Vacina para meninas: polêmica

Alguns pais acham que proteção contra vírus HPV pode despertar interesse de garotas por sexo

Por O Dia

Rio - Iniciativa inédita no país, a campanha de vacinação contra o HPV começa hoje, com polêmica e visões divergentes sobre a necessidade de imunizar meninas de 9 a 13 anos. Especialistas garantem que a medida é segura e importante para prevenir o câncer de colo de útero, cuja causa principal é o vírus combatido pelo imunizante e transmitido sexualmente. Mas, para alguns, a campanha é voltada a um público jovem demais.

Mariustela (em pé) ainda não sabe se a filha%2C Júlia%2C será vacinada. Já Vânia é a favor da aplicação do imunizante em Ana Carolina João Laet / Agência O Dia

Isabella Ballalai, especialista da Associação Brasileira de Imunizações (Sbim), afirma que a vacina pode ser aplicada em qualquer idade, mas o ideal é antes do início da vida sexual, quando não houve nenhum contato com o vírus. “O imunizante também funciona em mulheres que já fizeram sexo, mas o ideal é vacinar antes”, explica. Este foi um dos critérios do Ministério da Saúde na hora de definir a idade do público-alvo.

INTERESSE PRECOCE POR SEXO

Alguns pais temem, no entanto, que a estratégia do Ministério da Saúde acabe ‘despertando’ o interesse de meninas pelo sexo. A dona de casa Mariustela Leite Soares, 53 anos, ficou impressionada quando soube que a filha, Júlia, 12, estava no público para quem a vacina é indicada. Ela ainda não sabe se vai autorizar a imunização.

A psicóloga Valésia Vilela alerta que infância e pré-adolescência são fases de formação física e psicológica, e que o sexo não é apropriado para a idade. “A relação é uma atividade de adulto, que envolve responsabilidade. Fazer sexo nessa idade seria queimar uma etapa.”

Portanto, segundo especialistas, o ideal é abordar com as meninas a necessidade da vacinação ressaltando a importância de se combater doenças futuras, mas entrando em detalhes só se houver mais questionamentos.

Além da polêmica da idade, uma série de reclamações sobre o imunizante, em outros países, provoca clima de incerteza. No Japão, as queixas de duas mil pessoas fizeram o governo suspender a campanha. Nos Estados Unidos, mais de 200 famílias entraram com ações na Justiça por conta de efeitos colaterais. Dessas, 49 receberam indenizações.

Ballalai, que preside a Comissão de Revisão de Calendários e Consensos da Sbim, afirma que faltam evidências científicas nessas acusações. Ela lembra que a adolescência é a fase em que se manifestam uma série de doenças, como psicose e problemas autoimunes. “A vacina é segura. A Austrália tem ampla vacinação e não tem relato concreto grave de efeito colateral”, cita.

Já o presidente da Associação Pernambucana de Medicina de Família e Comunidade, Rodrigo Lima, tem visão diferente: “Se há casos documentados de problemas, a segurança do imunizante deve ser questionada.” Ele diz que não há estudo comprovando a eficácia da vacina na prevenção do câncer. “A fórmula previne contra as lesões que podem vir a se tornar um câncer. Mas com frequência as feridas regridem naturalmente. Fica impossível atestar que é a vacina que produz esse efeito”.

TIRE DÚVIDAS SOBRE A VACINA

IMUNIZANTE
A vacina é feita com uma proteína retirada da cápsula do vírus. A estrutura é semelhante ao vírus, porém sem o DNA. No organismo é capaz de estimular o sistema imunológico na produção de anticorpos, sem infectar a pessoa.

QUATRO TIPOS
Será utilizada a vacina quadrivalente, que protege contra quatro subtipos (6, 11, 16 e 18). Os subtipos 16 e 18 são responsáveis por cerca de 70% dos casos de câncer de colo do útero em todo mundo. Cerca de 2% dos casos de infecção por HPV tornam-se câncer.

CAMPANHA
É voltada para meninas de 9 a 13 anos, porém este ano serão vacinadas apenas as de 11 a 13. Em 2015, a vacina passa a ser oferecida para as adolescentes de 9 a 11 anos e, em 2016, às meninas de 9 anos. Cada adolescente deve tomar três doses para completar a proteção, sendo a segunda seis meses depois e a terceira, cinco anos após a primeira.

INCIDÊNCIA
Estudos mostram que até 30% das meninas com um ano de atividade sexual com um parceiro fixo têm HPV. Além disso, nada menos que 80% da mulheres sexualmente ativa já foram infectadas.

TRANSMISSÃO
O contágio ocorre no sexo, no contato com a pele sem preservativo. Em casos raros, é possível contrair por meio de calcinhas e toalhas contaminadas.

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