Por bferreira

Rio - No espelho, a imagem não agrada e o desejo é de uma silhueta menor. No dia a dia, não fazer todas as refeições é um hábito. O comportamento não é isolado, mas sim parte da vida de muitos adolescentes. Pesquisa da UFRJ com 1.019 pessoas revelou que 75% estavam insatisfeitas com o próprio corpo e 54% ‘pulavam’ café, almoço ou jantar. A prática pode indicar uma tentativa errada de perda de peso, com sérios danos à saúde.

Uma das responsáveis pelo levantamento, Gloria Valeria da Veiga, do Instituto de Nutrição Josué de Castro, da UFRJ, ressalta que a insatisfação corporal e o desejo de uma silhueta menor foram mais frequentes entre adolescentes com padrão errado de alimentação (omissão de refeição).

“Pular refeição causa ganho de peso. Ainda não sabemos se as pessoas estão acima do peso porque pulam refeição ou se deixam de comer porque estão gordinhas. É possível que seja a segunda opção”, explica, acrescentando que a próxima etapa do estudo vai procurar esta resposta.

Os estudantes receberam dois quadros, com o desenho de nove bonecos cada, em ordem crescente de peso (de extrema magreza a obesidade). Primeiro, eles deveriam marcar a figura com a qual se identificavam para, depois, selecionar a silhueta desejada. A insatisfação com a imagem ocorre quando as duas opções não coincidem.

Sobre os hábitos alimentares, de acordo com a nutricionista, o café da manhã figura entre as refeições mais suspensas, porque, durante a manhã, o adolescente sente mais sono e prefere dormir a comer. O problema é que a refeição acaba sendo substituída pelos itens nada saudáveis da cantina escolar. Já no lugar do jantar entram lanches que não têm o mesmo valor nutricional, como hambúrgueres e alimentos industrializados. A pesquisa integra o ‘Estudo Longitudinal de Avaliação Nutricional de Adolescentes’ (Elana), desenvolvido desde 2010 pela UFRJ e Uerj.

PREJUÍZOS À SAÚDE

Além de não garantir a perda de peso, ficar sem comer gera dor de cabeça, tontura, hipoglicemia, desmaio, queda da pressão e perda da capacidade intelectual, alerta Mauro Fisberg, do Departamento de Pediatria da Unifesp. Segundo o especialista, a prática libera hormônios que aumentam o estresse e, a longo prazo, altera as funções celulares. “Ficar sem comer não queima gordura, mas sim proteínas, que formam os músculos. Além disso, a pessoa que pula refeição vai querer compensar na próxima, comendo mais”.

Desde os 13 anos, Anna Clara Figueira, 18, se considera acima do peso. Ao iniciar o vestibular, este ano, aderiu a dieta radical. “Todos falam que engordam no vestibular. Eu já me achava gorda e não quis ficar pior”. Os 10quilos a menos em três meses chamaram atenção dos pais, que resolveram interferir na alimentação da filha. “Hoje, faço dieta prescrita por nutricionista e como a cada três horas. No início, meu estômago não aguentava toda comida”. Ela conta ainda que, em 2010, ingeriu 12 comprimidos de laxante em um dia e precisou ser internada.

Desejo obsessivo de emagrecer é doença

O desejo obsessivo pela perda de peso sem necessidade pode ser sinal do mais famoso transtorno alimentar: anorexia. Os principais sintomas são distorção da imagem corporal (se sentir mais gordo), dieta rigorosa e supressão da menstruação. No caso da bulimia há o medo de engordar e excessos na alimentação, que são compensados com métodos purgativos.

“A adolescência é uma época de mudanças físicas e o padrão ocidental de beleza é ser magro. Isso contribui para os transtornos”, diz Natália Soledade, do Instituto de Psiquiatria da USP. “O remédio para anorexia é comer e trabalhamos a imagem corporal com terapia”, explica.

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