Por raphael.perucci

Rio - Metade dos brasileiros usa carro ou moto particular para se deslocar. Mantida a atual tendência do aumento da utilização de transporte individual, este percentual chegará a 65% em 2030. O impacto negativo deste quadro não está apenas nos cada vez maiores engarrafamentos, mas também em mais mortos e feridos no trânsito.

Os dados são de estudo da Associação Nacional das Empresas de Transportes Urbanos (NTU), que fez um cruzamento dos números do Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (Ipea), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e de ONGs especializadas no setor.

O levantamento aponta que, na década de 60, a indústria automobilística brasileira produzia 1.200 automóveis e 2.200 ônibus por ano. Na época, a matriz modal de deslocamento era de 15% para o transporte individual. Em 2011, a produção de automóveis já foi de 3,5 milhões e a de ônibus, 40 mil. Mas metade dos coletivos foram exportados, ficando 20 mil no país. E boa parte disso foi para renovação da frota.

Uso de veículos próprios geram mais vítimas do trânsitoSeverino Silva / Agência O Dia



“Com o aumento dos congestionamentos, os motoristas estão trocando o carro pela moto. Sabe qual é o resultado? Mais gente morrendo, mais gente ficando inativa e mais dinheiro sendo gasto”, disse o presidente-executivo da NTU, Otávio Cunha, acrescentando que a solução para a redução dos acidentes e melhoria do trânsito é o maior uso do transporte público.

REDUÇÃO DE ATÉ 90% NOS ACIDENTES

A Associação Brasileira de Medicina de Tráfego (Abramet) diz ser possível reduzir os acidentes em até 90%, caso as pessoas optem pelo uso de transportes coletivos públicos. O chefe do Departamento de Medicina de Tráfego Ocupacional da instituição, Dirceu Rodrigues Alves Junior, informou que, em 2011, o governo federal gastou R$ 42 bilhões só com os acidentes de trânsito. “Este número não está sendo atualizado, mas certamente já cresceu muito. Naquele ano, 60 mil famílias receberam o seguro DPVAT (o seguro obrigatório para acidentes de trânsito) por óbito. Outras 510 mil pessoas fizeram tratamento por conta de lesões”, disse.

De acordo com dados da Organização Mundial de Saúde (OMS), em todo o mundo, os acidentes de trânsito são responsáveis pela morte de 1,2 milhão de pessoas por ano. Porém, existem ainda outros 3,5 milhões de óbitos por inatividade física. Os falecimentos por poluição do ar passam de 1,3 milhão. “E ainda tem os riscos de doenças do coração, estresse e ruído”, acrescentou o coordenador da OMS, Carlos Dora. Ele lembra que medidas para melhorar o transporte público nas cidades têm resultados melhores do que as focadas somente nessas doenças.

Retorno de 300% para a economia

Cada dólar investido em projetos de mobilidade urbana gera US$ 4 de retorno na economia. A estimativa é da Organização Mundial de Saúde e leva em conta o tempo que deixa de ser perdido nos engarrafamentos, o combustível que não é desperdiçado e a redução dos gastos em saúde pública. Aliás, o fator saúde é o que o presidente da ONG Embarq, Luis Antonio Lindau, considera o mais importante.

Pesquisas mostram que quem vai regularmente ao trabalho de bicicleta tem uma mortalidade prematura 30% mais baixa. “Trinta minutos diários de atividade física reduzem em 50% o risco de doenças coronárias, diabetes e obesidade”. Porém, a análise de custo da mobilidade no Brasil não considera o fator saúde. “A preservação da vida e a prevenção de doenças está na mão dos governantes”.

R$ 42 BI
Foi o que gastou o governo federal com acidentes de trânsito em 2011, segundo dados da Abramet. Pelo menos 510 mil pessoas ficaram feridas. Especialistas dizem ser possível reduzir este número com o uso do transporte público e a qualificação dos motoristas

60 MIL
É o número de famílias brasileiras que receberam o seguro obrigatório DPVAT por óbito em 2011. Em todo o mundo cerca de 40 milhões de pessoas ficam feridas anualmente e quase metade delas (19 milhões) acabam inativas depois de sofrerem acidentes de trânsito, diz a OMS

65%
É o percentual de trabalhadores brasileiros que usará o transporte individual para seus deslocamentos em 2030, caso seja mantida a tendência atual de crescimento da frota de veículos motorizados particulares, segundo estimativas da NTU

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