Por thiago.antunes

Rio - Com o objetivo de ampliar o debate e contribuir qualitativamente para a evolução de um dos temas mais relevantes na área de saúde, as vias de parto, o grupo Perinatal promoveu, nesta quinta-feira, o0 Fórum de Consciência Obstétrica do Rio.

Diante de dados recordes de cesáreas, que preocupam e movimentam os representantes dos principais órgãos do setor como o Conselho Regional de Medicina e a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), diferentes líderes ligados ao assunto debateram a questão acalorada por uma Resolução Normativa da ANS, que impõe novas regras para mães, médicos e hospitais na escolha entre parto normal e cesariana. A medida tem como principal objetivo aumentar o índice de partos normais e, consequentemente, diminuir o alto percentual de cesáreas no Brasil.

O debate, idealizado pelo médico Renato Sá, diretor do centro de diagnósticos da maternidade Perinatal, ressaltou a importância do direito de escolha da mulher na hora de eleger a via de parto. Para o especialista ficou claro o protagonismo da mãe e a necessidade de abastecê-la de informações que subsidiem sua escolha. “Somente ao levantarmos esse debate obtivemos um aumento expressivo no número de partos normais, por isso que não devemos digladiar opiniões e sim nos unir pelo bem das mulheres e dos seus bebês”, conclui o médico.

O evento contou com a mediação de Marcelo Zugaib, professor de obstetrícia da USP, que enfatizou a importância desse evento para a classe médica: “a responsabilidade do médico está sob os holofotes e essa é uma oportunidade única pra refletirmos a nossa função no atual quadro brasileiro”. Os obstetras Jorge Rezende Filho, professor da UFRJ e Coordenador Médico do Serviço de Obstetrícia do hospital Santa Lúcia, e Alexandre Trajano, Professor de Obstetrícia da UERJ concordaram que a paciente deve ser devidamente instruída e a vontade dela deve ser respeitada. Contudo, Dr. Jorge afirmou que o parto domiciliar é temerário e não é bem visto pelas Sociedades e pela Federação de Ginecologia e Obstetrícia: “o parto é um evento natural, mas não é isento de complicações previstas e imprevistas”.

Para Alexandre Trajano nada é mais verdadeiro do que afirmar que a cesariana revolucionou a obstetrícia, reduzindo o risco de complicações materna e neonatal, mas é preciso ponderar quando a cesariana eletiva pode ser feita, avaliando principalmente a idade gestacional do feto. Trajano demonstrou preocupação no que diz respeito ao embate passional entre profissionais e representantes de grupos a favor e contra a cesariana. “Nós estamos aqui, unidos numa importante missão: a desconstrução dos times ‘vaginalistas’ e ‘cesarianistas’. Times são emocionais e geram brigas no lugar de debates. Todos nós lutamos pelas mesmas coisas, o bem estar da mulher e o reconhecimento do nosso trabalho”, finalizou o médico.

A doula e psicóloga Eleonora de Moraes apresentou a importância de soluções alternativas à dor e o apoio que as mães necessitam para se sentirem fortes fisicamente e tranquila psicologicamente. No painel “O parto que eu decidi ter” mães que optaram tanto pela cesariana, quanto pelo parto normal expuseram suas experiências, mostraram as dificuldades que enfrentaram e as razões que as levaram a optar pelas diferentes vias de parto. A importância da enfermagem obstétrica foi levantada pelo enfermeiro Herdy Alves, professor da UFF e representante da Associação Brasileira de Obstetrizes e Enfermeiras Obstétricas (ABENFO).

Tratando sobre a Resolução Normativa nº 368 da ANS estiveram presentes o presidente da Sociedade de Ginecologia e Obstetrícia do Rio de Janeiro (SGORJ) Marcelo Burlá e a enfermeira da ANS Jacqueline Torres. Burlá afirmou que o único profissional que pode intervir no parto é o obstetra e apontou as falhas na Resolução Normativa: “o médico deveria ter exposta uma taxa global de cesarianas e de parto normal e não de acordo com plano de saúde ou com hospital, por exemplo”.

Alguns pontos sobre a Resolução foram destacados como o caráter ético da cesariana eletiva que deverá ser considerada como legítima argumentação para a intervenção cirúrgica. A norma traz ainda a exigência de um cartão de pré-natal, que é considerado um incentivo ao parto normal. A iniciativa vai reunir todas as informações do pré-natal e dará condições e segurança para que as mães sejam atendidas por obstetras plantonistas, pois eles terão acesso ao histórico da gestação.

Para discutir as vias de parto sob a ótica da pediatria, o médico e professor da UERJ Ricardo Chaves comandou o painel “Minuto de Ouro”, referente ao direito e a importância de ter um pediatra na sala de parto para prestar assistência. “Esse debate é quase a realização de um sonho. Precisamos alertar às mães que o exame feito pelo pediatra no primeiro minuto de vida do bebê, avaliando a frequência cardíaca, respiração e tônus, é fundamental, precisamos dar valor ao primeiro contato com a mãe, à lactação após o parto e deixar claro que a cesariana eletiva só deve ocorrer depois da 39ª semana”, esclareceu Ricardo.

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