Por bferreira
Rio - 'Meu marido é o dinheiro que eu ganho: paga todas as minhas contas no dia certo, nunca atrasa, não reclama e não pergunta pra que foi o gasto!”. A noite da festa do Rio Sem Preconceito começava muito bem, pois eu estava no táxi certo com a motorista certa, me levando ao convite de Carlos Tufvesson e Alice Pelegatti, no Circo Voador da Lapa. Marion, a bela negona enfeitada de rosas e rendas, era a taxista, suburbana divina, lutadora e cheia de histórias para me contar (tipo ‘Senhora do Destino’): “Sou bonita e elegante assim para me livrar das cantadas... delas! Todo o respeito do mundo, mas o meu assunto é homem, negão de preferência; mas nada de morar junto, só namorico e tchau e bença. Só esta cidade carioca para produzir esta gente carioquíssima e única. Nos despedimos aos beijos, porque ela tem este borogodó de rainha gay, musa. A festa começou com os Dzi Croquettes fazendo a dança flamenca e a poesia das borboletas, marcando a perspectiva histórica, onde faltou Rogeria, Jane di Castro, Eloína, todas importantes e inesquecíveis para chegarmos aos dias de hoje.
Depois, a divinérrima Zelia Duncan em cena. Impressionante. Fernanda Abreu, minha Deusa, errou em não escolher ‘É hoje!’, pois faltou um samba de enredo numa festa dirigida pelo querido Pretinho da Serrinha. Tony Garrido foi correto, mas ficou para os setentões o escândalo total: bastou Ney Matogrosso entrar de pretinho básico para a multidão desejar sua mão, o Totem da Subversão e da Liberdade, que tanto ajudou o Brasil a pensar a diversidade. Ele botou os cérebros para pensar em duas músicas intensas. Fechando a comemoração, Caetano Veloso solar cantou a luz de ‘Tieta’, tipo tambores do Olodum. Veio abaixo e terminou perfeita a noite. Agora vamos ao que interessa: a campanha em si, os filmes publicitários que terminam com as estrelas dizendo que um dia o preconceito chega até você, e que uma cidade tão linda como o Rio não combina com a intolerância: após Fernanda Montenegro e outras darem o texto, surge sempre o Dois Irmãos e Ipanema e Leblon, o velho e batido, e lindo, cartão postal da Zona Sul da gente descolada e intelectualizada. Tudo bem, tudo certo, mas tão manjado...
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Numa campanha com este mote é imperdoável não aproveitar para mostrar a lindeza do subúrbio, o churrasquinho de gato, a Quinta, um outro olhar. Porque como diz a Marion Taxista, do começo da crônica, bom mesmo, no Rio, vai de trem, ônibus, van ou limusine.
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