Os excluídos da mobilidade urbana

O DIA foi conferir quem são os cidadãos que, mesmo com trabalho, dormem em abrigos ou nas ruas do Rio pois não têm dinheiro para a passagem ou tempo a perder no transporte público

Por O Dia

Rio - Não, eles não são mendigos. Têm casa, família e trabalho. O que falta para eles é dinheiro para usar o transporte público. De acordo com a Associação Nacional das Empresas de Transportes Urbanos, em 2010, eram 37 milhões de pessoas nesta condição em todo o Brasil. Porém, graças ao avanço nos empregos formais, o Plano Diretor de Transporte Urbano (PDTU) do Rio, que será finalizado no fim do mês, vai mostrar que (de 2007 a 2012) a demanda por metrô subiu 80%, por trem, 82,7%, por barcas, 79%, e por ônibus, 41%.

Se o cenário parece melhor, nem de longe a questão desses excluídos está resolvida. O DIA foi conferir quem são alguns desses brasileiros e, por três noites, visitou abrigos e pontos de concentração no Rio desses trabalhadores que, para manter o ganha-pão, precisam se virar e arrumar um teto. O que se viu foram pessoas envergonhadas e que escondem a situação da família e dos patrões.

Wagner dos Santos Júnior%2C de Piabetá%2C tinha de acordar às 3h30 para trabalhar na Barra e passou a dormir no Hotel PopularJoão Laet / Agência O Dia

O abrigo Santana, no Centro, é um belo exemplo de local inóspito. O público alvo são cidadãos em vulnerabilidade social: moradores de rua, viciados, doentes mentais … Junto a estes, principalmente em dias de chuva, se juntam trabalhadores sem dinheiro para voltar para casa. “Eles ficam envergonhados, não gostam daqui, não. O cheiro disso aqui fica na roupa. Alguns preferem ficar no pátio do Souza Aguiar (hospital)”, disse um funcionário do abrigo, que preferiu não se identificar. A Secretaria Municipal de Assistência Social informou não ver relação entre os “internos” e a questão da mobilidade urbana, apesar de admitir que recebe trabalhadores. Não foram autorizadas imagens ou entrevistas dentro dos abrigos .

O pátio do Hospital Souza Aguiar estava vazio na segunda-feira (dia 9). O guarda explicou o motivo: “O pessoal tá com medo de ficar aqui e ser recolhido como mendigo. Antigamente, estes bancos viviam lotados. Mas a prefeitura começou a fazer umas ações. Aí, sumiu todo mundo. Devem estar aí pela rua. O chato é que as famílias e os patrões, às vezes, nem sabem que eles passam por isso”.

Porém, dois dias depois (quarta-feira, dia 11) o cenário era diferente. Alguns trabalhadores dormiam sentados, enquanto outros pareciam desiludidos e “olhando para o nada”. Muito tímidos, ninguém quis dar declarações ou se deixar fotografar. O motivo era sempre o mesmo: vergonha.

Hóspedes do Hotel Popular economizam tempo e dinheiro

A ambulante Laurência Xavier, de 60 anos, dorme, de segunda a sexta, no Hotel Popular desde 2005, o que gera uma economia de R$ 10 por dia . “Vixe Maria! Não dá pra eu voltar pra casa. Eu ia ter que sair às 4h da manhã para trabalhar. Além disso, a passagem pra mim é muito cara. Não dá, não dá”, contou a moradora de Nova Iguaçu, que trabalha em Botafogo.

Já o técnico em eletrônica Orlando Vasconcelos Ponce, 64, mora em Casimiro de Abreu e trabalha na Zona Sul do Rio. Quando decidiu sair do interior, dormia na casa de parentes em São Gonçalo, mas logo buscou outra solução: “Ficando aqui no hotel eu deixo de gastar R$ 320,00 por mês com transporte. Sem contar que eu estava morando de favor, isso é chato para todo mundo.”

Ao lado da Central do Brasil%2C o Hotel Popular recebe trabalhadores para pernoite%3A opção para os excluídosJoão Laet / Agência O Dia

O pedreiro Wagner dos Santos Júnior, 30, trabalha na Barra da Tijuca e mora em Piabetá. Tinha que acordar às 3h30 para ir à labuta. “A economia é importante, mas o fundamental é o tempo que ganho. Era complicado, tinha que madrugar. Não tem ônibus direto. Eu era obrigado a fazer baldeação”, disse.

Os hóspedes são recebidos no hotel das 19h às 22h, podendo permanecer no local até às 7h. Lá a segurança e o ambiente de respeito são valorizados pela “família” formada por funcionários e usuários mais antigos. O diretor Frazolli resume o clima: “Aqui é a minha segunda casa.”

Onde os guerreiros tiram o sono dos justos

A dignidade estava estampada no rosto dos hóspedes do Hotel Popular, coordenado pela Fundação Leão XIII, do governo estadual, na Central do Brasil. Por lá, esta gente trabalhadora tem disponíveis 134 quartos individuais (106 masculinos e 28 femininos), roupa de cama limpa, chuveiro quente, área para ver televisão e refeitório. Serviço que atraiu mais de oito mil pessoas no primeiro semestre. E tudo isso a custo zero para os usuários. Para dormir as exigências são: trabalhar na capital e ter residência fixa.

Diariamente cerca de 70% dos quartos são ocupados. “Sim, ainda existe espaço para receber mais gente”, informou a assistente social Emília de Fátima Niterofe Gonçalves. Em 2011, o espaço ficou fechado alguns meses para reforma. E aí não foram poucas as ofertas para trabalhar de graça. “Aqui tem muita gente da construção civil. Mas a gente não aceita ajuda, não. Porque a lei não permite. Mas dá orgulho quando o pessoal quer colaborar. Aqui só dorme trabalhador”, contou o diretor da unidade Fábio Luiz Frazolli. Se na ala masculina os operários são maioria, pelo lado das mulheres as diaristas estão em vantagem: “Elas querem ajudar na faxina, mas a gente não deixa. Aqui o usuário é tratado com toda dignidade. Ele é hóspede”, definiu Emília, que, junto do diretor, já fez faxina e manutenção nas instalações.

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