Por juliana.stefanelli
Publicado 29/05/2013 16:51 | Atualizado 29/05/2013 16:59

Nova York (Estados Unidos) -  Durante mais de 30 anos, o padre americano Bruce Teague suportou o peso de um segredo nunca revelado: o de que, aos nove anos de idade, quando era coroinha, foi abusado sexualmente por um padre de sua paróquia, no Estado de Massachusetts. Hoje, aos 65 anos, Teague usa sua experiência para ajudar outros sobreviventes desse tipo de crime.

Padre Thomas Doyle, integrante do grupo "Catholic Whistleblowers"Reprodução Internet

Ele é um dos membros de um recém-criado grupo de padres e freiras dos EUA que se uniram para denunciar os abusos que continuam ocorrendo dentro da Igreja Católica e incentivar que vítimas e testemunhas rompam o isolamento e venham a público relatar novos casos.

Batizado de Catholic Whistleblowers ("denunciantes católicos", em tradução livre), o grupo surgiu informalmente no ano passado e tornou sua campanha pública neste mês, em uma entrevista coletiva em Nova York.

"Muitos de nós relatamos casos de abuso sexual para autoridades civis ou da Igreja, e todos nós lutamos para expor o acobertamento dos abusos por parte da liderança da Igreja. Nós sabemos como é difícil falar sobre essa questão e nos apoiamos uns aos outros nesse esforço", diz o site do grupo.

No mês passado, enviaram uma carta ao papa Francisco com seis recomendações para "restaurar a confiança dos fiéis", entre elas "tolerância zero" para membros do clero que tenham cometido abusos sexuais; a criação de um grupo internacional de sobreviventes de abuso e profissionais laicos e religiosos, que facilite o diálogo entre a igreja e as vítimas, e a divulgação pública de todos os documentos relacionados ao problema.

Pedem também que líderes da Igreja sejam obrigados a fornecer explicações públicas sobre qualquer caso de abuso sexual e que aqueles que facilitem abusos ou tentem obstruir investigações sejam afastados.

Padre americano Bruce Teague, incentiva vítimas de abuso a denunciar os casosReprodução Internet

O caso de Teague, ocorrido nos anos 1950, é semelhante ao de milhares de outros relatados por vítimas de abuso sexual cometido na Igreja Católica americana. Os abusos ocorriam na sacristia e se prolongaram por cerca de seis meses, até que o pai de um dos coroinhas denunciou o padre, que foi afastado da paróquia.

"A Igreja continua protegendo os que cometem abusos", disse à BBC Brasil o padre Thomas Doyle, que há mais de 30 anos tem sido um dos mais vocais membros do clero americano contra abusos na Igreja e também integra os Catholic Whistleblowers.

Padre Kenneth Lasch se dedica a ajudar vítimas de abuso sexual pelo cleroReprodução Internet

"Se um padre ou uma freira vier a público denunciar abusos e seu superior não concordar, o delator corre o risco de ser suspenso, de perder benefícios, salário, de nunca mais conseguir atuar em nenhuma paróquia", diz Doyle.

"Sei disso porque aconteceu comigo. No início, perdi meu emprego na Embaixada do Vaticano (em Washington). Ao longo dos anos, me envolvi mais e mais nas denúncias e no apoio às vítimas. Como resultado, sou uma ovelha negra na Igreja Católica. Legalmente, ainda sou padre, mas nenhum bispo vai me deixar trabalhar", relata.

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