Fetranspor propõe flexibilizar horários de trabalho no Rio

Para reduzir fluxo no rush, empresas de ônibus podem dar descontos em horas alternativas

Por O Dia

Rio - Imagine empresas, instituições públicas e escolas com horários de entrada e saída diferenciados para que trabalhadores e estudantes possam pegar o transporte público mais vazio e o trânsito mais livre. É isso que a Federação das Empresas de Transporte de Passageiros do Estado do Rio (Fetranspor) vai propor ao poder público em 2014. Como estímulo à adoção da medida, caso a prefeitura e o governo estadual abracem a campanha, os empresários poderão até reduzir as tarifas de ônibus para quem viajar fora das horas de pico.

A engenheira Juliana Calixto leva uma hora do trabalho%2C no Centro%2C para casa%2C no Recreio dos Bandeirantes%2C fora dos horários de picoAlexandre Vieira / Agência O Dia

A ideia é diluir a quantidade de pessoas usando o transporte público ao mesmo tempo para sair e voltar para casa. A prática permite, com a mesma estrutura já existente, aumentar o conforto de passageiros e reduzir engarrafamentos, já que o fluxo de carros também seria diluído ao longo do dia.

“Nós podemos estimular a sociedade oferecendo um preço diferenciado para quem usar o transporte de massa fora do horário de pico, mas a participação do poder público será fundamental no processo”, disse Lélis Teixeira, presidente da Fetranspor, que representa as empresas de ônibus.

De acordo com o executivo, o poder público poderia oferecer incentivos aos empregadores que aderirem ao reescalonamento de horários dos seus funcionários.

O secretário municipal de Transportes, Carlos Roberto Osório, contou que a ideia está de acordo com a forma que a prefeitura vem pensando a mobilidade urbana. “Olha, para isso funcionar, a gente tem que fazer muito estudo. E tem que conversar com a sociedade e com os setores econômicos. Mas não há dúvidas de que esta medida aumentaria muito o potencial dos modais e teria um retorno quase que imediato de qualidade dos transportes”, avaliou.

O coordenador do Movimento Nacional pelo Direito ao Transporte (MDT), Nazareno Stanislau Affonso, lembra que fazer a medida funcionar não será tão fácil. “A gente vai ter que convencer a sociedade de que isso vai ser melhor para todo mundo. Mas como fazer isso? As escolas, por exemplo, vão mudar o horário das aulas? Assim, a ideia é muito boa, mas a discussão ainda tem que amadurecer”, analisou o especialista. Procuradas pelo DIA, a Associação Comercial do Rio, a Fecomércio-RJ e a Federação das Indústrias do Estado do Rio (Firjan) não comentaram a proposta.

Tempo de deslocamento menor

A engenheira de computação Juliana Calixto Acchar de Carvalho, de 29 anos, conta que pode levar até o triplo do tempo se fizer um horário convencional, das 9h às 18h. “Demoro uma hora no percurso de casa para o trabalho. No horário de pico, demoraria até 3h”, conta ela, que mora no Recreio dos Bandeirantes e trabalha na empresa de engenharia Radix, no Centro. Ela conta que tem flexibilidade para mudar o horário e que, às vezes, prefere chegar depois das 10h30 no trabalho. “Desde que não comprometa o projeto que estou fazendo, organizo meu turno com vontades pessoais, como surfar antes do trabalho”.

Para o analista de marketing da Michelin, Gabriel Hackme, ter a opção de escolher o horário é excelente. “Moro em Botafogo e consigo ter tempo para sair do escritório na Barra e fazer outras atividades", diz.

Para companhias, prática ajuda a atrair talentos

A gerente de RH da Michelin, Giselle Câmara, avalia que a flexibilidade de horários auxilia no rendimento das equipes e diz que a medida, já adotada pela empresa, que tem sede na Barra da Tijuca, é elogiada pelos colaboradores. “É um dos pontos que as pessoas mais exaltam como positivo nas nossas pesquisas internas. Quando há grandes eventos aqui, como o Rock in Rio, a empresa estimula quem ainda não optou por aderir aos horários diferenciados a fazer isso nesta época pelo menos”, conta.

Para o CEO da empresa de engenharia carioca Radix, Luiz Rubião, a flexibilização de horários melhora a qualidade de vida dos funcionários e aumenta a atratividade de talentos para a companhia. “Sempre que é possível adotar uma grade com horários alternativos, sem que comprometa o trabalho, é a opção escolhida aqui. Ainda mais com o trânsito que temos, que está em colapso”, conta o CEO da empresa, fundada há três anos no Centro do Rio.

A opção parece ter dado resultado. A empresa foi eleita três vezes como a melhor para se trabalhar no Rio de Janeiro pela consultoria Best Place to Work. Rubião, porém, avalia que o poder público deveria dar incentivos à prática. “Considero importante o estímulo fiscal para quem adota isso e também para empresas que consigam se distribuir pela cidade, com pequenas filiais, encurtando deslocamentos”.

Medida foi usada nas Olimpíadas de Londres

O reescalonamento de horários é uma medida comumente adotada para minimizar os efeitos de grandes eventos nos sistemas de transportes. Nas Olimpíadas de Londres, em 2012, a companhia responsável pela operação do metrô pediu às empresas da cidade a flexibilização dos horários de trabalho, o uso de videoconferências e a adoção de trabalho remoto durante os Jogos para evitar o caos na mobilidade urbana.

Aos cidadãos que não podiam mudar seus horários ou trabalhar de suas casas, a companhia sugeriu que trocassem o transporte público pelas bicicletas ou que caminhassem para o trabalho. Para os que não podiam evitar o uso do metrô, as autoridades recomendaram ainda que ‘bebessem uma cerveja’ após o expediente para esperar o fim do horário de pico.

No Rio, na Copa das Confederações, em junho, considerada um teste para o Mundial de 2014, a prefeitura determinou feriado parcial em escolas e repartições nos dias de jogos para minimizar os efeitos na mobilidade urbana. Já na Jornada Mundial da Juventude, em julho, a opção foi a decretação de feriados em toda a cidade para conter o aumento da demanda nos transportes.

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