Por tamyres.matos

Rio - Precisa-se de motoristas para contratação imediata. Em todo o Rio, esta propaganda de vagas pode ser vista em auto-escolas, jornais, ônibus e até em outdoors. Por trás dos anúncios, uma realidade: a Região Metropolitana tem hoje uma carência de três mil condutores de ônibus, de acordo com a Federação das Empresas de Transportes de Passageiros (Fetranspor).

As razões para esse déficit, além da alta rotatividade do setor, que chega a 46% ao ano, estão na concorrência do transporte de cargas em uma cidade que é um grande canteiro de obras e na repressão às vans irregulares, que começou pela Zona Sul, em maio, e chegou à Zona Oeste no início do mês.

Segundo a Secretaria Municipal de Transportes (SMTR), nas áreas em que as lotadas foram proibidas houve aumento na frota regular de coletivos de 20%. Ao todo, atualmente há 18 mil motoristas nas empresas de ônibus da cidade.

Suzana participou da primeira turma que usou o novo simulador de direção para o curso de condutores dos veículos do BRTCarlos Moraes / Agência O Dia

A Fetranspor explica, no entanto, que a carência de motoristas não quer dizer que os ônibus estejam parados na garagem. Os veículos são controlados por GPS pela SMTR. A empresa que não disponibiliza a quantidade de veículos estipulada pela prefeitura leva multa. Esse número, segundo a instituição, é a estimativa para suprir as vagas que serão abertas pelos que entram na profissão e desistem e pelos que estão saindo para outro setor. Motoristas ouvidos pelo DIA, no entanto, reclamam também das horas extras que fazem para compensar a falta de profissionais.

A disputa com o mercado de cargas, principalmente, por causa das obras que estão sendo realizadas para a Copa do Mundo, para os Jogos Olímpicos e também pelos novos investimentos imobiliários, é acirrada.

O coordenador de treinamento da empresa Pégaso, Marco Antônio Menezes, avalia que a falta de paciência para lidar com o público e o estresse dos engarrafamentos aparecem como principais fatores para que motoristas troquem os veículos de passageiros por caminhões e carretas, mesmo que estes últimos ofereçam um salário um pouco menor. “Eles pensam que a rotina no transporte de carga vai ser mais fácil”, contou.

Mulheres na mira das contratações

As companhias vivem uma verdadeira “caçada” aos motoristas de ônibus. E hoje o público-alvo se divide em três principais frentes: os ex-motoristas de vans, os cobradores e as mulheres. “Nós já assinamos um acordo com o Detran-RJ para formar o mercado de mão de obra. Vamos incentivar que mulheres que tenham carteira B (carro) passem por treinamento e adquiram a D (ônibus comum). E a gente vai bancar este treinamento. Junto disso, vamos sensibilizar as empresas para proporcionar a empregabilidade deste público”, disse a diretora da Universidade Corporativa do Transporte, Ana Rosa.

A executiva conta ainda que os ex-motoristas de lotadas são muito bem-vindos ao sistema formal. “É ótimo que o pessoal da van esteja migrando para os ônibus. Eles já dominam a parte técnica, e isso facilita o treinamento. Nós temos que atacar apenas a questão comportamental, para eles se adaptarem às normas de direção”, avaliou.

A contratação dos cobradores têm a vantagem de eles já estarem acostumados a lidar com o público e com a rotina do transporte. Além disso, evita o desemprego em uma função pressionada pelo avanço da bilhetagem eletrônica.

Simulador de última geração treina motoristas

A contratação imediata de motoristas deixa as empresas de ônibus em uma situação vulnerável: nem sempre o profissional tem a experiência desejável. Para ajudar as companhias a resolverem esta questão, a Fetranspor adquiriu quatro simuladores de direção, que recriam com exatidão situações da rotina do trânsito carioca. O Rio foi a primeira cidade da América da Latina a ter este tipo de tecnologia, que inicialmente está sendo usada para qualificar os condutores que estejam trocando os veículos convencionais pelos articulados do BRT.

O coordenador de treinamento Marco Antônio considera o salário baixo pela responsabilidade da profissãoCarlos Moraes / Agência O Dia

Os simuladores dos ônibus são desenvolvidos da mesma forma que os de aviões. A cadeira, por exemplo, é móvel e faz com o corpo do condutor reaja aos estímulos da velocidade e frenagem. O curso dura três meses. A intenção é que, depois que todos os profissionais do BRT, todos os motoristas da região metropolitana do Rio sejam contemplados no treinamento.

A motorista da empresa Pégaso Suzana Areia Ribeiro participou da primeira turma. “Este simulador é sensacional. A gente consegue ver exatamente como funciona o carro quando fura um pneu, por exemplo. Dá para saber como será a nossa reação quando aparece um animal de repente na pista”, explicou.

Nos três primeiros meses, 30% deles desistem

Há mais de 22 anos trabalhando no setor, o coordenador de treinamento da empresa Pégaso, Marco Antônio Menezes, conta que o mercado nunca esteve tão aquecido. “A cada dez motoristas que eu formo, pelo menos três vão sair ainda no período de experiência, que é de três meses. Eu acho que o salário é até baixo para a responsabilidade e o estresse que eles têm”, avaliou.

Os interessados em assumir uma das muitas vagas de motorista de ônibus deve acessar o site da Fetranspor e cadastrar-se no banco de currículos. O salário chega a R$ 1.740 por um período de sete horas diárias.

Há três anos trabalhando no setor de transporte de passageiros e conduzindo ônibus comuns, a motorista Suzana Areia Ribeiro foi atraída pelo salário mais alto no BRT e fez o curso com simulador. “Sempre sonhava em dirigir ônibus desde criança. Mas na época não era comum ver mulheres fazendo isso. Agora, sou motorista de veículos articulados que levam até 150 pessoas”, disse ela, que, na primeira viagem do BRT, quis até chamar a mãe para assistir ao feito.

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