Por tamara.coimbra

Timor Leste - O primeiro-ministro timorense, que pediu demissão do cargo, disse nesta sexta-feira à Agência Lusa que sua saída tornou-se "obrigação moral e política" e que a decisão pretende abrir caminho à nova geração.

"Ou agora ou nunca mais e ficava a nova geração demasiadamente dependente", afirmou Gusmão depois de participar de um debate político em Díli sobre transição política e liderança.

Ele afirmou à Lusa que prefere o termo "deixar" o cargo de primeiro-ministro do que "abandonar, que tem um significado muito pejorativo", considerando que o momento é histórico não por sua causa, mas pelo que representa em termos de transição de uma geração.

"Histórico, talvez por se considerar que não é normal, mas eu penso que todos compreendem que a decisão foi pensada e refletida com muita profundidade", acrescentou. "Eu acredito que vai trazer muitos benefícios. A médio prazo,as pessoas vão pensar que foi a melhor decisão".

O premiê do Timor Leste%2C Xanana Gusmão%2C se demitiuAgência Brasil

A pergunta se vai continuar no governo, Xanana Gusmão respondeu que isso "depende do novo primeiro-ministro", recusando-se a confirmar, como presidente do maior partido do país, o Congresso Nacional da Resistência Timorense (CNRT), quem vai indicar ao presidente da República. "O presidente depois vai ver", disse.

Sobre o receio de alguns setores da sociedade timorense, de que a sua saída possa causar instabilidade, o primeiro-ministro demissionário manifestou-se otimista de que isso não vai ocorrer.

"Eu não acho [que vá haver instabilidade]. Por isso é que, na minha intervenção, fiz um apelo para todos estarem calmos, para todos contribuírem da melhor forma", observou. "E, sobretudo, aos jornais timorenses, para não especular".

O presidente da República timorense, Taur Matan Ruak, anunciou que convocou o Conselho de Estado para uma reunião na próxima segunda-feira, depois de ter recebido, nesta quinta, a carta de demissão. Além de convocar a reunião, "para o exercício das suas competências constitucionais", o presidente vai ouvir novamente os partidos com representação parlamentar.

O lendário ex-guerrilheiro, Xanana Gusmão, anunciou há uma semana sua intenção de deixar o cargo, cujo mandato expirava em 2017, uma vez que fosse concluída a remodelação do atual governo, e se justificou afirmando que é uma ação necessária para dar lugar aos "líderes do futuro" no país.

Na carta enviada, Xanana Gusmão explicou que a sua demissão se prende ao "entendimento comum" da necessidade de "uma reestruturação profunda, que permita assegurar, nestes dois anos e meio que restam ao governo, maior dinâmica em termos de eficiência".

Sucessor

Antes de renunciar, Gusmão anunciou a seu partido, o Conselho Nacional para a Reconstrução do Timor-Leste (CNRT), e a seus parceiros na coalizão de governo, o Partido Democrático e o Frente para a Mudança, que seu sucessor será o ex-ministro da Saúde, Rui Araújo.

Araújo faz parte do comitê central da do partido opositor Fretilin, que governou o país nos cinco primeiros anos após a independência em 2002, e que foi a segunda legenda mais votada nas eleições de 2012, após o CNRT.

Segundo o site timorense "Sapo", a escolha de Araújo gerou um "grande mal-estar" no seio dos três partidos da coalizão de governo, apesar de contar com o apoio de líderes veteranos como o ex-presidente e ganhador do Nobel da Paz, José Ramos-Horta, e o ex-primeiro-ministro, Mari Alkatiri.

Gusmão, eleito em 2002 como o primeiro presidente do país após a independência, se alçou à chefia do governo após a crise de 2006, que pôs o Timor à beira da guerra civil e levou à ONU a enviar uma missão de segurança que terminou em 2012. O anúncio de sua renúncia coincidiu com a apresentação de um relatório da organização "Overseas Development Institute", que alertou sobre o risco de um aumento da instabilidade no Timor com a saída de Gusmão.

A organização argumentou que a melhora da segurança que o Timor viveu nos últimos anos se baseou tanto na liderança do carismático ex-guerrilheiro como na distribuição, entre as várias facções, dos lucros da exploração de petróleo, cujas reservas estão se esgotando.

O Timor-Leste alcançou a independência em maio de 2002, depois de mais de 20 anos de ocupação da Indonésia e de vários séculos de domínio português.

Com informações do iG e da EFE

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