Por felipe.martins

Uruguai - O terceiro colocado na eleição presidencial do Uruguai, Pedro Bordaberry (Partido Colorado), declarou ontem apoio no segundo turno ao candidato de centro-direita Luis Lacalle Pou, do Partido Nacional. Tabaré Vázquez, da coalizão de esquerda Frente Ampla, obteve 46,9% dos votos no domingo, contra 30,7% de Lacalle Pou, com 96,3% das urnas apuradas até ontem à noite. No país, a contagem é manual. A próxima votação é em 30 de novembro.

O apoio de Bordaberry — que obteve mais de 13% dos votos — deve garantir uma disputa acirrada para a escolha de quem vai suceder José Mujica, ex-guerrilheiro de 79 anos que legalizou o aborto, o casamento gay e a produção e distribuição de maconha.

Lacalle Pou (centro) e seu vice%2C Jorge Larranaga (E)%2C foram para o segundo turno com o apoio de Bordaberry (D)Reuters

Há seis meses, a Frente Ampla, de Mujica e Vázquez, parecia ser ampla favorita para assegurar um terceiro mandato de cinco anos. Em 2004, o bloco já elegera o próprio Vázquez e, em 2009, Mujica (não é permitida a reeleição para mandato consecutivo no país). Mas Lacalle Pou subiu constantemente nas pesquisas, aproveitando o descontentamento de muitos uruguaios com o alcance das reformas liberais.

PARLAMENTO DE ESQUERDA

Os cerca de 2,6 milhões de eleitores também definiram no domingo os 30 senadores e 99 deputados que integram o Parlamento. Com mais de 98% dos votos apurados ontem, a Frente Ampla conquistou a maioria na Câmara e no Senado, com 15 senadores e possivelmente 50 deputados. O Partido Nacional vai manter bancada de dez senadores, e terá 32 deputados. Já o Colorado terá 13 deputados e quatro senadores.

“A maioria da população votou na Frente Ampla, mas ainda teremos um segundo turno. Começamos um novo caminho na luta pela presidência”, afirmou Vásquez. “Todos os uruguaios precisam de mudanças em diversas áreas. Trabalharei a cada hora nos próximos 34 dias para que Lacalle Pou ganhe o segundo turno”, declarou Bordaberry.

Também no domingo foi realizado plebiscito sobre a redução de 18 para 16 anos da maioridade penal. A medida recebeu o apoio de 47,1% dos eleitores, mas precisava do 50% dos votos mais um para ser aprovada.

‘Os eleitos são funcionários’

O presidente uruguaio, José Mujica, conversou com a BBC Mundo sobre a disputa. Caso a Frente Ampla vença, ficará 15 anos no poder. Questionado sobe o assunto, ele afirmou: “Um dos problemas mais graves da política contemporânea é que frequentemente quem está no poder se distancia demasiadamente da maneira de viver das grandes maiorias. E acaba vendo a realidade a partir de onde está.” Ele acrescentou, ainda, que “os eleitos para um governo são funcionários em trânsito, não são reis, não são sangue azul.”

O líder uruguaio afirmou também que seu antecessor e aspirante a sucessor, Tabaré Vázquez, tem a vantagem da experiência sobre seu adversário, Lacalle Pou. “Os governos são únicos. Com certeza, um novo governo de Tabaré tem a vantagem de experiência acumulada. E lembre-se de que a profissão de presidente não existe, nem a formação. Há apenas o que se pratica. E a partir desse ponto de vista, uma segunda presidência de Tabaré vai permiti-lo ver as coisas com mais rapidez e clareza”.

A BBC Mundo pediu, ainda, que Mujica comparasse sua gestão com um possível governo de Vázquez. “Com certeza, será diferente porque a força política a que pertencemos é de gente de livre pensamento, é múltipla e dentro da mesma orientação global há diferenças”.

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