Por marlos.mendes

A 24 dias de sediar a Copa do Mundo, 77% das obras de mobilidade (incluindo as do entorno dos estádios) ainda não foram entregues e, muitas delas, serão inauguradas incompletas. O levantamento é do Sindicato da Arquitetura e da Engenharia (Sinaenco) que fiscaliza as 12 cidades-sedes. De acordo com a entidade, se não forem consideradas as intervenções nos entornos dos complexos esportivos, a situação é ainda mais preocupante: 88% ainda não foram inauguradas. Ou seja, das 35 obras, só quatro estão concluídas.

Além disso, dos projetos prometidos inicialmente pelas cidades-sede, 38,5% já haviam sido retirados da matriz de responsabilidades (documento em que os governos municipais, estaduais e federais assumiam o compromisso de concluir os empreendimentos). Entre os que permaneceram na matriz de responsabilidades, o VLT (sigla para Veículo Leve sobre Trilhos) de Cuiabá (MT) já teve a conclusão até o Mundial descartada. A dúvida do governo de Mato Grosso é se a obra será inaugurada ainda em 2014.
A exemplo disso, estão Rio, Cuiabá e São Paulo, onde ainda há dúvidas se as melhorias ficarão prontas até o início do mundial, informou o Sinaenco.

Em Recife, o BRT (Bus Rapid System) só vai funcionar até a Copa com três das 45 estações previstas. No Rio, outro corredor exclusivo de ônibus também vai funcionar durante o Mundial sem todas as estações prometidas. Na sexta-feira, a Prefeitura do Rio de Janeiro informou que serão inauguradas 23 estações em junho.

Ainda na capital carioca, a modernização e integração da estação Maracanã do metrô e do sistema de trens, com implantação de passarelas para o deslocamento do público que vai assistir aos jogos no estádio, também atrasou. A inauguração, inicialmente prevista para março, não ocorreu, mas a Secretaria Estadual de Transportes garante que ambas serão entregues até a competição.

No Rio de Janeiro%2C o corredor do BRT Transcarioca será inaugurado no dia 1º de junho com 22 das 45 estações previstas para o projeto Divulgação

As cidades de Porto Alegre e Belo Horizonte, que já retiraram alguns projetos da matriz de responsabilidades, também têm pendências. Na capital gaúcha, das 14 obras planejadas inicialmente, apenas duas devem ser entregues e, mesmo assim, a duas semanas do campeonato.

As demoras e alterações também aumentaram os orçamentos das obras. O governo de Minas Gerais, por exemplo, que originalmente gastaria R$ 1,19 bilhão, teve de investir mais R$ 210 milhões mesmo com uma das oito obras previstas na área de mobilidade cancelada (a Via 710). Na lista do legado mineiro, estão três corredores de BRT.

Com pressa, qualidade fica comprometida, diz especialista

O cronograma atrasado de entrega das obras de mobilidade é motivo de preocupação para o engenheiro civil e professor da Universidade Federal Fluminense (UFF) Gilberto Gomes Gonçalves. Especialista em Transportes, Trânsito e Malha Viária, o docente alerta para eventuais problemas que podem ocorrer nos sistemas de transportes e vias que foram concluídas às pressas para o mundial. “Quando empreendimentos são executados a toque de caixa, não é possível compatibilizar o prazo com a técnica. Os governos deveriam ter planejamento para que as obras pudessem ser concluídas com a boa qualidade”, ressaltou.

Mesmo com a possibilidade de que alguns projetos não sejam finalizados ou estreiem sem o pleno funcionamento, o engenheiro considerou, no entanto, que isso não irá atrapalhar o deslocamento durante os dias de jogos ou comprometer as demais operações de tráfego e transporte das cidades-sedes. “As prefeituras vão traçar estratégias para que a realização do evento não cause transtornos ao trânsito. Haverá, primeiro, menos gente utilizando os modais devido à determinação de feriado em dia das partidas de futebol. Sobre o dia-a-dia, se, por exemplo, estiver prevista extinção de linhas de ônibus por causa da implantação do BRT, será feita de forma gradual, até que as estações estejam totalmente disponíveis ao público”, concluiu.

Matéria publicada no jornal Brasil Econômico

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