Ricardo Cravo Albin: Bambas do samba em tributo

Jamelão, que detestava a palavra ‘puxador’, foi na exata acepção do termo o intérprete, o cantor, a voz

Por O Dia

Não, não são os bambas de hoje, ícones de reconhecimento geral. Refiro-me, aqui — e o faço com emoção — aos centenários (neste mês) de nascimento de Jamelão e de Cyro Monteiro. Fiquem certos de que cabe fazer este preito — modestíssimo embora — a ambos, que foram figuras de essência no século 20.

Sobre Jamelão, o mais conhecido hoje em dia, não precisaria me estender muito, já que sua memória está mais acesa que a de Cyro na lembrança coletiva. Até porque ele foi a voz da Estação Primeira. Voz no sentido literal, já que era o intérprete oficial do samba-enredo, ponto culminante de ordenação e vida da agremiação.

Jamelão, que detestava a palavra ‘puxador’, foi na exata acepção do termo o intérprete, o cantor, a voz. E que voz! Por décadas a fio seria a personificação da alma, do suspiro, do êxtase da Mangueira. Jamelão, contudo, participou paralelamente da Era do Rádio como cantor de sucesso. E de consagração, já que colheu na fonte, e criou, obras de compositores como Lupicínio ou Ary Barroso.

Sobre Cyro Monteiro, para celebrá-lo, basta emitir-se frase de Vinicius de Moraes: “Ele é o maior cantor brasileiro, além de ser um abraço na humanidade”. O poeta, como sempre, antevia a verdade e a beleza. Cyro foi, a par do cantor mais cheio de bossa, de precisão, da malícia e manemolência do samba, um ser humano iluminado.

Conheci-o muito bem, até mais que Jamelão, e posso asseverar que o Formigão, seu apelido na radiofonia, foi mesmo pessoa rara. O convívio com ele, além de um prazer, era um prêmio. Criador de parte da antologia da MPB, seus sucessos contam-se às dezenas. As músicas que ele criou ainda estão engastadas nas gargantas e na alma do repertório de sempre, das serestas, das rodas de bamba.

Portanto, celebro — por dever e por paixão — as memórias de Jamelão e de Cyro Monteiro, os aniversariantes de maio nos seus cem anos de nascimento. O país — se fosse mais atento e justo com sua memória — deveria manifestar-se mais e melhor.

Ricardo Cravo Albin é presidente do Instituto Cultural Cravo Albin

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