Em aceno a conservadores, Papa diz que aborto prova 'cultura do descartável'

Pontífice comenta que essa mentalidade do desperdício é ameaça à paz mundial

Por O Dia

Vaticano - O Papa Francisco criticou nesta segunda-feira o aborto como evidência de uma "cultura do descartável", que desperdiça pessoas assim como alimentos, afirmando que tal mentalidade é uma ameaça à paz mundial.

Francisco também conclamou um respeito maior para os migrantes e denunciou a perseguição de cristãos na Ásia, na África e no Oriente Médio em sua análise global das crises mundiais pronunciada para diplomatas credenciados na Santa Sé. O pontífice afirmou que não apenas alimentos, mais os próprios seres humanos estão sendo descartados como desnecessários.

"Não podemos ser indiferentes àqueles que passam fome, especialmente as crianças, quando pensamos em quanta comida é desperdiçada todos os dias em várias partes desse mundo imerso no que frequentemente chamei de "cultura do descartável", disse o Papa.

O pontífice afirmou ainda que essa cultura afeta as crianças não nascidas. Frequentemente acusado por católicos conservadores de não se posicionar com suficiente rigor contra o aborto, o Papa descreveu nesta segunda a interrupção voluntária da gravidez como algo "horrível". "Por exemplo, é horrível até mesmo pensar que há crianças, vítimas do aborto, que nunca verão a luz do dia", disse.

Esse foi o mais incisivo pronunciamento do pontífice argentino sobre o assunto desde sua eleição, em março de 2013. Francisco nunca deu sinais de que reveria a condenação da Igreja ao aborto, mas tampouco vinha fazendo as duras e frequentes recriminações contra essa prática que caracterizavam seus antecessores João Paulo II e Bento XVI.

Em uma histórica entrevista à revista jesuíta italiana Civiltá Cattolica, em setembro, o Papa alarmou os conservadores ao dizer que a Igreja precisava se livrar da sua "obsessão" com temas como aborto, contracepção e homossexualidade.

A posição de pontífice de favorecer a misericórdia em lugar da condenação desorientou muitos católicos conservadores, especialmente em países ricos, com os EUA, onde a Igreja está polarizada em torno de assuntos comportamentais.

No ano passado, o bispo de Providence (Rhode Island), Thomas J. Tobin, se disse frustrado pelo fato de o Papa não ter tratado mais diretamente "do mal do aborto". Críticas nesse sentido vinham sendo ecoadas por sites católicos conservadores nos últimos meses.

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