'Humor é crítica, tem que ser do contra'

O DIA homenageia com charges exclusivas cartunistas do semanário ‘Charlie Hebdo’ mortos quarta-feira

Por O Dia

Rio - Descobri Wolinski na adolescência.Foi um dos meus grandes ídolos, principalmente por conta dos cartuns eróticos que publicava na revista ‘Status’. Eu vibrava com a complexa ‘simplicidade’ de seus desenhos. Wolinski foi covardemente assassinado na redação do jornal satírico e de esquerda ‘Charlie Hebdo’, na manhã da última quarta-feira, em Paris, num atentado que chocou o mundo. Morreu aos 80 anos fuzilado pelo ódio, porque continuava a fazer o que sempre fez na vida: humor.

Confesso que os franceses foram fundamentais para a minha formação como artista. Uderzo, Goscinny, Mulatier, Sempè, Lassalvy, Moebius são alguns dos nomes que puxo da memória sem muito esforço. Criativos e geniais, cada qual com seu estilo, mas todos tinham uma característica comum: a mordacidade e a ironia típicas dos franceses.

A turma do ‘Charlie Hebdo’ estava na estrada desde 1969. Não era só contra os fundamentalistas muçulmanos que a redação do jornal implicava atualmente: opositores do casamento gay, judeus, a ultradireitista Marine Le Pen, o presidente da França, François Hollande, o Vaticano, todos eram alvo de suas críticas e desenhos mordazes.

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O jeito escrachado de fazer humor desse grupo influenciou muita gente boa aqui dos trópicos, a turma do ‘Pasquim’ que o diga. O mestre Jaguar está aqui presente nesta página, como admirador confesso que é do humor ‘do contra’ praticado pelos franceses. Uma das máximas da profissão, do exercício do chargista, é a de que não existe humor a favor. Nem de nada, nem de ninguém. Hay gobierno? Soy contra! O termo charge que usamos, vem do francês e significa carga, porrada. A ordem no humor é bater em todo mundo, sem pena!

Além do Jaguar, participam desta homenagem dois grandes artistas do DIA, o chargista Aroeira e seu traço dramaticamente impecável, e o caricaturista Nei Lima, que nos brindou com lindo desenho, verdadeiro poema gráfico. Um convidado especial completa o time, o premiado e talentoso Cláudio Duarte. Minha homenagem está no alvo perfurado por doze balas, o mesmo número das vítimas do atentado. Um sorriso às avessas.

Texto de André Hippert

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