Plano de voo: seis horas com destino à morte

No terceiro capítulo da série especial do DIA, como foram as horas que antecederam o ataque a Hiroshima: as tensões, os receios e o profissionalismo dos americanos que, pela primeira vez, usaram arma atômica em civis

Por O Dia

Na manhã de 5 de agosto de 1945, já cientes do que fariam dali a horas, os homens do Grupo Composto 509 acordaram, atordoados, com um estrondo. Um B-29 explodia na pista após uma decolagem malsucedida. Para Paul Tibbets e William Parsons, era um mau presságio. As ‘superfortalezas voadoras’, como a que levaria a bomba atômica, já eram monstrengos difíceis de tirar do chão. Com uma carga delicada de mais de quatro toneladas, capaz de reduzir a pó a base de Tinian todo o cuidado seria pouco. Assim começava o dia do primeiro ataque nuclear contra civis da história.

Instantes antes de decolar%2C Paul Tibbets%2C piloto do avião que batizara em homenagem à mãe%2C faz sinal para que liberem a pista. Entenderam como um acenoBanco de imagens

Parsons, responsável pela arma, tomou uma decisão à revelia de seus superiores: só iria terminar de armar a ogiva em pleno voo. Temia mandar Tinian pelos ares — o que seria um revés enorme, pela importância da base — caso o B-29 explodisse na decolagem. Para tal, passou as horas seguintes armando e desarmando a Little Boy, como a bomba foi batizada, e fez um minucioso checklist do que teria de fazer quando enfim estivesse no ar. É bem possível que não tenha pregado o olho até voltar da missão, mais de 24 horas depois.

Madrugada de 6 de agosto de 1945: uma movimentação fora do comum chamava a atenção do Grupo Composto 509, então a ‘tropa de elite’ das Forças Armadas dos EUA. Eram fotógrafos e cinegrafistas que, para registrar o início da histórica e fatal missão, coalharam a pista de equipamentos. Tiradas as fotos, Tibbets, já no cockpit, abriu a janela para, irritadiço, pedir que liberassem a via. Eram 2h, o Enola Gay tinha de decolar. O movimento com as mãos de “xô, xô!” foi confundido com um aceno. Sorriso amarelo e mais uma foto.

Possivelmente a decolagem do B-29 e a queda da bomba até sua detonação duraram os mesmos 44 segundos. Mas não se sabe qual dos dois eventos passou mais devagar. No primeiro, a dúzia de homens a bordo do Enola prendeu a respiração até sentir o pesado bombardeiro sair do chão. Tibbets lembra que retardou ao máximo puxar os manches. “Queria segurar o avião no solo para pegar o máximo de vento de cauda que eu pudesse”, recordou.

O Enola alçou voo e cumpriu à risca todas as etapas do protocolo, como encontrar mais à frente os dois aviões de apoio, o Great Artiste e o Necessary Evil, que fariam medições e imagens. Nesta fase Parsons já tinha terminado de carregar a bomba. Por volta das 7h, o Straight Flush, enviado mais cedo para checar as condições meteorológicas, tinha confirmado a visibilidade e assegurado que o alvo era Hiroshima. Bastava uma hora de voo para que o Enola despejasse sua carga mortal. E assim foi até as 8h15, quando o Little Boy foi solto, numa queda de 44 segundos e meio até o cronômetro e o altímetro registrarem que era hora da detonação, a 580 metros do solo.

Clique sobre a imagem para visualizar a arte com o trajeto da bombaArte%3A O Dia Online

Mesma sorte não teve, a 9 de agosto, a tripulação do Bockscar, encarregado de levar a bomba Fat Man, de plutônio e mais pesada que a de urânio, ao segundo alvo, Kokura. Imprevistos quase levaram o major Charles Sweeney a jogar a carga ao mar. Primeiro, uma das bombas de combustível havia pifado, e não havia tempo para substituí-la — muito menos tirar a ogiva de lá, pois ela já estava armada. O jeito foi voar com o peso a mais e com menos autonomia. Já no ar, um dos aviões de escolta demorou a chegar, o que impôs meia hora de atraso — o suficiente para que o tempo em Kokura mudasse, passando a encoberto. Bockscar ainda insistiu no alvo primário, mas a bateria antiaérea japonesa reagia, e caças estavam a caminho. O jeito foi seguir a Nagasaki e voltar antes que o combustível acabasse. A bomba caiu num vale muito além do ponto calculado, o que reduziu os danos na cidade.

Mesmo assim, foram muitos — mas muito aquém dos registrados em Hiroshima, onde a bomba atômica se revelou com toda a sua devastação, trazendo desamparo e dor.

Horas após o teste, a bomba foi embarcada em São Francisco para uma viagem de 10 dias no navio USS Indianapolis até a base aérea de Tinian, nas Marianas

Toda a equipe se reúne na base para tomar conhecimento da missão e do poder de fogo da nova arma. São instruídos a nada comentar ou escrever

No dia anterior à missão, um B-29 se incendeia na pista ao decolar. O capitão William Parsons decide evitar um desastre, armando a bomba em voo. Antes de levantar voo, o comandante Tibbets recebe pílulas de cianeto para que a tripulação se suicide caso caia nas mãos dos japoneses

Durante o voo, comenta-se o dia incrivelmente limpo e a facilidade com que entram e saem do espaço aéreo japonês sem qualquer interceptação. Após substituir os plugues que acionariam a bomba, o tenente Jeppson, auxiliar de Parsons, retorna à cabine. Foi a última pessoa a ver ou tocar a bomba

Clique sobre a imagem para visualizar a arte sobre a missão históricaArte O Dia

Leia na quarta-feira: Como foi a explosão da bomba em Hiroshima, os detalhes da destruição e os relatos surpreendentes de moradores

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