Por tamyres.matos
Rio - Pasmo e incredulidade. É o que provoco quando alguém pergunta pelo meu e-mail. “Não tenho”. Afinal, sou cartunista e jornalista há 60 anos, deveria ter um. Mas, aos 81, não tenho saco para aprender coisas novas, o máximo que consigo fazer no computador é consultar o Google quando me falha a memória. E ela está falhando cada vez mais. Mesmo assim o tio Guga, como chamo para dar a impressão de que somos íntimos, não é nenhuma brastemp. Já o peguei em erros primários no meu ramo, que sou obrigado a conhecer por força do ofício.
Imagino que o mesmo aconteça com médicos, carpinteiros, geógrafos, matadores de aluguel e outros especialistas. O Google não é onisciente como Deus. Muito pelo contrário, como já disse lá atrás (tá na moda, bleargh), é a maior lata de lixo da História. Mas bons catadores de lixo sempre acham alguma coisa que preste. “E aí?” — perguntam. “Como manda para O DIA as charges e as crônicas?” A resposta: “Célia quebra meu galho”. Uma coisa a favor da internet: reabilitou o w, que quase foi banido do alfabeto e hoje é a letra mais publicada no mundo. Só dá www. Eu disse lá em cima (tô na moda) que publico cartuns há 60 anos. Acho graça no pessoal que faz o maior estardalhaço quando completa 40 anos de carreira (Luiz Melodia), 30 (Zeca Pagodinho e Lulu Santos) e até 20 (Adriana Calcanhotto), com shows e discos comemorativos. Ziraldo, que tem a minha idade, mas começou mais cedo, tem 66 anos de profissão. Pra não falar de Bibi Ferreira, com 90 anos de teatro. Ela praticamente nasceu no palco.
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Pois é, o Ziraldo. Nos conhecemos há 60 anos, já brigamos algumas vezes; agora estamos conformados em nos tolerar o resto da vida. Dos três velhinhos do humor (Millôr foi-se), sobramos dois. Tínhamos um vago projeto de, aposentados, sentar num banco e ficar falando besteira ou não num banco no Arpoador. “O pôr do sol é de quem olha” (Millôr). Mas (furo! furo!) isso vai acontecer. No dia 27 de maio, ao cair da tarde, será inaugurado o banco (não confundir com Banco) do Millôr Fernandes, no Largo do mesmo nome, no Arpoador. Projeto do escritório de Jaime Lerner e viabilizado por Marino Garofani, da Brafer. Chico Caruso recortou a figura do pensador de Ipanema numa placa de aço e quem costurou todo o esquema foi Luiz Gravatá, fiel escudeiro do maior humorista do Méier, como ele se definia (para mim, do mundo).