Por thiago.antunes

Nova York - Um grande mapa de papel é estirado sobre uma mesa para que equipes de combate a incêndio estudem as possibilidades de as chamas se espalharem e tentem adivinhar quantas pessoas poderão ser afetadas por elas. Os detalhes são estáticos, antigos, desatualizados. Mas, em um mundo altamente tecnológico, é assim que até hoje bombeiros analisam grandes desastres para saber como conduzir suas missões de resgate. O que, finalmente, está mudando.

Fundada em 2011 pelo norte-americano Sam Lanier, a empresa Firewhat? – assim mesmo, com ponto de interrogação – tem conseguido fornecer a equipes de resgate dos Estados Unidos uma nova forma de mapeamento de incêndios florestais, enchentes e quaisquer outras tragédias que afetem pessoas e estruturas governamentais e de grandes companhias. A prática do resgate ainda está longe de acompanhar a evolução tecnológica como ocorre em outras áreas.

Bombeiro observa chamas que destruíram milhares de hectares da Chapada Diamantina%2C em 2015Reprodução

Com parceria firmada com a Environmental Systems Research Institute (ESRI), líder mundial em sistemas de informações geográficas, e com a as duas empresas que hoje formam a antiga Hewlett Packard – HP Inc. e Hewlett Packard Enterprise –, que lhe fornece computadores pessoais e servidores de dados com capacidade de armazenamento de 48 terabytes, a Firewhat? consegue seu mapeamento graças ao Sistema de Informações Geográficas (GIS, na sigla em inglês), conjunto de sistemas de softwares e hardwares que produz, armazena, analisa e apresenta informações sobre uma área com mapas, gráficos, tabelas, cartas topográficas, entre outros.

É por meio da tecnologia que a empresa consegue cruzar dados de satélites em tempo real com informações oficiais a respeito da população de cada uma das áreas e dos detalhes do terreno visualizado. Atualmente, a Firewhat? mapeia todo o território dos EUA, e já possui planos para estender seus negócios à América do Sul, Austrália e leste asiático, áreas amplamente afetadas por queimadas e desastres naturais.

Bombeiros veem área de incêndio em mapa de papel em Ontario%2C Canadá%3A técnicas ultrapassadasReprodução

"As pessoas e os responsáveis pelo gerenciamento de risco e combate ao fogo precisam entender como a área atingida é demograficamente, saber quantas escolas estão em risco, quantas torres de rádio, quantas linhas de transmissão de energia, de gás, sempre com a melhor informação", disse ao iG Sam Lanier, em evento em Nova York.

"Cada um de nossos laboratórios móveis possui servidores que nos dão espaço suficiente para, por exemplo, entender e dissecar tudo a respeito da população humana de uma área específica. Hoje, isso não existe em nenhum outro lugar. E, apesar do nome Firewhat?, o gerenciamento de emergência é o mesmo para qualquer caso. Ou seja, se tivermos um grande terremoto e houver cem casas afetadas, teremos todas as informações demográficas para sabermos quantas pessoas vivem naquelas casas, que podem ter sido completamente destruídas, e, assim, o pessoal do resgate pode realmente ir ao local checar se há pessoas nelas ou não. A mesma coisa com enchentes, furacões e etc."

Gráfico exibe detalhes sobre área atingida por incêndio%2C inclusive com fotos de casas destruídasDivulgação

A empresa funciona em duas frentes principais: a primeira, voltada para fornecer informações, de forma gratuita, para corporações de combates a incêndios, instituições governamentais, como o Departamento de Agricultura dos EUA, e ações de resgate como consequência de desastres naturais. Estas incluem mapeamento total dos terrenos, tanto geográfica quanto demograficamente, e visualização da situação em tempo real.

Um exemplo: uma transportadora que envia um trem com US$ 1 bilhão em mercadorias a alguma área com incêndio ou outro desastre é automanticamente notificada pela Firewhat?, o que a ajuda a evitar a destruição de seus pertences, alterando rotas ou adiando as entregas. Da mesma forma, uma companhia de distribuição de eletricidade tem a oportunidade de desligar certas linhas de transmissão que poderiam vir a ser afetadas, evitando prejuízos até então inevitáveis, e uma companhia de seguros, de avisar seus clientes para retirar das residências seus bens mais valiosos. 

A segunda frente é a usada pela Firewhat? para construir e manter suas unidades móveis e garantir seus lucros – de acordo com Lanier, a empresa foi avaliada em US$ 10 milhões em meados do ano passado. Assim, seus serviços são vendidos a companhias de seguros, empresas de transporte, extratoras de madeira, de gerenciamento de terras e de distribuição de matérias-primas como energia e gás, proprietários de grandes áreas, entre outras. 

Os fundadores da Firewhat%3F%2C Sam Lanier (à esquerda) e Rusty Merritt%3A planos ambiciosos para 2016Divulgação

"Naturalmente, o principal ponto para fazermos este mapeamento é o bem social que ele traz. Mas, sem dúvida alguma, é uma área lucrativa, até pelo aumento dos desastres naturais e das queimadas, o que leva a uma necessidade cada vez maior de controlá-los, algo possível com as tecnologias disponíveis", explica Lanier. "Há um elevado número de informações que podemos comercializar para ajudar todos esses negócios a melhorar suas ações e ampliar seus lucros."

Atualmente, a Firewhat? possuí três unidades móveis, que devem ser expandidas para 12 nos próximos meses. O custo de cada uma gira em torno dos US$ 400 mil, somados os valores de trailer, de satélite, dos equipamentos HP e do software da ESRI, pagos graças aos valores repassados pelos clientes fixos da empresa.

Apesar de ainda incipiente, com uma equipe de apenas 14 pessoas para cuidar de todos os seus trabalhos, a Firewhat? tem o objetivo de espalhar o sistema por todo o mundo o mais rapidamente possível. Entre as prioridades da empresa está o Brasil, que viu suas queimadas crescerem 27,5% no ano passado, com 235 mil focos de incêndio, o segundo maior registro da série histórica, iniciada em 1999. 

"É incrível como a adaptação à tecnologia no combate de desastres naturais é lenta. Parece existir um medo de que a informação vá para a nuvem, volte para baixo e vaze para alguém que não deveria conhecê-la", avalia Lanier. "Hoje, todos usam a tecnologia, todos a tem no bolso, nos celulares, nos tablets, mas na área de desastres ela segue distante. E é isso o que tentamos mudar."

Fonte: iG

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