Por nara.boechat

Rio - Problema décadas atrás só detectado em adultos, a depressão está cada vez mais presente nas crianças e adolescentes. Tristeza, cansaço, isolamento social e insônia são alguns dos sintomas. Com isso, medicamentos, como calmantes e sedativos, têm sido utilizados pela juventude tanto para o tratamento de transtornos depressivos quanto para os casos de ansiedade. Mas a administração inadequada dos remédios pode resultar em sérios problemas mentais e de saúde.

Levantamento da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) alerta para esse perigo. Apesar de uso controlado, os antidepressivos estão entre os medicamentos mais consumidos no Brasil. A venda do Rivotril, por exemplo, saltou de 29,46 mil caixas em 2007 para 10,59 milhões em 2010, quando os brasileiros gastaram pelo menos R$ 92 milhões com o medicamento.

A psicoterapia é o tratamento mais indicado para as crianças%2C antes de recorrer aos medicaentos antidepressivosDivulgação

Especialista em psiquiatria infanto-juvenil da Santa Casa de Misericórdia, Fábio Barbirato afirma que o número de jovens depressivos aumentou nos últimos 20 anos e com eles o de usuários de psicotrópicos. “Depressão sempre existiu. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), existem 17% de pessoas de 6 a 16 anos desde 1996 com o problema. Ou seja, não é algo novo. Apenas é uma informação mais divulgada atualmente. E os profissionais estão mais bem treinados para o diagnóstico”, explicou.

Contudo, diz que o uso desses remédios sem controle pode causar danos à mente e à saúde. Ele alerta que muitas crianças e adolescentes estão usando esses remédios de forma errada. “As pessoas estão sendo medicadas por profissionais que não são especializados. A recomendação é que procurem psiquiatras”, diz.

Com ansiedade hereditária, o estudante Allan Lourenço, 25, usa calmante e antidepressivo há seis anos e faz questão de dizer que não sente vergonha de contar seus problemas com psicotrópicos. “Doença psiquiátrica é igual a qualquer outra. Não tenho por que me envergonhar. É fisiológico, não é uma escolha”, ressaltou. “Por causa do medicamento, eu virei maníaco-depressivo. Oscilo da tristeza para a euforia. Já tentei parar de tomar, mas fico confuso e agressivo”, disse.

Acompanhamento médico é fundamental na terapia

A jornalista Larissa Moggi, 22, também faz uso de ansiolítico e antidepressivo há um ano. Ela começou a ser avaliada por clínico geral. “Fui ao médico por causa de uma gastrite e ele acabou diagnosticando que eu estava depressiva”, explicou. Ela afirma que ficou feliz quando foi diagnosticada. “Fiquei contente, não por estar depressiva, mas por conseguir saber o motivo daquela coisa horrível que eu sentia”, contou.

Larissa lembra que, desde que foi medicada, as crises depressivas não voltaram. “Mas isso não quer dizer que eu me curei. Tenho que fazer o meu corpo produzir as substâncias que o remédio está me dando. Por isso, faço terapia toda semana e uma vez por mês vou ao psiquiatra”.

A estudante Danielle Lima, 27, usa medicamentos para hiperatividade desde os 5 anos. “Quando não tomo calmante, fico pior ainda. Esses remédios são meus grandes amigos. Eles reforçam a minha concentração. Depois de ter ido a psicóloga, ela me encaminhou para o psiquiatra, que me receitou esses remédios”, contou.

Medicamentos vetados para crianças

De acordo com Barbirato, cerca de 10 % da população infanto-juvenil sofre de depressão e ansiedade. Mas ele alerta para o uso de calmantes e antidepressivos. “É terminantemente proibido o uso de benzodiazepínicos (Rivotril e Frontal) em crianças e adolescentes. Apenas em casos severos e depois de ter tentado outras medicações. O Rivotril é contra-indicado e prejudica a memória e atenção, além de viciar. Inclusive a Paroxetina é proibida em adolescentes de 10 a 16 anos. Se for usada em crianças, aumenta em quatro vezes o risco de suicídio. Até os 9 anos, deve ser feita a psicoterapia (processo dialético) como forma de tratamento antes de recorrer a estes remédios”, ressaltou.

Segundo Barbirato, os calmantes podem causar dependência, agitação e agressividade nos jovens. Com relação aos antidepressivos pode ocorrer tentativa de suicídio e piora da ansiedade. Ele ressalta que estes medicamentos devem ser receitados por psiquiatras titulados em Psiquiatria da Infância pela Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP).

“Não por neurologistas, psiquiatras de adultos ou qualquer outro médico sem este título”, afirmou. Todos esses remédios antidepressivos são conhecidos como ‘tarja preta’, que só podem ser comprados em farmácias registradas e autorizadas pela Anvisa.

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