso (pago) de 4 semanas. Mais informações podem ser passadas pelo telefone (21) 3683-3786 ou na secretaria do instituto, na Avenida João Luiz Alves 13, Urca.
Já o movimento Roupa Livre conecta pessoas e iniciativas para o consumo consciente de roupas, por meio de oficinas e bazares de trocas de roupas.

O Banco de Tecido, em São Paulo, possibilita o depósito de peças com defeito ou panos em troca de um outro. No ‘banco’, é possível ainda comprar com preços mais acessíveis.

Embaixadora do Fashion Revolution no Brasil (movimento criado em Londres que promove reflexão sobre o real custo da moda), Gabriela defende que iniciativas rendem economia e têm um viés militante.

“O mercado da moda vem repensando sua cadeia produtiva, em meio à desvalorização de profissionais”.

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