Por thiago.antunes

Rio - As mãos conduzem o minucioso trabalho que os olhos não veem. Cega, dona Maria Inez Barbosa Kornaesnski, 80 anos, modela a lycra que vai se transformar em pequenas flores e compor colares. O ócio cedeu lugar a atividades artesanais, o que provou que o remédio para depressão pode ser, muitas vezes, exercitar a mente. Ela é uma das alunas do projeto que une saúde e profissionalização nas Clínicas da Família do Município do Rio. De paciente passou a ex, e descobriu que lugar de tratamento médico também pode gerar renda.

“Não enxergo nada. Mas os colares são fáceis. Já me disseram que eu posso até vender, porque eles são bonitos”, contou dona Maria Inez. O espaço de consultas médicas virou uma releitura dos centros comunitários, tradicionais em bairros do subúrbio na década de 80. Lá, é possível, além de ser atendido, fazer cursos de artesanato e dança, como também atividades de academia.

Maria do Carmo Ferreira%2C 62 anos%2C faz costura e dança no grupo da Terceira Idade da Clínica de Saúde da Família na Gardênia%2C em JacarepaguáCarlo Wrede / Agência O Dia

“O paciente, que vinha aqui só para receber remédio, descobriu que pode curar algumas das suas doenças apenas tornando sua vida mais sociável. É impressionante como algumas pessoas mudam apenas por fazer parte de uma turma que se encontra para bordar”, conta Sueli Gonçalves, terapeuta ocupacional que atua em oito Clínicas da Família.

Um dos ‘atrativos’ das unidades de saúde é a academia. Dados recentes mostram que 97% dos alunos tiveram redução das crises de hipertensão, 91% da glicemia, e 95% perderam peso. Com o hábito saudável, 8,6% deixaram de tomar medicamentos, e 89% diminuíram a dosagem “A gente percebe que eles transformaram a clínica num ponto de encontro. Tem paciente que vivia sozinho e acabou criando laços de amizade por aqui”, conta a educadora física Agata Reis.

Foi justamente o que aconteceu com a aposentada Maria do Carmo Ferreira, 62 anos. As idas à unidades de saúde acabaram sendo o trampolim para ela realizar um sonho de infância: dançar. “Esperei uma vida para ter essa oportunidade. Minha mãe nunca deixou. Depois, fiquei adulta Precisei passar dos 60 anos para chegar num palco e dançar”, contou ela, que é uma das atendidas na Clínica da Família na Gardênia, Jacarepaguá, e dança no grupo da Terceira Idade.

Maria Inez%2C 80 anos%2C é cega e faz artesanato na Clínica da FamíliaCarlo Wrede / Agência O Dia

2,5 milhões de cariocas assistidos

Atualmente, o município tem 41% de cobertura pelo programa Saúde da Família. Esse número representa 2,5 milhões de cariocas assistidos pela rede de Atenção Básica, que tem como conceito a medicina preventiva. As clínicas são equipadas com o prontuário eletrônico, como O DIA mostrou ontem, que possibilita o acompanhamento de todo o histórico dos pacientes. Com isso, os médicos sempre sabem se estão em dia exames, vacinas e consultas deles.

Segundo o secretário municipal de Saúde, Hans Dohmann, são menos dois milhões de procedimentos ambulatoriais nos hospitais desde o ano passado. “Muitas vezes, o paciente chegava nas unidades de emergência com problemas que poderiam ter sido resolvidos na Clínica da Família. Quando a filtragem ocorre nesta primeira fase, o reflexo é visível nos hospitais. Caímos de mil atendimentos por dia para, em média, 250”, explicou ele.

O objetivo é transformar o paciente da clínica em usuário da unidade. Foi o que aconteceu com Evanda da Silva, 42, e a filha, Milena, de 16, portadora de necessidade especial. Elas passaram a frequentar oficinas de pintura. “Aprendi uma profissão e quebrei o preconceito socializando minha filha”.

Você pode gostar