Por thiago.antunes

Rio - ‘Relembro bem a festa, o apito / E na multidão um grito / O sangue no linho branco”. O trecho da letra da música “O Divã”, cantada por Roberto Carlos, faz menção ao acidente que o cantor sofreu quando ainda tinha seis anos de idade. Em sua biografia, proibida desde 2007, o jornalista Paulo Cesar de Araújo conta que a tragédia aconteceu quando o “Rei” assistia a um desfile à beira de uma ferrovia e teve a perna prensada pelas rodas do trem. O tempo passou e em todo o Brasil pedestres continuam dividindo as linhas férreas com locomotivas, carros, motos e bicicletas. No Rio de Janeiro, não é diferente. Porém, uma proposta elaborada pela concessionária SuperVia pode mudar este cenário.

O projeto demanda do PAC da Mobilidade cerca de R$ 600 milhões para a construção de muros, passarelas e viadutos, eliminando de vez as 40 passagens de nível oficiais e os mais de 150 acessos clandestinos à via férrea. De acordo com a concessionária, o plano foi apresentado mês passado para os governos estadual e federal.

A proposta inicial prevê a construção de 57 viadutos: 10 no ramal Deodoro; 13 no ramal Santa Cruz; 17 no ramal Belford Roxo; 11 no ramal Japeri; e sete no ramal Saracuruna. Para se ter noção do perigo dos cruzamentos, somente neste ano, foram registradas 27 colisões com os trens e 10 atropelamentos. 

Na Pavuna%2C passagem é caótica%2C com carros%2C motos e pedestres na linhaCarlo Wrede / Agência O Dia

A SuperVia informa que fecha, em média, quatro passagens clandestinas por mês nos 270 quilômetros de ferrovias. Mas é algo como enxugar gelo: em 30 dias, três delas são reabertas.
Especialista em Transportes da UERJ, Alexandre Rojas ressalta que, além da questão da segurança, sem os cruzamentos a velocidade média dos trens vai aumentar, diminuindo o tempo das viagens.

“O fim das passagens em nível acaba também com a divisão do espaço urbano. Mas o que o governo vai fazer com as famílias que vivem na linha do trem? Tem que desapropriar todo mundo. Onde vão morar? É uma decisão política. É ótimo, mas o governo do estado precisa se posicionar e fazer acontecer”, disse. A Secretaria Estadual de Transportes foi procurada, mas não quis se pronunciar.

Genivaldo vende pedaços de bolo na ferrovia sem se preocupar com o apito que avisa da proximidade do tremCarlo Wrede / Agência O Dia

Cruzamento tem de tudo

O DIA foi conferir na última quinta-feira o cruzamento próximo à estação Pavuna, considerado uns dos mais problemáticos. E, de fato, pedestres dividem espaço com trens, carros, bicicletas e motos. Sem noção do perigo, o vendedor Genivaldo Pereira, 29 anos, andava de bicicleta em cima da linha do trem, quando alguém gritou: “tem bolo!?”Ali mesmo, em cima dos trilhos, o negócio se fez. A sirene que avisa a chegada do trem nada intimidou: “pode ficar tranquilo, dá tempo, dá tempo”, orientou.

Já dona Maria do Socorro, 80 anos, é aposentada. “Para atravessar, eu peço ajuda para o guarda. Semana passada o carro pegou uma senhora. Eu só fico com medo porque não aguento correr, disse.

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