Pai que aceita orientação sexual do filho é ótimo exemplo, diz psiquiatra

Rejeição causa depressão e traumas

Por O Dia

Rio - Amor paterno não tem limite e é capaz de enfrentar tabus e preconceitos. Depois de se descobrir (e se assumir) como homem transexual e gay, Luc, de 25 anos, recebeu apoio incondicional do pai. O fato, que já despertaria curiosidade de muitos, chamou mais atenção por se tratar do filho do apresentador Marcelo Tas.

Tas e Luc contaram a história em entrevista à revista ‘Crescer’ deste mês. Ele nasceu menina, em fevereiro de 1989, e recebeu o nome de Luiza. Aos 15 anos, ela contou aos pais ser bissexual — a notícia foi bem recebida — e, aos 22, descobriu ser transexual. Hoje, o filho do apresentador mora nos Estados Unidos e é casado com Nicholas, que, como ele, é um homem transexual (nasceu do sexo feminino).

"Quando a gente tem conexão de afeto consistente com eles%2C as coisas nunca mudam da noite pro dia"%2C Marcelo Tas%2C pai de Luc e apresentadorRevista Crescer/ Nicholas Athayde Rizzaro

Para Alexandre Saadeh, psiquiatra e especialista em transtornos de sexualidade do Instituto de Psiquiatria Universidade de São Paulo, Tas é um exemplo a ser seguido por outros pais. Ele lembra que rejeição não é benéfica para ninguém, sobretudo se a origem forem os responsáveis. “No filho, a rejeição causa insegurança, depressão, ansiedade, autodepreciação, além de sentimentos de ser uma anormalidade ou aberração. Tudo isso compromete o desempenho pessoal e profissional”, alerta.

Segundo o especialista, para os pais, aceitar um filho trans é mais difícil do que um filho homossexual. Isso porque a homossexualidade não prevê mudanças físicas e legais, como ocorre na transexualidade. “Isso deixa os pais mais apreensivos e temerosos em relação ao futuro do filho ou da filha e à aceitação social”.

Ele diz que os pais devem diferenciar o que pode ser um comportamento “momentâneo” de experiência de uma situação de homossexualidade ou bissexualidade. “O ideal é esclarecer, apoiar e respeitar. A aceitação pode vir com o tempo”.

Luc reconhece que a revelação da transexualidade foi mais difícil para ele e os pais, mas se considera “sortudo” pelo apoio da família. Segundo Tas, para os filhos mais novos — Miguel e Clarice, de 13 e 9 anos — a notícia foi natural. “As questões de sexualidade e gênero são importantes. Mas não são mais importantes do que o amor incondicional que devemos manter na nossa família”, disse o apresentador à revista.


Atitude diferente

Na entrevista, Luc disse que não pensou na questão de identidade de gênero quando criança. Mas, de acordo com Miguel Chalub, psiquiatra que acompanha pessoas que fazem cirurgia de mudança de sexo no Hospital Pedro Ernesto, normalmente é na infância que aparecem os sinais de transexualismo. Para o especialista, é raro, depois de virar trans, uma pessoa ser também gay, como Luc. “Pode variar, mas por volta dos 5 anos o comportamento da criança começa a ser diferente”, aponta.

Pertencer a um determinado gênero, mas desejar e insistir em ser do outro, é o principal traço da Disforia de Gênero (antes conhecida como Transtorno de Identidade de Gênero). Especialistas divergem em relação à causa. Para uns, a origem é no útero, na diferenciação do cérebro masculino e feminino do feto — influenciado por hormônios da mãe. O menino ou menina nasceria com o cérebro do sexo oposto. Outra corrente acredita que criação e estrutura familiar são determinantes. Chalub lembra que, antes da cirurgia, é importante passar por acompanhamento psicológico. “É preciso ver se a pessoa realmente quer isso, e ajudá-la a enfrentar a mudança e a repressão”.

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